A arte acompanha Sontoza desde os tempos de escola, quando os primeiros rabiscos e o fascínio pelos murais despertaram o desejo de criar. Anos mais tarde, decidiu fazer dessa paixão um caminho de vida. Entre o abstracto, o realismo e o graffiti, encontra inspiração nas pessoas, nas memórias e nas cenas do quotidiano. Ainda a construir a sua identidade artística, Sontoza olha para o futuro com a ambição de levar a sua obra além-fronteiras e abrir caminho para outros que, como ele, encontram na arte uma forma de expressão.

Como nasceu a sua relação com a pintura? Recorda-se do momento em que percebeu que esta poderia ser mais do que um interesse e tornar-se parte importante da sua vida?
A minha relação com a pintura e a arte vem desde a pré-adolescência. Já no ensino primário praticava desenho e fazia rabiscos, com o desejo de fazer graffiti. Era muito apaixonado pelos murais e pinturas artísticas que via em determinados bairros. Foi em 2019 que decidi trabalhar e viver da arte como artista plástico e professor de artes. Tive uma experiência como professor de artes durante três anos e meio.

Que percurso fez até chegar ao artista que é hoje? Teve formação artística ou considera que a sua aprendizagem aconteceu sobretudo através da prática e da experimentação?
Sim, tive formação artística na Escola Nacional de Artes Visuais, no curso de Cerâmica, que é um pouco diferente da minha actual área de actuação nas artes. Tive também várias experiências com o artista Dji Nafita. Foi ele quem me deu as primeiras lições de pintura e graffiti, desde técnicas e conceitos básicos até aos primeiros murais da minha vida, que fiz em trabalhos da sua autoria. Também participei em vários workshops de pintura que a Toca Criativa Studio organizava na época.

Como definiria o seu estilo artístico? Que elementos, técnicas ou características considera que tornam uma obra sua reconhecível?
Ainda estou numa fase de estudo, mas tenho trabalhado mais com o abstracto, o realismo e o graffiti.

De onde vêm as suas principais inspirações? Há pessoas, lugares, memórias, acontecimentos ou aspectos da cultura moçambicana que aparecem com frequência no seu trabalho?
As minhas inspirações vêm da convivência com as pessoas, de certos lugares, memórias e, principalmente, de acontecimentos e cenas que marcam a minha vida.

Quando começa uma nova obra, já sabe exactamente o que pretende criar ou deixa que a pintura encontre o seu próprio caminho durante o processo?
Depende. Tenho trabalhos em que já sei o que quero fazer, mas há outros em que não. Deixo-me envolver por certos sentimentos do momento e vou finalizando a obra de acordo com o conceito que surge durante o processo.

Entre todas as obras que já criou, existe alguma que tenha um significado especial para si? Que história existe por detrás dela?
Sim. As obras De Ti para Tu! e Mãe de Moçambique têm um significado muito profundo para mim, porque retratam situações do nosso dia-a-dia. De Ti para Tu! surgiu com a intenção de consciencializar as pessoas para a importância de cuidarem primeiro de si e depois dos outros, principalmente as mulheres. O objectivo foi incentivá-las a cuidarem de si na prevenção do cancro da mama, porque, cuidando primeiro delas próprias, terão melhores condições para cuidar dos outros. Mãe de Moçambique retrata o esforço de muitas mães que saem cedo de casa em busca de melhores condições para os seus filhos e para as suas famílias. São mulheres que encontramos nas esquinas, nas paragens, nos mercados e em várias avenidas da cidade de Maputo e de todo o Moçambique. Com o seu esforço, contribuem também para uma sociedade melhor.

Já participou em alguma exposição, individual ou colectiva?
No momento, ainda estou à procura da oportunidade de realizar uma exposição individual. Participei apenas numa exposição colectiva, no meu último ano de formação na Escola Nacional de Artes Visuais. Foi em 2022, na exposição dos finalistas da ENAV, realizada no BCI.

Já teve oportunidade de colaborar com outros artistas, marcas, instituições ou projectos? O que essas experiências acrescentaram à sua forma de criar e de olhar para a arte?
Sim, já tive a oportunidade de colaborar com empresas. Essas experiências fizeram-me olhar para a arte de uma forma diferente e perceber que é uma área em que ainda se investe pouco, mas na qual vale a pena estar e contribuir para a sua valorização.

Como vê actualmente o espaço dado às artes plásticas e aos pintores em Moçambique? Que oportunidades existem e que obstáculos continuam a limitar o crescimento dos artistas?
Há pouca valorização por parte dos dirigentes. As casas culturais têm apoiado, sobretudo através da disponibilização de espaços para criações artísticas, mas ainda existem poucas oportunidades e candidaturas que possibilitem o crescimento dos artistas.

Há algum artista, moçambicano ou internacional, com quem sonhe um dia trabalhar ou partilhar uma exposição? O que o atrai no seu trabalho?
Tenho algumas referências moçambicanas, como Butcheca, Dji Nafita, Mateus Sitole e Naguib Abdula. Entre os artistas internacionais, tenho como referências Titos Ferrara, Carlos Bobi, Ed Mun PDF, Ten Hun, Salehe Bembury, Mr Bailey, Negrito, Jono Dry e Fabian Utta.

Quando pensa no futuro, até onde gostaria de levar a sua arte? Que sonhos ainda pretende concretizar, seja em termos de obras, exposições, reconhecimento ou presença além-fronteiras?
Gostaria de realizar as minhas próprias exposições individuais, tornar-me uma referência para os demais e abrir uma academia ou escola de artes para muitas pessoas que gostariam de ter formação nesta área. Quero também levar a minha arte além-fronteiras.