Actor, cantor, compositor e humorista, Rafael Portugal é um dos nomes mais populares e aclamados do humor da nova geração do Brasil. Bem sucedido no teatro, na televisão, no streaming e no cinema, venceu diversos prémios como Melhor Actor e Melhor Humor, e dele já se disse que é “alegria em forma de talento, na sua mais pura simplicidade e verdade”. Integra, desde 2015, a equipa do “Porta dos Fundos”, um dos maiores canais brasileiros no YouTube, conhecido por seus sketches de comédia, sarcasmo, sátira política, humor absurdo e humor negro.
Rafael Portugal, de 38 anos de idade, nasceu e cresceu no Realengo, um subúrbio do Rio de Janeiro, numa família com parcos recursos financeiro, e foi participando num projecto de bairro que entrou na vida artística. Para conhecer melhor o seu percurso e as suas diversas facetas artísticas, a Xonguila teve o grande privilégio de o entrevistar, e aqui o apresenta, no seu próprio português. Disse-nos que está louco por trazer o seu humor ao vivo em Moçambique e conhecer-nos de perto.
Como é que o seu percurso e crescimento em Realengo influenciaram o seu humor e a sua arte?
Sou um privilegiado! Tive uma infância riquíssima, apesar de ter sido pobre: melhores amigos, histórias, família... Eu sempre digo que meus amigos são fontaes de inspiração. A vida em Realengo me deu tudo o que sou hoje como profissional.
O que significa para si o sucesso no humor, especialmente sendo de uma origem suburbana?
Sou grato por esse reconhecimento. Ser o orgulho dos meus amigos, vizinhos e família é o que me faz ser essa pessoa já realizada. Hoje, vivo feliz com meu trabalho, e meu trabalho é com o humor. E ter nascido no subúrbio me deu toda a história de que preciso, tanto nos momentos difíceis como nos de vitória.
Como é que a experiência de ter um cachet de apenas 5 reais no início da carreira lhe ensinou sobre a indústria do entretenimento e o valor do seu trabalho?
Nossa, foi difícil! Muitas vezes, eu pensei em desistir, sabe? Eu sempre soube que a única coisa que eu sabia fazer na vida era actuar e fazer rir, e só. Me perguntava: “Meu Deus, o que eu vou fazer da minha vida se isso não der certo? Eu não sei fazer mais nada.”
Que inspiração está por trás da criação de "Coração Suburbano" e quais as expectativas para a série?
Encontrar, o que eu, de facto, encontrei foram as muitas vidas incríveis que vivem no subúrbio, as múltiplas expressões artísticas que não chegam no asfalto, que vivem no morro, no canto distante, no subúrbio. Eu ri, mas muito mais me emocionei e cresci. Vi o quanto minha história foi de privilégio e encontrei gente lutando de verdade. Eu queria contar essas histórias!
Qual é a importância da música e da composição no contexto actual de sua vida e carreira?
Eu sempre amei música. Na minha casa, sempre se cantou de tudo, e eu tinha vontade de aprender a tocar violão. Achava um máximo a pessoa que tocava um violão na roda de amigos. Um dia, eu aprendi e virei essa pessoa. Porém, não sabia tocar tantas músicas, e assim comecei a compor as minhas próprias, que me vinham na cabeça conforme eu ia descobrindo novas melodias.
De que forma a canção "João de Barro", interpretada por Maria Gadú, impactou a sua trajectória na indústria da música?
Eu já compus muitas músicas e tenho até canções hoje gravadas com L7, Papatinho e PK. Mas nada se compara com “João de Barro”. Ela, na minha vida, é tão gigante e já chegou em tantos lugares. As pessoas sempre me perguntam: “É sua mesmo?”
Como lida com as suas inseguranças e autojulgamento enquanto figura pública e humorista?
Ah, inseguranças... eu tenho muitas, muitas mesmo. Aliás, para tudo que me convidam, eu escuto sempre com muita alegria. Mas sempre acho que, para aquilo que estão me convidando, existe uma pessoa melhor para fazer. Eu meio que tenho que trabalhar isso muitas vezes na minha cabeça. Porque, eu acho, às vezes, as ideias são tão boas que me convidam em alguns projectos e eu sempre penso em uma outra pessoa. Aliás, as coisas que eu escrevo, que eu já escrevi de roteiros e textos, eu sempre fiz pensando em outras pessoas fazendo. Eu meio que também gosto desse olhar de fora, sabe? Mas, muitas vezes, é sabotador para mim mesmo. Não me sinto com aquela coragem, fico com medo de atrapalhar, de prejudicar a obra de uma outra pessoa, porque não me sinto capaz. Enfim, vivo nesse processo constante de entender que posso, sim, fazer, e que posso fazer muito bem. Então, é... eu tenho, de facto, as inseguranças, esse julgamento. Não gosto de me assistir, tenho uma dificuldade absurda de assistir pronto, depois…. tenho tudo isso, tenho tudo isso real. Mas tenho alegria de estar fazendo trabalhos onde eu, de facto, queria muito fazer. Até hoje, nunca fiz nada que eu não quisesse fazer e em que estivesse ali por alguma obrigação, sabe? Desde que entrei na Porta dos Fundos e comecei a fazer sketches de humor, sempre fiz tudo o que quis, ali, nos outros projectos que me apareceram. Eu sou muito privilegiado quanto a isso. Tenho o privilégio de fazer coisas incríveis e de trabalhar com pessoas incríveis, com directores e roteiristas. E isso sempre foi muito bom para mim.
De que forma a autocrítica interfere no seu processo de criação de anedotas e sketches?
