A cidade de Maputo, cheia de vida e movimento, carrega também cicatrizes profundas nas suas estradas. A sinistralidade rodoviária é uma realidade com que os seus habitantes convivem diariamente — uma ameaça constante à vida de peões, condutores e, sobretudo, das crianças. Com efeito, ao longo dos últimos anos, a cidade tem assistido a um preocupante número de acidentes de viação, comprovado pelo facto de, apenas entre Janeiro e Setembro do ano passado, a província de Maputo ter registado 43 acidentes, resultando em 47 óbitos e 45 feridos. Estima-se que mais de 60% das vítimas mortais envolvem peões e ciclistas. Entre os mais afectados encontram-se as crianças, expostas a riscos diários no percurso entre casa e escola.
A Rede Contra Acidentes de Viação e Protecção Infantil (RECAVI), com sede no bairro do Alto-Maé, tem-se destacado pelo empenho na defesa da segurança rodoviária e pelo compromisso com a protecção da infância. Com um histórico de intervenção comunitária e educativa, a organização lançou o projecto Um Município, Zero Acidentes, iniciativa que procura transformar a relação dos cidadãos com o espaço público e contribuir para a redução dos índices de sinistralidade.
O novo projecto da RECAVI, com duração prevista de 45 dias, propõe-se a intervir directamente nos cinco distritos urbanos da capital, com enfoque em zonas identificadas como de maior vulnerabilidade. Através de campanhas comunitárias, formação de activistas e instalação de sinalização, pretende-se criar um ambiente mais seguro e disciplinado nas vias públicas. Estes activistas, preparados para orientar e regular o trânsito, actuam em articulação com a Polícia de Trânsito, o INATRO e outras instituições. O plano inclui ainda a criação de um gabinete de apoio às vítimas de acidentes e a aquisição de uma ambulância para resposta rápida em emergências.
A RECAVI defende uma abordagem integrada, que valorize também a reorganização do espaço urbano. O projecto contempla o estudo das rotas mais utilizadas pelos peões e a adaptação da sinalização, com semáforos visíveis e tempos de travessia ajustados às crianças. A associação sublinha que a segurança nas estradas deve começar no desenho da cidade e nas prioridades que esta impõe aos seus diversos utilizadores.
Com a participação de lideranças comunitárias, organizações de base e escolas, a educação rodoviária passa a ser encarada como parte da formação cívica. A RECAVI inspira-se também em modelos de patrulha escolar, onde os próprios alunos contribuem para a travessia segura diante dos estabelecimentos de ensino. A proposta educativa da rede valoriza o envolvimento activo dos cidadãos. Professores, pais, activistas e profissionais de saúde unem esforços numa estratégia que cruza urbanismo, civismo e pedagogia. A par da formação, o projecto promove o uso do cinto de segurança, o respeito pelos limites de velocidade e a consciencialização sobre os riscos do álcool ao volante.
Com Um Município, Zero Acidentes, a RECAVI propõe-se a reorganizar o tráfego e fortalecer a cultura de responsabilidade nas estradas. O espaço urbano deixa de ser dominado exclusivamente por veículos e passa a acolher, com maior segurança, quem caminha a pé — especialmente os mais jovens. Maputo tem, nesta iniciativa, a possibilidade de se tornar referência na construção de uma cidade mais segura, inclusiva e humana.
