Houve um tempo em que ver a Terra a partir do espaço era um acontecimento capaz de parar o mundo. Hoje, essa imagem pode surgir no nosso telemóvel entre um vídeo de humor e uma publicidade. Olhamos, deslizamos o dedo e seguimos em frente. Nunca tivemos tanto acesso ao extraordinário. E talvez nunca nos tenhamos impressionado tão pouco com ele.
Em poucos minutos podemos assistir a um recorde mundial, descobrir uma praia remota, ver imagens captadas em Marte, conhecer uma criança prodígio, acompanhar uma guerra em directo ou entrar virtualmente numa cidade a milhares de quilómetros. Cada uma destas experiências teria fascinado gerações anteriores. Para nós, fazem parte de um fluxo que parece não ter fim.
O problema não é aquilo que vemos. É a velocidade com que deixamos de o ver.
A inflação do espanto
As plataformas digitais disputam um dos bens mais valiosos do nosso tempo, a atenção. Para a conquistar, oferecem-nos uma sucessão permanente de estímulos. Tudo precisa de ser mais belo, mais dramático, mais surpreendente ou mais emocionante do que aquilo que apareceu segundos antes.
Criámos, assim, uma espécie de inflação do espanto. Quanto mais extraordinário consumimos, mais difícil se torna surpreender-nos.
Até a tecnologia que usamos diariamente revela esta contradição. Podemos falar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta, transportar milhares de livros num pequeno aparelho, consultar mapas de praticamente qualquer cidade, traduzir línguas em segundos ou pedir a uma inteligência artificial que crie uma imagem a partir de algumas palavras.
São capacidades extraordinárias. Tornaram-se tão comuns que só damos por elas quando deixam de funcionar.
Quando a tragédia também passa depressa
Esta banalização tem um lado mais inquietante. O mesmo ecrã que nos mostra beleza também nos apresenta sofrimento. Uma guerra. Um terramoto. Uma família que perdeu tudo. Depois, uma receita. Uma piada. Uma fotografia de férias.
A sequência é desconcertante, mas tornou-se habitual. Não significa necessariamente que sejamos menos humanos ou menos sensíveis. Significa que estamos expostos a uma quantidade de informação emocional que nenhuma geração anterior enfrentou desta forma.
Para conseguirmos continuar, habituamo-nos. E aí surge um perigo silencioso: começarmos a confundir aquilo que vemos frequentemente com aquilo que é normal.
Vidas comuns perante um mundo extraordinário
Há ainda outra consequência. Já não comparamos a nossa vida apenas com a de familiares, amigos ou colegas. Comparamo-la com uma montra onde estão reunidos alguns dos melhores momentos de milhões de pessoas.
Vemos viagens paradisíacas, carreiras meteóricas, casas perfeitas, corpos impecáveis, jovens milionários, famílias felizes e talentos excepcionais. O nosso quotidiano entra em competição com os melhores momentos do planeta. Naturalmente, perde.
Uma vida perfeitamente boa pode começar a parecer insuficiente quando é constantemente confrontada com vidas seleccionadas, editadas e apresentadas precisamente para despertar desejo e admiração.
Recuperar a capacidade de admirar
Talvez o extraordinário não esteja a desaparecer. Talvez sejamos nós que estamos a passar demasiado depressa por ele. A admiração precisa de tempo. É difícil maravilharmo-nos verdadeiramente com alguma coisa quando sabemos que, a um movimento do dedo, outra experiência nos espera.
Não precisamos de abandonar a tecnologia nem de romantizar um passado em que sabíamos menos sobre o mundo. Precisamos apenas de recuperar algo que estamos lentamente a entregar aos ecrãs: a nossa atenção.
Porque o extraordinário continua por toda a parte. Está numa descoberta científica, numa obra de arte, numa criança que aprende a falar, num atleta que treinou durante anos para superar um limite, numa pessoa que recomeça depois de perder tudo.
O mundo não ficou menos fascinante. Nós é que nos habituámos demasiado depressa ao fascínio.
