A voz de Sérgio Faife não é apenas familiar — é uma presença. Durante mais de trinta anos, atravessou gerações em programas de rádio e televisão que se tornaram parte da memória colectiva. Por detrás do “embaixador da alegria” e do recordista de maratonas radiofónicas, há também um homem feito de silêncios, perdas e escolhas profundas. Nesta conversa com a Xonguila, Faife fala-nos do menino que sonhava com helicópteros, da dor de ter perdido a mãe, do valor da família e da responsabilidade de continuar a falar — mesmo quando a vida pede pausa.
A tua história com a rádio começa muito cedo. O que é que te fascinava tanto nesse universo sonoro, quando eras ainda um miúdo debaixo da mesa a imaginar um helicóptero?
Eu não consigo entender porquê, mas é uma paixão muito antiga. Recordo-me de ficar debaixo da mesa de jantar e imaginar um helicóptero. Também porque, naquela altura, assistia a uma série em que havia um actor com um helicóptero todo preto — esse helicóptero fazia maravilhas. Eu ficava ali a fazer relatos: olha, agora está a passar a viatura vermelha, o semáforo está verde. A minha mãe encontrava-me a falar sozinho e eu ficava todo sem jeito. Depois comecei a acompanhar os programas da rádio, colado à coluna, como se a pessoa fosse sair dali — e aquilo fascinava-me. Cheguei a criar uma rádio imaginária, a Faife Star Radio 2010, com programação completa. Houve também uma fase em que pegava no rádio do meu pai, aumentava o som nas músicas e, quando os locutores falavam, baixava e falava por cima. Pegava em músicas moçambicanas, mudava a letra e colocava algo meu. A rádio esteve sempre presente na minha vida. Sempre.
Já passaste por mais de 25 programas de rádio e 12 de televisão. Qual deles te marcou mais — e porquê?
O programa de televisão que mais me marcou foi o primeiro, o Ritmos, da Miramar. E depois o Alô Família, o meu primeiro na televisão pública, com o qual ganhei muitos prémios. Moçambique parava às sextas-feiras para acompanhar o Sérgio Faife. Eu tinha uma contagem: "É um, é dois, é três, é quatro, é Faife!" — e as pessoas gritavam: "Alô, Família!" Esse programa foi considerado pela CNN como o melhor talk show da África Austral, e uma equipa veio cá para perceber como fazíamos. Guardo-o com muito carinho. Na rádio, o que mais me marcou foram as maratonas de horas ininterruptas, chegando às 60 horas. Mas talvez tenha sido o 9 Loucuras, na 9FM (depois 99FM), porque finalmente pude fazer o que queria. O Bruno Morgado e o Nelson Camal disseram-me: "Brilha, faz aquilo que tu queres!" — e isso mexeu muito comigo.
Em que momento percebeste que a tua voz tinha poder?
Percebi quando, perto da Escola 16 de Junho, estava à conversa com o músico Zé Pires. Na altura eu apresentava o Alô Família e ele disse-me: "Olha, Faife, tu tens um poder muito grande. Tens um microfone a teu favor, uma audiência enorme. Com ela, podes mudar coisas, fazer maravilhas e influenciar de forma positiva. Usa isso para ajudar os outros." Acho que foi aí que deu o click na minha carreira.
És conhecido como “embaixador da alegria”. Mas, por detrás do sorriso, houve momentos difíceis. Como transformas a dor em energia positiva?
Transformo a dor em energia positiva pelo amor que tenho à rádio, à televisão — ao meu trabalho. Amo o que faço, amo a minha família e ver as pessoas felizes. Mesmo nos dias em que estou em baixo, o simples facto de proporcionar alegria a alguém, seja na rádio, na televisão ou fora desses mundos, muda a minha frequência.
A perda da tua mãe foi um ponto de viragem na tua vida. De que forma esse momento te moldou — e se pudesses voltar a entrevistá-la hoje, o que gostarias de lhe perguntar?
Isto aqui é forte, porque quando falam da minha mãe, eu mudo completamente. Muitas vezes perguntam-me: "Qual foi o momento mais triste da tua vida?" Antes sequer de a pessoa terminar a pergunta, eu já respondo: foi a morte da minha mãe. Porque foi algo que… não, não… não é uma ferida — é uma ferida que, até hoje, está aberta. Está aberta. E é muito, muito difícil. Muito difícil. Esse momento moldou-me? Acho que sim. Talvez tenha começado aí a dar mais valor à vida. Comecei a dar mesmo valor à vida. E também à união familiar, à unidade entre a família. Aproveitar mais. Estarmos mais juntos. Mudei muito, mesmo. Hoje sou muito apegado a essas coisas. Quero ver todos os irmãos, o papá, a família, todos juntos. E quando isso não acontece — quando nos zangamos por coisinhas pequenas, e não conseguimos contornar — isso fere-me. Dói-me bastante. Porque estamos de passagem, e temos de aproveitar cada momento. A família é aquele núcleo onde as pessoas… é onde nos conhecemos. Conhecemo-nos melhor do que qualquer outra pessoa. E quando não conseguimos ultrapassar obstáculos juntos… para mim, isso custa. Não consigo digerir. Como é que as famílias não conseguem ser unidas? Acho que nas famílias não devia haver fronteiras. Não deveriam existir fronteiras. Não deviam. Tinha de haver amor. Compaixão. E, acima de tudo, empatia. Empatia. O que é que eu gostaria de lhe perguntar? Epá, essa questão da morte… é algo que — pronto — gostava de perceber melhor. Porque eu acredito muito… queria falar de um tópico que talvez não abrisse tantos outros debates. Mas entrevistá-la? Não… neste momento, eu só queria abraçá-la. Ya. Talvez… um abraço sem fim.
