Um evento pioneiro que reuniu em Maputo líderes sectoriais de todo o mundo para abordar o poder feminino no desenvolvimento sustentável. Ecoando os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável 5 e 17 da ONU, o evento colocou em foco a crucialidade das mulheres na sociedade, fomentando diálogos internacionais e promovendo a sua ascensão a postos executivos.

A Direcção da Sprowt, organizadora do evento, conversou com a Xonguila. 


Em retrospectiva, que tópicos se destacaram durante a conferência?
Foram vários, destacando-se uma audiência de pessoas que vinham claramente ouvir e contribuir de forma positiva, encontrando na conferência um espaço de diálogo, networking. O conforto encontrado em todos que lá estavam em ouvir e serem ouvidos. Ainda se destacaram os vários contributos quer das moderadoras que apresentaram um formato de painel com o resumo inicial da temática, quer dos painelistas nacionais e internacionais (da África do Sul, do Brasil e de Portugal) que deram uma visão alargada do que se passa nos seus países. É sabido pelos relatórios da WEF, OCDE, ONU, BC, entre outros, que serão décadas e décadas para que a paridade de género seja possível. Para tal, podemos dizer que, unanimemente, se concluiu pela importância das relações mulher-homem, mulher-mulher, homem-homem (mulher líder - homem líder), que são relações bidireccionais, que cabe a cada um o direito e a obrigação de, dependendo do seu papel, trabalhar e actuar conscientemente para a equidade e avanço das mulheres. Consideramos que foi um dia de partilha de conhecimento sobre a importância e contributo das mulheres na sociedade, especificamente no desenvolvimento e crescimento económico. O impacto que as mulheres criam para a sustentabilidade das empresas e organizações.

Enfrentaram desafios significativos na organização desta iniciativa?
Quando se organiza um evento como a conferência, existem sempre desafios (logísticos, imprevistos, etc.) antes e durante, mas foi possível ultrapassá-los. A SPROWT tem uma estrutura de trabalho (membros do board, equipa e voluntários) que facilita e premeia a qualidade e excelência. E isso, para nós, é muito importante, sentir e testemunhar que os desafios acabam por se diluir, por um lado, e, por outro, servem de força para que todos façamos melhor. E que consigamos alcançar os objectivos.

Existiram momentos particularmente emocionantes ou inspiradores durante a conferência que possam partilhar?
Claro que sim, quando organizámos a conferência, sabíamos que queríamos trazer a discussão das temáticas dos painéis, mas também proporcionar momentos únicos através da cultura e conhecimento (cultura e conhecimento como dois dos eixos estratégicos da SPROWT). Por isso, foram testemunhados momentos inspiradores como a performance da Lenna Bahule, logo no início da conferência, que trouxe um alto nível de energia positiva, relaxante, e criou na sala aquilo que muitos consideraram de muito revigorante. A live painting do Sebastião Coana, em que, para muitos, foi bonito testemunhar o início da pintura e o final, quando ela foi apresentada à audiência. Partilhámos que este contributo do Coana teve como objectivo o lançamento oficial da Campanha Educação Inclusiva, uma campanha da SPROWT que visa contribuir para que crianças e jovens acedam à educação formal. Desta feita, com a acção inclusiva Mais Raparigas na Educação. Ter do nosso lado parceiros que participaram na Exibição da Women’5 Frontline Development Conference com os seus programas que estão a impactar directamente raparigas e mulheres. Esta participação demonstrou como as empresas nacionais e multinacionais contribuem para a sociedade, servindo de exemplo de que é possível contribuirmos todos de formas diferentes, com modelos e programas diferenciadores.


Realizada a Conferência, quais as conclusões que consideram mais relevantes?
Em primeiro lugar, que a conferência contou com contributos de líderes de diferentes sectores, público e privado que consideramos pertinentes e importantes de reter. Falamos de criação e implementação de frameworks na matéria da equidade, diversidade e inclusão, de regulamentos que empresas e organizações devem considerar, entre outros. O paradigma da relação família-comunidade-sociedade, como e de que forma cada pessoa deve assumir responsabilidade para que as novas gerações possam crescer numa sociedade onde a mudança seja feita, normal e naturalmente, para que o avanço da mulher seja uma realidade. Porquê deixar de lado, ou melhor, não trabalharmos todos para a inclusão justa das mulheres, que são quase metade dos oito mil milhões de pessoas no mundo?

