Há artistas que acompanham o seu tempo. Outros preferem desafiá-lo. Ao longo de mais de duas décadas, Valete fez do rap muito mais do que música. Transformou-o num espaço de reflexão, intervenção e resistência, onde a palavra continua a ser uma forma de questionar o mundo. Sem ceder às tendências nem à lógica dos números, continua a defender a arte como um acto de liberdade e compromisso. Nesta conversa, fala da responsabilidade de quem tem um microfone, da amizade com Azagaia, da ligação profunda a Moçambique, da juventude africana, do capitalismo, da cultura e da esperança. Entre memórias e convicções, revela um pensamento que permanece fiel à missão que traçou desde o início: fazer arte que resista ao tempo, porque há causas que sobrevivem às gerações e há lutas que não envelhecem.

Há artistas que acompanham o tempo. Outros acabam por confrontá-lo. Em que lugar sentes que estás hoje?
Eu continuo no mesmo lugar de sempre. Tenho uma missão artística e uma missão social. O tempo não me amedronta, não me assusta. Vou cumprir as coisas ao meu ritmo. Obviamente, sei que estou num país que tem uma indústria musical frágil. A maior parte dos artistas consagrados nem sequer vive da música. Por isso, é continuar no meu tempo, ao meu ritmo. A missão é a mesma desde o início.

O Valete de outros tempos parecia escrever com fogo e urgência. Hoje há mais silêncio, mais observação, quase outro ritmo. O tempo trouxe serenidade ou apenas inquietações diferentes? 
Creio que são duas coisas que não têm muito a ver com o foco e a urgência. Obviamente, quando és mais novo tens mais tempo e menos responsabilidades. A minha vida, se calhar há 20 anos, era só rap. Todo o tempo livre que tinha era para fazer rap. Hoje as coisas estão diferentes. Tenho outras preocupações para além da música. E também há a questão da exigência. Hoje não me considero apenas um letrista. Sou letrista, compositor e músico. Tenho mais exigência técnica. Quero misturar bem, masterizar bem, fazer um bom videoclipe. Tem mais a ver com isso. O produto que quero apresentar às pessoas tento que tenha a maior qualidade possível em todas as fases. Obviamente, há 20 ou 25 anos não tinha essa preocupação. É por isso que as coisas acabam por ser um bocado mais demoradas.


Para Valete, a velocidade com que hoje se consome música diz muito sobre o tempo em que vivemos. A internet abriu portas que antes pareciam impossíveis, mas trouxe consigo uma nova forma de medir a arte, onde visualizações, gostos e seguidores passaram a pesar mais do que o próprio conteúdo. Ainda assim, acredita que nem tudo se perdeu. Haverá sempre quem procure obras capazes de resistir ao ruído do momento e de atravessar gerações. É nesse lugar que continua a querer estar criando música que sobreviva ao tempo e não apenas ao algoritmo. Essa transformação acabou inevitavelmente por alcançar o hip-hop.

Na sua leitura, também esta cultura foi absorvida pela lógica capitalista. Mas, tal como aconteceu noutras épocas, acredita que a resistência encontra sempre novas formas de nascer. Entre a moda e a contracultura, entre o mercado e a intervenção, continuará sempre a existir espaço para quem escolhe desafiar o presente em vez de simplesmente o acompanhar.


A tua ligação com Moçambique vai muito além da música. O que encontraste aqui que talvez não encontrasses noutros lugares? 
Acho que Moçambique é mesmo um país de hip-hop. Não sei se os moçambicanos têm muita noção disso, mas vocês respiram hip-hop como poucos países da lusofonia. A forma como percebem o hip-hop e a forma como o executam é muito diferente da de outros países. Identifiquei-me muito cedo com os rappers moçambicanos. Vocês têm grandes rappers. Depois, tenho grandes amigos em Moçambique, grandes amigos mesmo. O Azagaia era, é, uma espécie de irmão de outra mãe, um irmão que nunca tive. O Azagaia foi o artista com quem mais fiz músicas. O artista com quem mais colaborei foi um moçambicano, um irmão que estava a milhares de quilómetros de mim. Tudo isto, para além de Maputo ser a minha cidade favorita. A minha cidade favorita é Maputo. Tenho, por isso, uma ligação muito forte a Moçambique. Já fiz alguns concertos aí que foram históricos e quero fazer muitos mais. Diria que, em Moçambique, estou em casa, sem dúvida.

