Na histórica Ilha de Moçambique, onde o azul profundo do oceano abraça histórias seculares, nasceu e cresceu Samira Jamú. Hoje, ela é um exemplo de força e determinação, usando o mar e a sua cultura como ferramentas para proteger legados e inspirar o futuro. Cientista de mergulho, fundadora da Orampelela e defensora do desenvolvimento sustentável, Samira transformou desafios em pontes para o progresso. "Sou apenas uma menina da Ilha apaixonada pelo mar e cheia de sonhos", diz, com a humildade de quem nunca esqueceu as suas raízes, mas com a determinação de quem ousou ultrapassá-las. A sua jornada reflecte não apenas uma história de superação, mas também um profundo amor pelo património natural e cultural da Ilha.

Infância na Ilha: Entre Ondas e Sonhos
Numa comunidade onde o mar era tradicionalmente território masculino e as mulheres se dedicavam às tarefas domésticas, Samira encontrou no oceano algo que ia além do sustento: uma fonte infinita de possibilidades. Desde cedo, foi movida pela curiosidade em saber o que havia para além da costa. A sua infância foi marcada por momentos de fascínio ao nadar, recolher conchas e observar pescadores e mergulhadores. Inspirava-se também nos arqueólogos que visitavam a Ilha, trazendo consigo histórias de mundos submersos. Apesar das barreiras culturais e de género, Samira aprendeu a mergulhar ainda jovem, rompendo limites e criando novos caminhos. Tornou-se na primeira jovem mergulhadora científica da Ilha de Moçambique, uma conquista possibilitada pelo projecto Slave Wrecks, dedicado ao estudo de naufrágios relacionados ao comércio de escravos: “A arqueologia subaquática deu-me uma nova perspectiva sobre a minha história e identidade. Cada mergulho é como atravessar um portal para o passado e conectar-me aos meus ancestrais.”

O Nascimento da Orampelela
O primeiro mergulho científico revelou a Samira um mundo subaquático de rara beleza e diversidade, que despertou nela a vontade de proteger aquele ecossistema fascinante e partilhá-lo com a sua comunidade. Assim nasceu a Orampelela, um projecto que alia conservação ambiental, promoção da biodiversidade marinha e educação patrimonial. As dificuldades iniciais foram muitas: desde a escassez de recursos até as críticas culturais por ser uma mulher a trabalhar no mar, vestindo roupas de mergulho, consideradas "impróprias". "Não era comum mulheres trabalharem no mar, muito menos vestirem roupas de mergulho. Mas eu decidi que nada me afastaria dos meus sonhos", relembra Samira. Hoje, a Orampelela realiza actividades como limpezas costeiras, sensibilização ambiental e workshops, envolvendo especialmente os jovens. Este trabalho já trouxe mudanças significativas à Ilha de Moçambique, criando sistemas de limpeza regular das praias, colectando dados sobre espécies marinhas e protegendo recifes de coral. Reconhecida em plataformas globais como a National Geographic e a CNN, Samira também já foi premiada em fotografia subaquática, ampliando o impacto do seu trabalho. "A inclusão comunitária tem sido um dos maiores triunfos. Ver crianças, jovens e líderes locais a participar nas iniciativas dá-me esperança num futuro sustentável", palavras suas.

Educação e Turismo Sustentável
Para Samira, a educação é o pilar da transformação social. "Quando ensinamos boas práticas, ajudamos as pessoas a compreenderem o valor dos recursos que possuem e a usá-los de forma consciente", sublinha. Ela também acredita no potencial do turismo sustentável como ferramenta para o desenvolvimento. Para Samira, o estatuto da Ilha de Moçambique como Património Mundial é uma oportunidade para gerar benefícios, desde que haja um esforço conjunto entre comunidades, operadores turísticos e instituições.

Sonhos e Futuros
Samira sonha criar o primeiro centro comunitário de mergulho da Ilha, dedicado ao turismo subaquático sustentável e à capacitação de jovens, especialmente mulheres. "Queremos que os jovens locais sejam protagonistas na gestão do património natural e cultural da nossa Ilha", explica. O desejo de concluir um mestrado é um objectivo pessoal, mas a sua maior aspiração vai além disso: "Espero que a minha história inspire outros a perseguirem os seus próprios sonhos." Às jovens que enfrentam barreiras culturais, ela deixa um conselho: "Não tenham medo de ocupar espaços e de questionar tradições. Algumas práticas precisam de ser revistas, e o mergulho é uma forma maravilhosa de explorar e proteger o que temos de mais valioso."

A história de Samira Jamú é um convite a olhar o oceano e o mundo com outros olhos. Afinal, como ela diz: "O importante é saber usar os recursos que temos para construir um futuro melhor."