Ah, eu tenho ideia... Eu penso nisso o tempo todo. Tudo que eu vejo é cena, e até é difícil controlar, porque às vezes eu não quero falar sobre... Mas tudo que eu escuto, tudo que eu vejo no meu dia-a-dia, eu encontro um motivo para estar escrevendo alguma história, alguma coisa, sabe? Eu vejo humor em muitas coisas, sabe? Sejam elas das coisas mais trágicas até as de facto muito engraçadas. Às vezes, coisas que eu vejo e sei que as pessoas vão se identificar porque acabam fazendo aquilo no dia-a-dia mesmo. Sabe? Eu sinto isso, e meio que o meu jeito de criar e de fazer está muito dentro disso, do quotidiano, do dia-a-dia do outro, das minhas vivências em Realengo, das coisas que eu vi acontecer em Realengo. Das muitas personas, muita gente engraçada, sabe? Muita gente divertida. Eu sempre digo isso: que os meus amigos são muito mais engraçados que eu. Se as pessoas pudessem ver, os meus amigos de infância são as pessoas mais engraçadas do mundo e são minha inspiração. Então eu tenho isso assim. Os meus sketches nascem meio que do dia-a-dia, as minhas piadas e o que eu sinto, sabe? O óbvio é que hoje, quanto às críticas, eu sinto que já possuo um público que conhece o meu jeito de fazer humor e conhece o meu trabalho. Então, no humor, fico muito numa zona de conforto de coisas que eu faço, que eu sei que existe uma galera que vai gostar daquele meu jeito de fazer humor. Eu sou muito grato por isso.
Num dos seus vídeos para o Porta dos Fundos, você aborda o tema da colonização portuguesa. Este é um tópico que ecoa tanto na história do Brasil como na de Moçambique. Como vê o papel do humor em discutir e até desmistificar as marcas do colonialismo?
O humor tem esse poder. Eu tenho o privilégio de fazer a Porta dos Fundos com roteiristas inteligentíssimos. Aliás, com um canal que faz muitas e muitas críticas, tendo o humor ali como um caminho, sabe? Para que a gente dê risada, olhe, enxergue e fale: “Caraca, é isso?” Sabe nessa ferida, nessa acidez que o humor te coloca aí para você enxergar? Aliás, muitas vezes são coisas óbvias, mas que às vezes não são vistas ou não querem ser vistas. Mas, rindo, a gente consegue te colocar nesse lugar de: “Olha, é assim, foi assim, tá? Foi desse jeito”. Apesar de a gente estar colocando qualquer coisa a mais que pareça exagero, que muitas vezes pode parecer só coisas pontuadas com humor, foi uma pura verdade, né? De equívoco, de sarcasmo, de maldade e de tudo que você possa imaginar. E a colonização portuguesa foi isso! A gente tem muitos vídeos sobre essa temática, sabe? A gente gosta muito de bater, de zoar, de zoar o opressor, né? Aquele que oprimiu. Esse é o grande ponto.
Há elementos da cultura de PALOP que influenciam ou inspiram o seu trabalho como humorista e artista?
Sem dúvidas, a influência e inspiração que a gente vai absorvendo desde criança na música e cultura...
Conhece algum artista ou grupo de comédia em ascensão em Moçambique, e, se sim, como avalia o estilo e a abordagem humorística que estão a trazer para o panorama da comédia internacional?
Conheço a Maira Santos, que acho supertalentosa e que, inclusive, tenho acompanhado. Eu tenho visto além de humorista, eu tenho dado risada e curtido muito as grandes batalhas de Rap.
Levando em consideração que o povo de Moçambique demonstra uma notória atenção para com o Brasil, talvez devido aos laços históricos derivados do passado colonial partilhado, acredita que a comédia pode servir como uma ponte para unir e entrelaçar as culturas de países distintos, como o Brasil e Moçambique?
Claro!!! Acho que deveria rolar um festival de comédia com comediantes do Brasil e de Moçambique juntos em um palco.
Fábio Porchat, após ser entrevistado pela Xonguila, viu surgirem oportunidades de realizar uma digressão por Moçambique. Pondera que, após a nossa conversa, possa surgir o interesse ou a possibilidade de levar o seu espectáculo de stand-up até ao público moçambicano?
Sem dúvidas. Inclusive, faço parte há alguns anos do mesmo escritório de produção do Fábio, a SAYD Produções, que produz nosso show no Brasil. Espero me apresentar pelos mesmos lugares em Moçambique.
Que aspectos da cultura e tradições moçambicanas acha que poderiam ser explorados através da comédia para promover uma compreensão e apreciação mais profundas?
A comédia te dá a oportunidade de se expressar de diversas maneiras, e eu acho que a cultura moçambicana deve ser expressa em todos os seus aspectos. Eu assisto a alguns canais moçambicanos no YouTube e, aliás, há um tempo venho acompanhando dois professores de Moçambique que fazem vídeos reagindo aos conteúdos de humor do “Porta dos Fundos”, “A Culpa é do Cabral” e outras produções brasileiras. Eles dão o ponto de vista deles, sempre dando um olhar do que é parecido com Moçambique, entre outras coisas. Um deles, o Pereira Horácio JR, está no Brasil agora, e eu até pretendo estar com ele. Quero levá-lo para conhecer uma gravação do “Porta dos Fundos”.
Gostaria de aproveitar esta oportunidade para deixar uma mensagem especial ao nosso público em Moçambique, que tem acolhido a comédia brasileira com tanto carinho e entusiasmo?
Ei, Moçambique! Estou louco para conhecer vocês de perto e poder levar meu humor para vocês ao vivo. Fico aqui, agora, contando os dias. Um grande beijo em todos, e vamos produzir esse festival!
