Yara Costa, artista moçambicana radicada na Ilha de Moçambique, convida-nos a mergulhar na sua obra "Nakhodha e a Sereia". Esta instalação, que ressoa a cultura e a história das populações costeiras, é também um alerta sobre o aquecimento global. Embrenhando-nos na antiga Alfândega, somos transportados numa viagem que une o passado ao futuro, numa reflexão sobre a relação do homem com o mar. Na entrevista que se segue, não só descortinamos os pormenores desta criação como também exploramos o universo da artista e os seus projectos para o futuro.
Qual foi a sua principal inspiração para criar a instalação “Nakhodha (Nahota) e a Sereia”?
Não foi apenas uma fonte inspiração. Sou movida pela curiosidade e pelo desconhecido. A Ilha de Moçambique, onde resido, e a conexão das pessoas com o mar são narrativas ricas que evocam passado, presente e possivelmente futuro que definitivamente me inspiraram. A relação das comunidades costeiras com o oceano, o elo com a natureza e as histórias não documentadas realmente cativam-me. São essas narrativas singulares, não contadas e poderosas que me fascinam.

A escolha da antiga alfândega na Ilha de Moçambique para a instalação foi propositada em termos de simbolismo?
Sim, a escolha foi absolutamente intencional. Aquele espaço histórico, até à data, ecoava uma única narrativa. No entanto, ele simboliza fortemente o legado colonial português no país. O local evoca memórias do intercâmbio comercial entre o Oriente e o Ocidente, da troca de especiarias e marfim, e, crucialmente, da venda de seres humanos como escravos. Assim, senti uma necessidade de povoar este espaço com outras narrativas vivas que também integram o nosso legado e o nosso presente.

A reacção do público tem estado em linha com as expectativas?
A resposta do público excedeu tudo o que eu poderia antecipar. A magnitude do impacto da obra levou-me até França, onde fui distinguida com um prémio pela Ministra da Cultura e tive a oportunidade de dialogar com o presidente francês sobre o projecto. Os comentários positivos têm sido um presente inesperado, sugerindo que a instalação tem o potencial de tocar ainda mais corações.

Pode falar-nos sobre a inclusão da realidade virtual na sua instalação e a experiência que proporcionou ao público?
Vejo a realidade virtual como mais uma ferramenta de narração. Seja através do cinema, da escrita ou da realidade virtual, o meu interesse é contar histórias. Na minha instalação, a realidade virtual simboliza a experiência do Nakhodha, capitão do dhow, uma embarcação árabe swahili, um profundo conhecedor dos segredos dos ventos, marés e das estrelas. Esta tecnologia possibilita uma experiência imersiva, transportando o espectador para uma realidade alternativa, seja regressando ao ano de 1749 ou antecipando 2030, onde se destaca o perigo iminente da subida do nível do mar para toda a região. Quero criar uma ponte entre as tecnologias ancestrais e modernas, mostrando que ambas podem coexistir e enriquecer-se mutuamente.

A história de Jorge Jamal Sadique foi a faísca para a criação deste projecto ou encontrou-o durante o processo de pesquisa?
O meu interesse pelo tema já existia e guiava a minha pesquisa. Contudo, o encontro com Jorge Jamal Sadique, numa tarde à beira-mar durante o meu aniversário há alguns anos, foi revelador. Rapidamente, compreendi que estava perante uma fonte inestimável de sabedoria e perspectivas pouco visíveis e valorizadas. Jorge foi uma porta para um universo que, até então, apenas conhecia superficialmente. A aprendizagem com ele foi profunda e enriquecedora, tornando-se uma componente fundamental deste projecto e outros projectos.

No passado, concentrou-se mais em documentários. Esta transição para instalações imersivas representa uma nova fase na sua carreira ou apenas uma forma diferente de contar histórias?
Vejo-o como mais um veículo distinto para contar histórias. Sou, essencialmente, uma contadora de histórias e a instalação imersiva é mais ferramenta ao meu dispor. Algumas narrativas pedem este tipo de representação, em todo o caso, estou também a desenvolver um filme intitulado "Em Busca da Sereia" baseado na minha pesquisa. Embora seja uma experiência pioneira para mim, esta forma de arte dialoga com o cinema e pode até ser interpretada como tal, mas sob uma óptica diferente. A minha paixão pelo som e pelo cinema permanece, mas a evolução tecnológica ampliou as minhas possibilidades de expressão.

Como é que a sua experiência anterior influenciou a abordagem deste trabalho? A sua formação em diversos países influenciou a maneira como encara o cinema e a arte de contar histórias?
A minha formação é uma parte intrínseca de quem sou, mas são as pessoas que encontrei, oriundas de variados cantos do mundo e com distintas visões, que verdadeiramente enriqueceram a minha perspectiva. Esta diversidade de experiências tem-me guiado na busca da minha voz única na arte de contar histórias. Em tempos de acesso globalizado à cultura, o desafio reside em encontrar a nossa própria voz nesse vasto coro. Quanto mais me exponho a diferentes influências, mais definida se torna a minha direcção e o prisma através do qual quero partilhar histórias.