Como foi acolhido o evento pelos participantes?
Os participantes deixaram ao longo do dia e em diferentes momentos testemunhos muito positivos, de satisfação, de terem encontrado espaço para partilharem as suas opiniões e aprenderem, e destacaram a organização do evento, o ambiente oferecido e a forma como os painéis foram organizados (especificamente a sequência das temáticas) permitindo uma aprendizagem e assimilação entre factos e contexto, o ambiente empresarial  sobre a igualdade de género e o alinhamento com sustentabilidade empresarial. Consideraram que a conferência superou as expectativas, alguns partilharam que vieram para realmente perceber do que se tratava e que saíram com uma perspectiva e visão que os motiva a querer também contribuir e fazer a diferença para outros. Destacaram a necessidade da Pioneer continuar a promover acções e programas com a qualidade da conferência, salientando o papel dos homens que estavam presentes a advogar pela igualdade de género. Outros testemunhos após o evento também foram relevantes, e particularmente os de pessoas que ouviram sobre a conferência e não puderam estar presentes, e parabenizaram pelos testemunhos que, por sua vez, receberam de pessoas suas conhecidas, colegas, etc.

O Memorando de Entendimento assinado entre as duas organizações pode ser considerado um marco para a igualdade de género em África. Podem elucidar-nos mais sobre este aspecto?
O Memorando de Entendimento assinado entre a Fundação SPROWT e a BRICS WBA SA tem por objectivo a promoção do desenvolvimento económico e o empoderamento das mulheres. Moçambique não é membro da BRICS, mas a BRICS WBA SA, particularmente, tem na sua agenda fazer crescer a network das mulheres e as suas áreas de negócio, potenciando o papel da mulher na economia ao nível do continente africano. Esse potenciar passa por se criarem oportunidades para que mais mulheres criem as suas micro, pequenas e médias empresas (MSMEs), que a educação seja uma realidade para as raparigas e mulheres, que se promova a capacitação e literacia em matérias que coloquem as mulheres com ferramentas que lhes dêem competitividade no mercado, entre outros.

Como é que evento contribuiu para o empoderamento das mulheres, especificamente em Maputo?
A W5FDC serviu para que a nossa sociedade se reveja e corajosamente dê passos para que haja mudanças de paradigma, se implementem modelos culturais organizacionais mais eficazes e proactivos, haja mais conhecimento por parte das mulheres empreendedoras e donas de negócio sobre as legislações em vigor e os regulamentos, e para que elas sintam vontade de aprender, de partilhar, para que outras mulheres também tenham uma oportunidade. Foi ainda, paralelamente, um grande passo no despertar da nova forma de abordar as questões da desigualdade de género, essencialmente sob o ponto de vista da relação entre a presença da mulher no mundo corporativo e o seu contexto familiar, sem descurar a forma clássica de ver estas questões ao nível da esfera das instituições públicas.

Como vêem o futuro da colaboração entre a Fundação SPROWT e a BRICS WBA SA na promoção da igualdade de género em África?
Colaborações como esta são positivas, estamos a viver um período de crescimento da consciência humana sobre diversas matérias, não apenas sobre a equidade e igualdade de género, mas também sobre a importância de se preservar o planeta, a necessidade do alinhamento das empresas e organizações, sobre o ESG e o alinhamento que traz consigo, sobre a lucratividade de longo prazo e não de curto e médio prazos, sobre a inclusão e não deixar ninguém para trás. Se considerarmos que metade da população de África são mulheres, como é que ainda vivemos um presente onde se questionam as capacidades intelectuais das mulheres, em que as mulheres sejam secundarizadas em processos de decisão a diferentes níveis, em que a consciência seja convenientemente usada a favor da circunstância? Se olharmos a diversidade humana, cultural e linguística que existe em África, colaborações como essa trazem mais riqueza pois geram mais troca de experiências, desenvolve-se mais conhecimento e crescimento humano. Um dos focos de debate foi precisamente a ausência e a necessidade de criação de uma plataforma regional que traduza, que conjugue, os instrumentos globais, continental (África) e regional (SADC) da agenda da igualdade de género para os contextos nacionais, bem como a necessidade de interacção entre os governos, entre as plataformas da sociedade civil, entre empresas, etc.

Quais são as próximas acções previstas para manter a dinâmica e o entusiasmo gerados pela conferência?
Em primeiro lugar, ficou o compromisso de acções conjugadas numa iniciativa programática entre as diferentes organizações que cá estiveram. Este compromisso está assente em novos acordos e extensão dos anteriores, que foram sendo oficiosa e oficialmente estabelecidos. De seguida, ficou o compromisso que as entidades internacionais levaram de estender a iniciativa a outros quadrantes. Por fim, a SPROWT, no seu plano estratégico sob o umbrella ‘sustainability through actions’, tem projectos e programas a serem trabalhados e, particularmente, tem como agenda próxima a compilação das diferentes contribuições dos parceiros presentes na W5FDC para os seus fóruns interventivos.