40 anos de careira é sem dúvida um marco emblemático na tua vida. O que consideras ter aprendido ao longo de todo este tempo?
A ser resiliente, a ter paciência e esperar o momento certo para aparecer. Alguém que se prepara no silêncio e que consegue ultrapassar as expectativas quando as oportunidades acontecem. As viagens que tive oportunidade de fazer e as pessoas que fui conhecendo nesse percurso foram a minha escola. Só nos conhecemos definitivamente por via de outras pessoas, quando nos confrontamos com outras culturas e realidades. Aprendi que a minha liberdade termina onde começa a liberdade de outrem. Aprendi que ser único e original é melhor do que a maior e melhor imitação.
Naturalmente, viste muitas coisas mudarem dos anos 80 para cá. O que alterou no cenário artístico moçambicano? Estamos num bom caminho?
Mudou tudo (risos). Algumas coisas para melhor e outras para pior. Bem, comecemos pela evolução tecnológica, que certamente é a mais impactante. O acesso a tecnologia digital permitiu estar mais perto de um mercado mais abrangente, mas, ao mesmo tempo, criou a ilusão do sucesso imediato. O sucesso imediato é quase efémero, principalmente quando o construímos sobre uma base frágil de falso conhecimento e falta de cultura geral. Melhorou muito a oferta de intérpretes, sejam eles instrumentistas ou vocalistas, mas fracassou no conteúdo. Eu penso que as referências actuais são completamente vazias de conteúdo, na sua maioria. Existe potencial, e esse potencial tem de ser fortemente apadrinhado/acarinhado para que não se perca a essência na apresentação de conteúdos, não só para o entretenimento, mas também para a cultura. Hoje há sempre o perigo da banalização e normalização da mediocridade, do mau, com um suporte incrível das massas, muitas vezes carentes de uma preparação adequada em cultura geral.
Ainda tenho a minha cabeça cheia de ideias e em constante criação. Ainda tenho sonhos por realizar. Quero continuar activo nos vários palcos que as artes me oferecem: música, escrita e representação
O que tens ouvido ultimamente? O teu gosto musical é o mesmo, ou tem mudado ao longo do tempo?
Definitivamente, do que ouço hoje, fruto de uma filtragem consciente, fazem parte todos os géneros e estilos musicais. Acho que me fui adaptando ao longo dos anos, mas, para isso acontecer, foi preciso estar disponível para ouvir de tudo, até aquilo que considero mau. Acho uma estupidez estar a falar ou a fazer juízos de valor sem conhecimento de causa.
De que forma a pandemia impactou o teu dia-a-dia?
Dia-a-dia? A pandemia, de uma forma colectiva, afectou-nos a todos, directa e indirectamente. Adiou os nossos sonhos e planos. Privou-nos do bem mais precioso: a nossa liberdade! O resto sabemos todos. Sobrevivi graças aos investimentos que fiz no passado por via das minhas relações com parceiros comerciais. Por outro lado, a pandemia fortaleceu o meu sentido de protecção e activou outras ferramentas dentro de mim que estavam adormecidas. Valorizo muito mais a solidariedade. O Moza Banco e a Renault Moçambique foram parceiros sempre presentes nesses momentos aflitivos e que permitiram que eu pudesse encorajar outros colegas a não desistir. Aproveitei, durante esse período, para reflectir e recriar-me.
Tens uma relação especial com a Zambézia, existe algum tipo de acção que estejas a preparar no momento na província em que nasceste?
Há uma diferença muito grande entre o que gostaria de fazer e o que vai acontecer. Gostaria de fazer muito pela minha terra, que foi onde tudo começou. Rectificar tudo o que não deu certo na minha relação com as minhas origens, e isso tudo por via do que mais gosto de fazer: cantar a minha tradição.
Ao longo desses anos sempre foste fiel à tua arte. Tens algum segredo para cativar o interesse das gerações mais novas?
Acho que o segredo está na genuinidade. Ser verdadeiro é a arma mais potente que tenho. Como disse antes, o original vai ser sempre o maior diferencial em tempos de globalização. Saber escutar os mais novos, conhecer as suas preocupações e responder-lhes sempre que possível. Valorizar e dar a oportunidade que, quando jovem, me foi negada por alguns.
Existe algum artista com o qual ainda gostarias de fazer alguma parceria ou gravar um álbum?
Muitos! A partilha sempre foi para mim um trunfo. Não descarto essa possibilidade, e gravar com músicos que foram referência no início da minha carreira vai ser sempre uma certeza. Hoje posso dizer, com toda a minha convicção, que uma grande parte deles se tornaram meus amigos e colaboradores.
De que forma acreditas que a expansão do mundo digital e das redes sociais impactou a indústria musical?
Eu acho que a grande mudança nas indústrias culturais, musical, em particular, foi exactamente nessa área. Hoje as redes sociais são uma ferramenta indispensável na comunicação e divulgação das nossas criações. As redes sociais, quando usadas adequadamente e de forma racional, podem ser a salvação de muitos músicos independentes. Hoje o sucesso de cada projecto musical não é mais propriedade das grandes companhias discográficas.
Ao longo de todo este período, existirá algo que te arrependas de ainda não ter feito?
Aprender, quando ainda jovem, as línguas e instrumentos tradicionais de Moçambique. Não ter estudado mais. Felizmente, tudo que ainda vou a tempo de fazer.
Sabemos que és muito ligado à tua família. De que forma os teus entes queridos contribuem para o teu sucesso?
A minha família sempre me deu um suporte, muitas vezes de uma forma silenciosa. Só o facto de me aceitarem como sou e terem permitido que eu escolhesse o meu próprio caminho foi, definitivamente, fundamental.
Qual o momento que mais te marcou ao longo do teu percurso?
A gravação da minha primeira música.
O que podemos esperar de Stewart Sukuma nos próximos anos?
Renovação e reinvenção. Ainda tenho a minha cabeça cheia de ideias e em constante criação. Ainda tenho sonhos por realizar. Quero continuar activo nos vários palcos que as artes me oferecem: música, escrita e representação. Aumentar e fortalecer as minhas actividades filantrópicas e contribuir para que haja mais justiça social. Acho importante o equilíbrio entre diferentes forças.