O que a levou a criar a curta-metragem sobre o ciclone Idai? Como foi a experiência de filmar em áreas tão afectadas pela catástrofe?
A minha curta-metragem filmada no Donde, Sussundenga, na província de Manica, denominada "Ruínas do Rio", nasceu de um convite de uma organização que tinha um projecto na região. Embora o convite não fosse directamente para produzir um filme sobre o trabalho da organização, encorajava-me a experienciar o local e os seus habitantes. Quando visitei a zona, foi algum tempo depois do ciclone Idai e, em vez de me focar nas imagens imediatas de devastação, fui atraída por uma perspectiva mais reflexiva, que requer contemplação. Mesmo com evidências claras da destruição, o meu principal foco recaiu sobre a forma como as comunidades interpretavam estas súbitas alterações nos padrões da natureza. Esta viagem provou ser extremamente valiosa, levando-me a conceber a ideia para a instalação imersiva e incentivando-me a aprofundar o entendimento ecológico das sociedades e comunidades tradicionais. Rapidamente compreendi o profundo respeito ancestral que estas comunidades têm pela natureza, um conhecimento que, muitas vezes, nos escapa enquanto urbanos. Infelizmente, persiste a ideia errónea de que estas sociedades são primitivas, ignorando a vasta sabedoria e ciência e o equilíbrio que albergam.

Quais os maiores desafios que enfrenta como cineasta em Moçambique, especialmente sendo uma mulher na indústria?
Um dos primeiros desafios é reconhecer a inexistência de uma verdadeira indústria cinematográfica consolidada em Moçambique. Apesar de existirem indivíduos dedicados à produção cinematográfica, afirmar que temos uma indústria é um equívoco. Uma indústria sólida implica um conjunto de técnicos especializados e profissionais qualificados dedicados exclusivamente ao cinema, algo que não se verifica no nosso país. Os cineastas de renome não sobrevivem unicamente dos seus filmes. Portanto, acreditar cegamente na existência desta indústria pode ser um erro perigoso, que nos afasta da nossa realidade e nos impede de procurar soluções adequadas. O verdadeiro desafio reside em permanecer activo numa área sem uma estrutura sólida, enfrentando dificuldades que vão desde a obtenção de financiamento e questões de distribuição à falta de profissionais qualificados. Ser mulher em Moçambique é, em si, um desafio, e o mundo do cinema não é excepção. O sector cinematográfico não está imune às dinâmicas sociais mais gerais, e os preconceitos e desigualdades que afectam as mulheres em diversas áreas também se fazem sentir no cinema. Assim, os obstáculos que enfrento não diferem muito dos que outras mulheres moçambicanas enfrentam em diferentes áreas profissionais.

O que podemos esperar para os próximos tempos?
Actualmente, estou a desenvolver um filme denominado "Em Busca da Sereia", sobre temas que tenho explorado nos últimos quatro anos. Apesar de já contar com algum financiamento de fora para o desenvolvimento, a necessidade de recursos para a produção, permanece. Acredito que 2024 será um ano de dedicação e empenho neste projecto, com a esperança de trazê-lo à realidade. Em paralelo, a instalação “Nakhodha e a Sereia” tem como ambição percorrer diversos portos, iniciando na Ilha de Moçambique e passando por Pemba, Nacala, Quelimane e Beira, com o desejo de também marcar presença em Inhambane e concluir em Maputo. Este trabalho artístico não é exclusivamente meu ou da Ilha de Moçambique; aborda temas de relevância para todos nós, moçambicanos, africanos e, diria, para toda a humanidade, já que reflecte sobre a crise ambiental, oferecendo possíveis soluções. Seria um sonho vê-lo viajar pela costa suaíli e até alcançar portos internacionais. Recentemente, durante uma visita a França, fui agraciada com um prémio da ministra da cultura da França e tive o privilégio de dialogar com o presidente francês sobre a crucialidade de investir seriamente nas artes e cultura. É imperativo que deixemos de encarar a cultura meramente como um adereço folclórico e reconheçamos o seu valor intrínseco como motor de desenvolvimento. Imaginemos um país onde para cada igreja, templo ou mesquita existisse um centro cultural estruturado e activo e onde a educação cultural e artística fosse parte integrante do currículo escolar desde o início. Qual seria o nosso futuro em 5 ou 10 anos? O meu objectivo agora é projectar “Nakhodha e a Sereia” da Ilha de Moçambique para o panorama global.