Hoje pareces mais interessado em construir do que apenas denunciar. O Horizontal 360 nasce dessa vontade de deixar sementes mais profundas do que a própria música?
Sim. O Valete é um projecto social. Representa o hip-hop, a cultura hip-hop e as comunidades de imigrantes segregadas. Essencialmente, é isso que o Valete representa. Tento ser mais do que música. Naquilo que puder fazer para contribuir para fortalecer o hip-hop, para ajudar comunidades imigrantes e jovens artistas, vou fazê-lo. Não tenho capacidade para ajudar 100 mil pessoas, mas também aprendi que ajudar uma ou duas já faz muita diferença. Não temos de ser megalómanos no activismo, não é preciso. Hoje, ajudando uma pessoa, já estás a fazer muita diferença. Ajudando o teu filho, a tua mãe ou a tua avó, isso já faz muita diferença. E também procuro entrar mais num registo de praticar mais do que predicar.

Apesar do olhar crítico sobre o mundo, Valete recusa o pessimismo absoluto. Acredita que as grandes transformações começam muitas vezes em gestos pequenos e que influenciar positivamente uma única pessoa já representa uma vitória. Hoje, diz, está mais distante das grandes utopias revolucionárias e mais próximo da ideia de que mudar o mundo passa, antes de tudo, por praticar o bem no dia-a-dia. A visão sobre o mundo, admite, também não mudou de forma significativa ao longo dos anos. Continua a olhar para a realidade com o mesmo espírito crítico, convencido de que muitas das estruturas de poder permanecem intactas. Ainda assim, prefere concentrar-se naquilo que pode controlar: viver de acordo com os seus princípios e continuar a resistir, sem ficar preso à obsessão de saber como a história irá terminar.

África continua cheia de juventude, criatividade e força humana. O que sentes que ainda falta para essa energia se transformar plenamente?
Essa juventude e essa criatividade estão naturalmente muito dependentes da vontade política e da estabilidade económica. Não vale a pena pensarmos em cultura ou em música se não houver investimento e interesse político pela cultura. Essa criatividade vai sofrer muito. Aliás, creio que isso já está a acontecer. Há um desperdício de talento em África que é quase criminoso. Eu chamaria a isso um genocídio cultural. Há muitos jovens talentosos, escritores, videógrafos, cantores e artistas plásticos que não conseguem prosperar nem dar continuidade às suas carreiras porque não existe apoio político à cultura nos nossos países. E estamos a falar da lusofonia, dos PALOP. Sinto que há mesmo um abandono, por parte dos governos, em relação à cultura em África. Obviamente, a juventude vai sofrer muito com isso, a arte vai sofrer muito com isso e essa força criativa também.
Ao longo da conversa, torna-se evidente que Valete nunca se viu como parte do sistema que tantas vezes questionou. Pelo contrário, acredita que foi precisamente por ter escolhido a margem que preservou a liberdade de criar sem concessões, mesmo quando isso significou encontrar mais obstáculos do que oportunidades. É dessa independência que continua a nascer a sua música, mas também uma inquietação que se estende muito para lá do rap.

Quando fala do futuro, não transmite a ideia de um artista que procura fechar um ciclo, mas de alguém que continua à procura de novas formas de contar o mundo. A vida muda, os temas multiplicam-se e as histórias renovam-se a cada geração. Entre a música, a ficção e a palavra, Valete vê um território sem fronteiras, onde ainda há muito por explorar. Talvez por isso a sua obra continue a resistir ao tempo: porque, antes de escrever canções, nunca deixou de tentar compreender as pessoas e o mundo que as rodeia.