Estilista, DJ e empreendedor, António Macheve Júnior — ou simplesmente Toni — é o nome por detrás da Xipixi, marca que conquistou lugar de destaque na moda moçambicana. Nesta entrevista, mergulhamos no seu universo criativo e nas referências que o tornam um dos rostos mais singulares da cultura urbana contemporânea.
Entre um corte de tecido e uma curva de vida, qual foi a decisão mais arriscada que já tomaste — enquanto homem, e não enquanto marca — e que hoje agradeces ter tomado?
Prefiro falar da decisão mais importante da minha vida: casar com a minha esposa. Essa escolha moldou o meu percurso pessoal e profissional. Ter ao meu lado uma parceira inteligente e alinhada com os meus valores tornou-se um pilar. Ela participa nas minhas decisões, sobretudo as mais arriscadas. Os nossos filhos também são parte deste equilíbrio. A família dá-me força e inspiração para continuar a criar e a enfrentar desafios com serenidade. Essa base tornou-me mais ponderado, mais consciente das consequências das minhas escolhas, tanto no trabalho como na vida.
Que elemento da cultura moçambicana nunca deixas fora de uma colecção – mesmo que seja só como símbolo invisível?
Há sempre um elemento invisível, mas constante: o Chamanculo, bairro onde cresci. As memórias da igreja, do campo do Zixaxa e dos detalhes arquitectónicos do bairro influenciam as minhas peças — das estampas às texturas. Mais recentemente, tenho bebido inspiração da Galeria do Chamanculo, onde a arte e a história local continuam a alimentar a minha visão. Mesmo que não seja evidente à primeira vista, o Chamanculo é a alma discreta das minhas criações.
Se tivesses de criar uma peça para representar Moçambique numa só silhueta, que forma teria? E de que material seria feita?
Escolheria uma mochila duffel bag em poliéster resistente. Representa a resiliência do povo moçambicano — maleável, adaptável e capaz de carregar peso literal e simbólico. Tal como o nosso povo, esta mochila segue em frente, pronta para enfrentar desafios. Nas minhas viagens, prefiro este modelo por ser flexível e funcional, tal como a nossa identidade colectiva: moldável, mas firme, sempre em movimento.
Costura também é escuta. Há histórias que te chegam pelas mãos dos clientes? Qual foi a mais marcante?
Uma história tocante foi a de um jovem que acompanhava a Xipixi desde os 18 anos e, anos depois, escolheu a marca para o seu fato de casamento. Sempre sonhou com esse momento e cumpriu a promessa silenciosa que fez a si próprio. Esta história mostrou-me como a marca cresce com o seu público, presente nos marcos importantes da vida de quem nos acompanha desde cedo. Foi um momento comovente e revelador do impacto da Xipixi na vida das pessoas.
Num país onde ainda se confunde moda com vaidade, como tem sido o teu papel em afirmar a moda como linguagem, identidade e até protesto?
Para mim, a moda é uma forma de comunicação silenciosa, mas poderosa. Vai além da aparência — é identidade, bem-estar e funcionalidade. Nas nossas campanhas, procuramos transmitir mensagens que ultrapassem a estética, abordando temas sociais e estados de espírito. A roupa deve ser uma extensão da pessoa, confortável e coerente com quem a veste. Enquanto houver necessidade de se vestir, haverá espaço para a Xipixi inovar e comunicar.
As tuas Coffee Partys juntam moda, conversa e convivência. Em que consistem exactamente esses encontros e como tem sido a resposta do público?
As Coffee Parties nasceram do conceito internacional que junta café, música electrónica e bem-estar. Adaptámo-lo à realidade moçambicana com ritmos locais e identidade própria. São eventos diurnos que começam às oito da manhã e vão até às quatro da tarde, criando uma alternativa saudável à vida nocturna. A moda está sempre presente, com t-shirts e acessórios exclusivos que expandem a linha streetwear da Xipixi. É um espaço acessível, vibrante, com música, estilo e comunidade.
Na passarela da tua vida, quem foram os grandes mestres ou musas que te ensinaram a caminhar com estilo próprio?
Destaque para o Embaixador português José Filipe Moraes Cabral, pela sua elegância clássica e ousadia com laços. Virgil Abloh ensinou-me liberdade criativa e inspirou-me a voltar à música. Kanye West influenciou-me com a sua visão artística transversal. Mas a maior referência foi o meu pai — pela autenticidade e pela forma como sempre foi fiel a si mesmo. Isso moldou a minha identidade e ensinou-me a confiar no meu instinto.
Vivemos tempos de consumo rápido. Como é que resistes à pressa e crias peças com alma?
Na Xipixi, praticamos slow fashion. Privilegiamos a consistência, a maturação e a identidade duradoura. Os elementos visuais e conceptuais repetem-se de forma estratégica para sedimentar o ADN da marca. Algumas peças são testadas internamente durante anos antes de serem lançadas. Esta lentidão é intencional: queremos que cada criação reflicta bem o nosso propósito e visão a longo prazo.
Se um estilista é também um contador de histórias, que capítulo da tua própria vida ainda está por costurar?
Prefiro não antecipar demasiado, mas estou motivado a estimular a colaboração entre diferentes sectores das indústrias criativas em Moçambique. Acredito profundamente no poder de construir juntos.
O que podemos esperar, nos próximos tempos, de alguém tão multifacetado?
Quero dedicar mais tempo à música. Já iniciei faixas instrumentais em estúdio, mas o perfeccionismo atrasou-me. Agora sinto que é o momento de partilhar música original assinada como DJ No Requesss. Esta será mais uma extensão da minha criatividade, em harmonia com o trabalho que desenvolvo noutras áreas.
