Há artistas para quem criar é uma forma de transformar memórias, emoções e experiências numa linguagem capaz de chegar aos outros. Para Lizette Chirrime, essa linguagem encontrou no tecido um dos seus mais poderosos meios de expressão. A artista moçambicana construiu um percurso marcado pela identidade, pela condição humana e pelas suas próprias vivências, levando o seu trabalho a diferentes países e importantes espaços internacionais. Nesta conversa com a Xonguila, Lizette regressa às origens do seu percurso, fala da relação que mantém com o tecido, dos momentos que marcaram a sua carreira e dos sonhos que ainda pretende concretizar.

Onde começou a história de Lizette Chirrime enquanto criadora?
A história da Lizette Chirrime como criadora começou quando trabalhava na Generic Engineering. Foi a primeira vez que consegui pagar a renda de uma casa decente para morar e precisei de mobiliá-la. Eu fazia a minha mobília com materiais descartados, fazia os meus próprios tapetes e várias outras coisas. Tive sempre uma grande queda pela arte, pelo artesanato e pelas coisas naturais. Mas só em 2003 assumi a arte como profissão a tempo inteiro.

O tecido ocupa um lugar central no seu trabalho. O que encontrou neste material que não encontrou noutras formas de expressão artística?
Encontrei uma casa, um lugar seguro, algo que vivia procurando nos seres humanos e que encontrei no tecido. Um bebé, quando nasce, antes de encontrar a mãe, encontra um tecido que o envolve.

As suas obras nascem de memórias, emoções, lugares e experiências muito pessoais. O que mais a inspira quando começa a criar?
O quotidiano, o meio ambiente, os sonhos, enfim. Uso o tecido como base da minha expressão e comunicação.

Olhando para o seu percurso, qual foi o momento que mais a marcou e que, de alguma forma, mudou o rumo da sua carreira?
Tive dois momentos muito fortes. O primeiro foi no dia em que parei de correr atrás da atenção e da validação da minha família. Mergulhei profundamente dentro de mim e encontrei as ferramentas para a minha libertação, expressão, comunicação e auto-sustento. O segundo foi o momento em que o Universo afastou de mim todas as pessoas a quem eu chamava amigas e amigos e deixou-me completamente sozinha, sem amigas nem amigos. Praticamente, o Universo forçou-me a concentrar-me em mim, no meu filho e na minha carreira. A partir daí, comecei a ver as maravilhas e a sentir o poder da coisa.

O seu trabalho já a levou a diferentes países e continentes. Que lugares fizeram parte desse percurso e qual dessas experiências deixou uma marca especial em si e na sua obra?
Em Londres, na feira 1-54, houve um caso em que várias pessoas compraram a minha obra. A mesma obra. Outro momento foi quando participei numa exposição colectiva no Vestfossen Kunstlaboratorium, na Noruega, com vários artistas muito grandes, poderosos e famosos. Em Paris, em Abril do ano passado, fui apresentar e falar sobre o meu trabalho no Museu do Louvre. Partilhei o palco com vários artistas e curadores importantes, como Ernesto Neto, e guiei três workshops no Centre Pompidou. Durante a minha estadia, tive a honra de conhecer a grande artista Anna Maria Maiolino, que estava a expor no Museu Picasso, e também de conhecer o neto do consagrado artista Pablo Picasso.

Participou numa residência artística em França, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Thanks for Nothing. O que representou essa experiência para si e para o seu processo criativo?
Foi um momento de grande estímulo e de reafirmação de que estou no caminho certo.

Recentemente apresentou «A Negligência do Sagrado Portal da Vida», uma exposição dedicada às mães e à maternidade. Como nasceu este projecto e que mensagem quis transmitir através dele?
Esta exposição nasceu num momento em que sentia uma grande urgência de fazer as pessoas perceberem que, afinal, o portal da vida é a mulher e que ela precisa de ser respeitada, ouvida, entendida e protegida.

A moda também fez parte do seu percurso e continua a surgir no seu universo artístico. Que relação mantém hoje com o vestuário e até onde gostaria de explorar esse diálogo entre arte e moda?
A moda é uma forma de estar, é uma expressão do ser que sou. A relação que mantenho com o meu vestuário é a de uma ferramenta que me permite lembrar de onde venho, quem sou e aonde quero chegar. Comecei a fazer as roupas com o intuito de conhecer a minha verdadeira identidade, porque ninguém é igual a ninguém, apesar de sermos parecidos. Foram surgindo pessoas interessadas nas minhas roupas e decidi criar peças e os respectivos desfiles, que se estão a desenvolver além-fronteiras.

Depois de tantos anos a levar o seu trabalho a diferentes partes do mundo, o que significa para si criar a partir de Moçambique e levar consigo uma identidade moçambicana e africana?
Sendo eu moçambicana, sinto-me no dever de servir o País e foi através da arte e da cultura que encontrei a minha voz e as ferramentas para melhor representar Moçambique e a sua diversidade cultural.

Em que está a trabalhar neste momento e que novos caminhos, exposições, colaborações ou sonhos gostaria ainda de concretizar?
O meu maior sonho é conseguir reabilitar o meu espaço, para que tenha capacidade de receber artistas de vários pontos do mundo para intercâmbio cultural e oferecer mentoria a adolescentes desfavorecidos.