Nem sempre o sofrimento se apresenta com lágrimas ou pedidos de ajuda. Muitas vezes, esconde-se atrás de uma resposta automática, de um sorriso breve ou de um silêncio que ninguém voltou a questionar. Neste Setembro Amarelo, talvez seja importante perguntar novamente: “Estás mesmo bem?”
“Como estás?” - “Estou bem.”
Esta breve conversa repete-se todos os dias. Em casa, no trabalho, na escola, no chapa ou numa troca rápida de mensagens. Há dias em que o “estou bem” é verdadeiro. Noutros, é apenas uma forma de evitar uma conversa para a qual ainda não existem palavras.
Pode esconder cansaço, ansiedade, solidão, medo ou uma dor difícil de explicar. O Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio, convida-nos a permanecer um pouco mais nessa pergunta, a reparar no que mudou e a ouvir aquilo que nem sempre é dito.
Uma realidade que exige atenção
Mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, em 2021 esta foi a terceira principal causa de morte entre pessoas dos 15 aos 29 anos. Cerca de 73 por cento dos casos ocorreram em países de rendimento baixo e médio.
O suicídio não resulta de uma única causa. Pode estar relacionado com uma combinação de factores emocionais, sociais, psicológicos e económicos. A depressão, o consumo problemático de álcool ou outras substâncias, a violência, o abuso, a solidão, a doença prolongada, os conflitos familiares e as dificuldades financeiras podem aumentar a vulnerabilidade.
Por detrás destes números existem também histórias de recuperação, pessoas que receberam apoio no momento certo e conseguiram encontrar outras possibilidades.
O sofrimento nem sempre se vê
Não existe uma aparência única para o sofrimento psicológico. Alguém pode continuar a trabalhar, estudar, cuidar da família, encontrar-se com amigos e publicar fotografias felizes enquanto enfrenta uma batalha interior.
Algumas mudanças de comportamento merecem atenção, sobretudo quando surgem repentinamente ou aparecem em conjunto. O isolamento, alterações acentuadas de humor, perda de interesse por actividades habituais, sentimentos de inutilidade ou desesperança e frases como “já não aguento” ou “não faço falta a ninguém” podem revelar que algo não está bem.
As despedidas inesperadas, a oferta de objectos de valor sentimental e qualquer referência directa à morte ou ao suicídio também devem ser levadas a sério. Não devem ser tratadas como brincadeira, fraqueza ou simples tentativa de chamar a atenção.
Perguntar pode abrir a conversa
Muitas pessoas receiam que falar sobre suicídio possa incentivar alguém a fazê-lo. A Organização Mundial da Saúde esclarece que perguntar directamente não coloca essa ideia na cabeça da pessoa. Pelo contrário, uma conversa aberta pode reduzir a ansiedade e criar espaço para procurar ajuda.
Podemos começar por dizer “Tenho reparado que estás mais afastado. Queres falar sobre o que está a acontecer?” ou perguntar “Como te sentes realmente?”. Quando existe maior preocupação, é importante ser-se claro: “Estás a pensar em magoar-te?” ou “Tens pensado em suicídio?”.
Se a resposta for afirmativa, o primeiro passo é manter a calma. Expressões de choque, críticas ou ameaças podem fazer com que a pessoa recue e volte a esconder o que sente.
Não é necessário ter todas as respostas. É preciso estar presente, ouvir e procurar apoio.
Escutar sem julgar
Escutar não é apresentar rapidamente uma solução ou tentar convencer alguém de que não tem motivos para sofrer. Frases como “Tens tudo para ser feliz”, “Isso passa” ou “Há pessoas com problemas piores” podem aumentar a culpa e o isolamento.
Palavras simples costumam ser mais úteis. Um “Obrigado por confiares em mim” mostra que a partilha foi acolhida. Dizer “Estou aqui para te ouvir” ou “Não precisas de passar por isto sozinho” oferece presença sem pressionar.
Depois, pode surgir a pergunta mais prática: “Vamos procurar ajuda juntos?” ou “Posso acompanhar-te?”. A fé e o apoio espiritual podem trazer conforto, mas não devem ser usados para culpabilizar quem sofre ou substituir a assistência de um profissional de saúde.
Quando é preciso agir
Se alguém disser que pensa em suicídio, que tem um plano ou que pode magoar-se naquele momento, a situação deve ser tratada como uma urgência. A prioridade é garantir que a pessoa não fica sozinha.
Mantenha-se por perto, converse com calma e procure a ajuda de um profissional de saúde. Sempre que possível, acompanhe-a à unidade sanitária ou urgência hospitalar mais próxima e envolva um familiar ou outra pessoa de confiança.
Quando existe perigo para a vida, não se deve prometer guardar segredo. Pedir ajuda não é trair a confiança de alguém, é uma forma de protecção.
Depois da crise, o acompanhamento também é importante. Uma mensagem, uma visita ou ajuda para marcar uma consulta podem fazer uma diferença real.
Uma conversa para todo o ano
O Setembro Amarelo ajuda a dar visibilidade à prevenção do suicídio, mas o cuidado não pode terminar quando o mês acaba. É preciso criarem-se espaços onde falar de saúde mental não seja motivo de vergonha e pedir apoio seja entendido como um gesto de coragem.
Há momentos em que tudo parece mais difícil e encontrar as palavras certas não é fácil. Nesses dias, conversar com um familiar, amigo, colega ou profissional de saúde pode ser um primeiro passo importante.
Ninguém precisa de carregar tudo sozinho.
Da próxima vez que alguém responder “estou bem”, talvez possamos ficar mais alguns segundos e perguntar: “Estás mesmo bem?”
Às vezes, é depois dessa segunda pergunta que a conversa verdadeiramente começa.
