Michelle Obama disse certa vez: “A cada porta que se abriu para mim, procurei abrir a minha a outros.” Esta frase inspira e resume perfeitamente o ethos que orienta o trabalho da UWC Moçambique.
Cada porta que se abre para esta organização representa uma oportunidade para abrir ainda mais portas para os outros. Foi com essa convicção que, em 2016, a UWC Moçambique – Associação dos Antigos Estudantes do UWC – foi fundada, aceitando sem hesitar o convite para nascer no país. Fortemente alinhada com a missão do movimento UWC? de unir pessoas, promover a paz e transformar vidas através da educação, é essa mesma missão que guia cada passo do trabalho desenvolvido em território moçambicano.
O que é o movimento United World Colleges (UWC)?
Fundado em 1962 com o Atlantic College, no País de Gales, o movimento UWC nasceu com o objectivo de unir jovens de diferentes nações, culturas e crenças, promovendo a paz e a colaboração através de uma educação centrada na partilha, na compreensão mútua e na acção responsável. Em África, o primeiro colégio da rede UWC foi o Waterford Kamhlaba UWC of Southern Africa, situado no Reino da ESwatini. Fundado em 1963 como um acto de resistência ao apartheid, o Waterford foi criado com o propósito de oferecer uma educação multirracial, inclusiva e igualitária, em oposição às escolas segregadas da África do Sul. Actualmente, a rede UWC conta com 17 colégios espalhados pelo mundo, dos quais dois estão localizados no continente africano: o Waterford Kamhlaba, em ESwatini, e o UWC East Africa, na vizinha Tanzânia.
A ligação de Moçambique à história do movimento UWC?
Moçambique tem um papel relevante na história do atrás referido Waterford Kamhlaba. O campus foi projectado por Amâncio (Pancho) Guedes, renomado arquitecto português, residente em Moçambique e encarregado de educação de um dos primeiros estudantes que o frequentou. Guedes era também amigo e mentor do artista moçambicano Malangatana Valente Nguenya, conhecido simplesmente como Malangatana, que visitou o campus em diversas ocasiões e doou um mural — o primeiro que produziu fora de Moçambique — como símbolo de apoio e solidariedade ao projecto educativo do Waterford. O primeiro estudante moçambicano a frequentar o Waterford foi Fernando Honwana, que mais tarde serviu como Conselheiro Presidencial e Assistente Especial do Presidente Samora Machel. O escritor Luís Bernardo Honwana, além de ser pai de três estudantes do Waterford, colaborou activamente na angariação de fundos que permitiu o reconhecimento oficial do Waterford Kamhlaba como membro da rede UWC, em 1981. Embora pequeno, o Waterford Kamhlaba desempenhou um papel significativo na luta pela igualdade racial na África Austral. A escola acolheu e educou filhos de líderes como Nelson Mandela e Desmond Tutu, além de formar futuros líderes políticos, como Ian Khama e o próprio Fernando Honwana.
Quais os objectivos da UWC Moçambique?
A UWC Moçambique tem como principal objectivo abrir portas para que jovens moçambicanos — entre os 16 e os 17 anos — possam estudar em colégios UWC no estrangeiro e formar-se como líderes comprometidos com a construção de um mundo mais pacífico e sustentável. A organização trabalha de forma voluntária para divulgar o movimento UWC em todo o país, ampliando o acesso a estas oportunidades. Desde a sua fundação, em 2016, enfrentou desafios significativos, mas nada que a tenha abalado. Durante os confinamentos da COVID-19, por exemplo, seleccionar e enviar estudantes para diferentes UWCs parecia quase impossível: um aluno seguia para Itália, outro para a Tanzânia e, como é tradição, um bolseiro Fernando Honwana para o Waterford. Mais recentemente, enviar, por via terrestre, um estudante para ESwatini, em Janeiro deste ano, no meio das manifestações, também se revelou um grande desafio. No entanto, graças ao apoio inabalável da comunidade local — incluindo antigos alunos, pais e generosos patrocinadores — tem sido possível, ano após ano, garantir a participação de jovens moçambicanos nos colégios UWC. Embora baseada em Maputo, a UWC Moçambique serve com orgulho um mandato nacional, procurando talento em todas as províncias do país.
Quais foram os resultados da UWC Moçambique até à data?
A UWC Moçambique acaba de concluir o seu 10.º ciclo de selecção e, até à data, já conseguiu enviar mais de 24 estudantes moçambicanos para programas de bolsas de estudo do Bacharelato Internacional em colégios UWC espalhados pelo mundo. Para tornar isso possível, foram angariados mais de 1,8 milhões de dólares em financiamento — valores que cobrem despesas de viagem, alojamento, internato e cuidados de saúde dos estudantes, todos residentes nas escolas durante dois anos. Destaca-se também o memorando de entendimento de 10 anos celebrado com o Waterford Kamhlaba, que garante a continuidade da bolsa de estudos Fernando Honwana. Hoje, já se vêem frutos concretos deste esforço. Um exemplo inspirador é o de Gina Manhiça, ex-aluna da Escola Comunitária Armando Emílio Guebuza e depois bolseira no Waterford Kamhlaba (2021-22). Actualmente, Gina encontra-se a fazer a sua licenciatura no Earlham College, nos Estados Unidos, com uma bolsa completa de quatro anos.
Em 2025, venceu o prestigiado prémio Projects for Peace, recebendo 10 mil dólares para implementar um projecto que combate a pobreza energética em Moamba. Com os fundos, Gina irá adquirir kits solares portáteis — equipados com lâmpadas LED, pequenas baterias de armazenamento e carregadores — que beneficiarão 64 famílias e uma escola primária local. O percurso da Gina reflecte perfeitamente o espírito que guia a UWC Moçambique: como nos lembra Oscar Monteiro em De Todos se Faz um País, o progresso colectivo nasce do esforço partilhado e da oportunidade dada a cada jovem que, por sua vez, transforma vidas nas suas comunidades.
