Entre microfones, câmaras e histórias que nunca chegaram a sair da memória, Rochet Libombo foi aprendendo que informar também pesa. O que começou ainda na infância, nos programas da Rádio Moçambique, transformou-se numa vida feita de decisões, responsabilidade e encontros que continuam a ecoar muito depois de a reportagem terminar. Nesta conversa com a Xonguila, o jornalista e actual subchefe da Redacção Central da TVM fala sobre rigor, coragem, fé, família e o lado invisível de uma profissão onde, muitas vezes, o silêncio também comunica.
Começaste a comunicar para crianças e jovens. O que é que desse início ainda vive em ti hoje?
Devo dizer que as melhores memórias que guardo do mundo da comunicação, desde que comecei, são justamente as que foram construídas durante a minha infância. Comecei a fazer comunicação aos 12 anos, na Rádio Moçambique, e lá comecei a minha jornada em programas infantis. À medida que fui crescendo, passei também a fazer programas juvenis.
Foram momentos muito marcantes, próprios de crianças que estão a entrar para uma nova área, a viajar num sonho e a embarcar numa jornada. Abordávamos muitos temas que também impactavam nas nossas vidas e ensinávamos outras crianças. Mas o que guardo desse momento é o rigor, porque os profissionais, quando trabalham com crianças, acreditam que elas têm mais propensão a erros. Então, havia muito rigor, muito ensinamento e muita exigência para que este conhecimento fosse realmente aplicado. Guardo o rigor e, acima de tudo, a paixão que me movia e que até hoje me move a fazer comunicação.
A entrada de Rochet Libombo na Televisão de Moçambique, em 2015, coincidiu com o início da sua formação em Jornalismo na Universidade Eduardo Mondlane. Foi aí que começou a perceber que comunicar nunca seria apenas falar para uma câmara ou transmitir informação. “O jornalismo significa um conjunto de decisões permanentes, quase diárias”, diz. A passagem dos programas infantis e juvenis para uma abordagem mais séria trouxe-lhe consciência sobre o peso das escolhas dentro de uma redacção. Para Rochet, fazer jornalismo e decidir caminham em paralelo, porque cada mensagem tem consequências, impacto e responsabilidade. No centro dessas decisões está sempre o telespectador, sobretudo aquele que tem poucas possibilidades de fazer ouvir a sua voz e que depende muitas vezes da comunicação social para ser ouvido. “O jornalismo não só informa, como também deve formar”, defende. Ao longo do percurso, aprendeu também que o jornalismo convive diariamente com pressões e interesses. “O jornalismo é uma guerra, porque onde há verdade existem interesses”, afirma. Ainda assim, acredita que o rigor e os princípios editoriais devem acompanhar todo o processo até ao momento em que a notícia chega ao público.
Há temas que exigem mais coragem do que outros?
Indubitavelmente. E aqui devo aproveitar para dizer que, infelizmente, muitas redacções jornalísticas de Moçambique, sendo que a nossa não foge à regra, têm jornalistas generalistas. Ou seja, um único jornalista escreve sobre matérias económicas, culturais, políticas, sociais, ciência e tecnologia. E há assuntos que exigem muita coragem. Embora a decisão seja muito relevante nestas matérias, ela não pode ter em conta o próprio jornalista, mas sim o telespectador. Portanto, não se compadece com um jornalista que reflecte muito no “e depois?”. “O que é que vai acontecer comigo? Onde é que eu vou parar com isto?” A coragem flui quando a motivação é: “O que é que estou a defender com esta matéria? A quem eu posso salvar com esta abordagem?” Estrategicamente não vou trazer aqui temas que exigem mais coragem, mas vou dizer, por exemplo, que escrever a história de uma senhora que deixa todos os dias os seus filhos para ir vender chá e bolinhos é diferente de escrever a história de um director-geral que criou um esquema para desfalcar 400 milhões de meticais. Então, são assuntos que mostram a diferença entre a coragem necessária em alguns momentos da nossa profissão.
A inteligência artificial já está a mudar a forma como se faz jornalismo. O que é que vai desaparecer primeiro?
Ferramentas tecnológicas, geralmente, quando chegam, não desaparecem. Antes pelo contrário, evoluem e desafiam o homem a adaptar-se. Então, acho que a inteligência artificial vai evoluir ao longo do tempo, mas também acho que o jornalismo não vai desaparecer. O jornalismo já é antigo e o seu futuro sempre foi questionado com o surgimento da rádio, da televisão e da internet. Mas o jornalismo adaptou-se às tecnologias que foram surgindo e coabitou com elas. Eu acho que é exactamente isso que vai acontecer agora. Nós, os jornalistas, teremos de nos apropriar desta ferramenta que é a inteligência artificial para construir narrativas e elaborar histórias. Portanto, haverá esta coabitação e precisamos de compreender rapidamente esta realidade para que ela não seja um risco para a profissão, mas sim uma oportunidade.
O jornalismo ensinou Rochet Libombo a gostar de histórias, de pessoas e daquilo que existe para além das respostas imediatas. Hoje, diz que já não faz entrevistas apenas por profissão. Cada conversa tornou-se um exercício de escuta e compreensão.
Ao longo dos anos, algumas reportagens deixaram de ser apenas trabalho e passaram a ocupar um espaço permanente na memória. Uma delas aconteceu em 2018, em Vilankulo, durante a cobertura das eleições autárquicas. A equipa recebeu uma chamada sobre um acidente na EN1 e, quando chegou ao local, o autocarro acabava de capotar. Morreram cinco pessoas. “Aquele grito das pessoas, aquela agonia, até hoje me aparece”, recorda.