Já fizeste um programa a fingir que estavas bem quando, por dentro, te sentias a desmoronar? Como se suporta isso?
Já fiz vários programas. Já fiz mesmo vários. Mas, como disse antes, quando amamos o que fazemos… quando o realizador diz "estás no ar", olha, a frequência muda. Se eu estava numa frequência errada, ali a frequência certa vem. E surge aquela alegria, aquela boa disposição — mesmo quando, por dentro, estou a sangrar. Na rádio é exactamente a mesma coisa. Quantas vezes saí de casa sem feeling nenhum, e cheguei à rádio ainda sem feeling…, mas, quando o microfone abre, o espírito enche-se de energia. Por exemplo, agora fizeram-me recordar um momento bastante difícil da minha vida. Fiquei gravemente doente. Muito perto mesmo de perder a vida. E não tinha condições de apresentar um especial do meu programa. Na altura, o programa chamava-se Sérgio Faife — era na TVM. Acho que estou a contar isto pela primeira vez. Estava gravemente doente, acamado, sem forças, perdi muitos quilos. E tínhamos uma edição especial preparada há algum tempo: fora da televisão, com plateia, público ao vivo, músicos convidados, duas partidas de futebol — tudo ia ser televisionado em directo. O Presidente do Conselho de Administração estaria presente. Foi uma grande alegria para todos nós... mas eu não estava em condições. Recordo-me de, dois dias antes, ter ido ao médico quase a gatinhar. Disse ao profissional de saúde: "Preciso de medicamentos tiro e queda, porque no domingo tenho um programa especial." Mesmo com os medicamentos, eu não estava a recuperar. Mas acabei por apresentar o programa assim mesmo. Quando começou… não sei de onde veio aquela energia. Consegui apresentar do início ao fim. Mas, assim que entrei no carro, caí. Voltei para estaca zero. E uma das coisas que mais me tocou foi o meu irmão estar presente. No fim do programa, ouvi-o dizer a alguém: "Aquele jovem que estava ali a saltar — não era aquele que estava doente? Estava ali a saltar e a apresentar o programa..." Ya, é algo surreal. É algo que eu próprio também não consigo explicar.
O que é que nunca disseste em antena por saberes que poderia mudar o rumo de uma vida?
Muitas coisas. Penso lançar em 2026 um livro com textos que partilhei nas redes sociais. Mas quero deixar outro, para ser publicado apenas depois da minha morte, com os direitos para os meus filhos. Talvez aí responda a esta pergunta.
És o único locutor em Moçambique com maratonas radiofónicas que chegaram às 60 horas. O que te move para bater esses recordes?
É uma forma de me doar e de provar a mim mesmo que sou capaz. É um desafio pessoal, não estou ali para competir. Já surgiram propostas para fazer mais horas, mas não posso mentir a mim mesmo. Aproveito para partilhar alegria e mensagens positivas, e as pessoas interagem comigo durante essas longas horas.
Existe alguma música que guardas só para ti, que nunca passaste em antena?
Gosto muito de Paradise, dos ColdPlay, e já a passei em antena. É a música que gostaria que tocassem no meu velório, porque adoro mesmo Paradise.
Tens uma relação muito afectiva com o público. Já sentiste medo de perder esse carinho?
Não. Desde os 11 anos que estou presente na vida das pessoas e nunca senti medo. Sempre levei as coisas com naturalidade e construí uma relação real e bonita com o público. Quanto às redes sociais, abracei logo a mudança e adaptei-me à nova dinâmica, o que considero muito importante.
Entre a força da imagem na televisão e a intimidade da rádio, onde sentes que as pessoas te conhecem melhor?
Acho que gostam mais de me ouvir na rádio, onde me solto mais e sou mais eu. Na televisão, muitas vezes apresento programas que já vêm com a sua dinâmica, embora tente dar o meu toque. Por isso, luto para ter um programa semanal meu, com público, banda e estúdio grande, onde os telespectadores conheceriam mais de mim. Tenho muitas influências, como o radialista José Baleira, e também brasileiras, portuguesas e norte-americanas. A cultura moçambicana moldou-me muito, especialmente a partir do programa Ritmos, onde entrevistei grandes nomes da música ligeira moçambicana, experiência que me ajudou a ser o verdadeiro Sérgio Made in Mozambique.
Há um lugar de Maputo que te devolve memórias sem pedires?
O Prédio Guimarães, ao lado do Ministério da Saúde, na Avenida Eduardo Mondlane. Cresci ali, no bairro Central, e sempre que passo por lá vêm-me as memórias: a infância, as brincadeiras com os vizinhos, os meus pais antes de se separarem. Havia um casal vizinho, português, com dois filhos, o Carlito — a quem chamava Quitos — e a Nádia. Hoje vivem em Portugal e África do Sul. Tenho boas memórias.
Por fim, Sérgio: quando desligas o microfone e as câmaras, quem é o Faife fora do palco?
Acho que sou o mesmo. Gosto de televisão, de ouvir rádios internacionais, de ver notícias, séries e filmes no YouTube. Gosto muito de estar em casa — é o meu ninho seguro. Vivi muitos anos sozinho e isso fez com que hoje aprecie o silêncio. Gosto de ficar só, meditar, pensar em mim mesmo, ler, ver televisão ou escrever.