Entre as vítimas estava uma criança que ainda chorava presa no interior do autocarro enquanto as pessoas tentavam salvá-la. O choro acabou transformando-se num silêncio. A criança perdeu a vida. Um ano depois, em Cabo Delgado, durante a cobertura dos efeitos do ciclone Kenneth, encontrou uma mulher sentada entre os escombros da própria casa, com uma criança às costas. Sem saber o que dizer, perguntou-lhe apenas: “E agora?”. A mulher começou a chorar e devolveu-lhe exactamente a mesma pergunta. “As histórias nem sempre ficam apenas no arquivo”, diz. “Às vezes movem-nos, mexem connosco e criam memórias muito duras.”
Mas há também histórias que lhe devolveram esperança sobre o impacto do jornalismo. Recorda o caso de um jovem que salvou passageiros de uma embarcação prestes a naufragar na ponte-cais de Maputo e que acabou ferido e sem assistência. Depois da reportagem passar no Telejornal da TVM, mobilizou-se uma campanha de ajuda.
Foi ali que voltou a perceber o alcance real da profissão que escolheu. E, apesar do peso de algumas histórias, nunca sentiu vontade de parar de comunicar. “Eu vibro”, confessa. “É impressionante como gosto de fazer o que faço.”
Crescer dentro de um meio tão exposto obriga a ajustar quem és ou a defender quem já eras?
Acho que é defender sempre. Sempre acreditei que seria comunicador. Pelo menos desde que me reconheço como gente, reconheci que queria ser jornalista. E costumo dizer que esta é uma das poucas realidades em Moçambique em que um jovem consegue alcançar o seu sonho, porque é muito difícil alcançar sonhos no nosso país. Mas eu sempre decidi que queria ser jornalista e sempre defendi isso. Não é uma questão de ajuste em nenhuma circunstância. É mesmo uma questão de defesa.
Entre o que mostras e o que fica por dizer, onde é que te encontras?
Acho que sempre me encontro naquilo que fica por dizer. E aqui volto à questão das pressões, ao meio em que trabalho, à natureza política do país e à linha editorial que adoptamos na minha instituição. Já na faculdade aprendemos que as instituições têm políticas e códigos editoriais, e que o jornalista precisa de saber qual é o código da instituição para a qual vai trabalhar e procurar respeitá-lo, porque há consequências quando ele não é observado. O que muitas vezes parece uma afronta, porque o jornalismo não conhece limites. O jornalismo quer liberdade, quer buscar, quer falar, grita por dizer a verdade sempre. Então, acho que há sempre alguma coisa que falta, uma mensagem que não se esgotou e uma oportunidade de trazer uma versão diferente de cada história que contamos. Há sempre uma chance de aprofundar a narrativa. Portanto, prefiro colocar-me do lado daquilo que fica por dizer.
Embora seja uma pessoa reservada, Rochet Libombo garante que o silêncio, na sua vida, é uma escolha e não uma necessidade. Prefere falar quando sente que realmente tem algo importante a dizer e quando acredita que as suas palavras podem gerar impacto. Quando os dias pesam, é à família que regressa. Curiosamente, não ao silêncio, mas ao barulho das conversas, da música, da dança e da convivência. É ali que encontra paz, equilíbrio e inspiração. “A família acaba sendo a razão das minhas lutas e a minha maior inspiração”, afirma. Foi também no ambiente familiar e religioso que nasceram os primeiros sinais do comunicador que viria a tornar-se. Cresceu ligado à Igreja Presbiteriana de Moçambique, onde participava em actividades como teatro, declamação, escrita e canto. Foi nesse contexto que despertou a atenção de um amigo ligado à rádio, que acabaria por abrir-lhe as portas da comunicação. Desde então, nunca mais se afastou desse caminho. Rochet diz que a fé continua a acompanhar todas as decisões da sua vida. “Deus sustenta tudo quanto sonhei, tudo quanto alcancei e tudo quanto ainda sonho alcançar”, diz. Hoje, mantém viva a fé cristã que herdou da família e que continua a orientar a sua forma de estar no mundo.
Depois de tantas histórias contadas, há alguma pergunta que ainda estejas à espera de fazer ou de responder?
Bom, talvez uma pergunta que eu gostaria de fazer. Esse também é o meu papel enquanto jornalista, fazer perguntas. Muitas vezes o jornalismo escreve para gerar mudanças, tudo em benefício das pessoas, das nações e do mundo. E às vezes é doloroso quando buscamos gerar mudanças e simplesmente elas não acontecem. Escrevemos as mesmas histórias ano após ano. Quando há cheias, falamos das pessoas que vivem em zonas baixas. Há anos que escrevemos sobre transportes em Maputo. São problemas que denunciamos há muito tempo e para os quais continuamos sem ver mudanças. Então, talvez a pergunta seja: o que falta à minha profissão para que estas mudanças ocorram? Ou talvez: qual é a insensibilidade daqueles que deviam gerar estas mudanças e nada fazem? E não devemos olhar para esta pergunta apenas numa dimensão política, como se somente os governantes devessem agir. Todos nós, enquanto sociedade, temos responsabilidade. Desde que cheguei ao jornalismo, continuo a falar dos mesmos problemas. O que é que falta?
