Um desconhecido 'influencier' na dança contemporânea

Quem é Horácio Macuácua?

Escrito por: Jaime Álvaro

"Não sei quem eu sou! Sou uma pessoa que a cada dia tenho que me descobrir". Este é Horácio Macuácua, um (des)conhecido coreógrafo e bailarino moçambicano, que iniciou a sua carreira na dança tradicional moçambicana em 1996. Diz que não sabe quem é, mas sabe o que o define. A dança não é uma mera paixão, sua profissão, é muito mais que isso. Além de ser sua vida, a dança é a sua alma. 
Horácio Macuácua era novo quando começou a dançar, tão novo que nunca experimentara outra coisa.  Desde cedo, a dança se tornou seu lifestyle, e rapidamente o seu destino artístico se traçou, com dedicação especial à street dance (dança de rua). Em 1999, foi membro-fundador da CulturArte, uma das primeiras companhias de dança contemporânea de Moçambique, onde participou de diferentes performances dirigidas pelo também coreógrafo moçambicano Panaibra Gabriel. Na área da dança contemporânea, teve a oportunidade de trabalhar com coreógrafos de projecção internacional, como o brasileiro Marcelo Evelin, o sul-africano George Khumalo, o norte-americano Mark Tompkins e o francês Boris Charmatz, entre outros.

Horácio nasceu na cidade de Maputo, mas desenvolveu-se fora do país. Como muitas crianças da sua época, Horácio descobriu o seu talento nas ruas do bairro. Começou com street dance, antes de se especializar em danças tradicionais, na Casa Velha, e muito antes ainda de aprender a bailar com a ponta dos dedos. "Comecei na Casa Velha, nos anos 90. Era adolescente, tinha 16 anos de idade. Dançava street dance nos bairros, em competições, antes da dança tradicional. A Casa Velha era uma casa cultural que acolhia todo o tipo de artista amador. A Casa Velha era acolhedora de talentos", frisou.

Da Casa Velha ao velho continente, tão grande era o talento de Horácio que não podia ser escondido ao mundo. Em 2001, Horácio viajou, pela primeira vez, para a Europa, para apresentar seus trabalhos. Três anos depois, conheceu o seu mentor, o coreógrafo venezuelano David Zambrano: "Conheci o David Zambrano em 2004, quando ele veio a Moçambique. Ele convidou-me a ir à Áustria para fazer uma formação, para trabalhar com ele na sua companhia, e também para aprender as técnicas que ele ensina", assim contou o jovem bailarino o encontro que mudou a sua vida.

David Zambrano tem vindo a fazer dança há mais de 30 anos. Nas suas actividades como criador e educador, visitou já 63 países, trabalhou com milhares de bailarinos, e actuou em centenas de locais em todo o mundo. As suas peças vão desde coreografia de set, improvisação estruturada, e pura improvisação. Nascido na Venezuela, Zambrano passou 15 anos em Nova Iorque, e agora vive entre Amesterdão e Bruxelas, continuando a actuar e a ensinar em todo o mundo. O talento de Horácio faz dele uma inspiração para muitos artistas da área e, em pouco tempo, Horácio se tornou, na Europa, um professor muito requisitado. 


O professor sem escola
Horácio nunca se formou numa escola formal de dança. A sua verdadeira escola foi a rua. Foi aí que se descobriu, que aprendeu que os movimentos do corpo poderiam substituir a voz, como meio de comunicação com o universo. "A minha formação na dança foi muito de observar, porque em Moçambique não há escolas profissionais de dança. Eu venho de uma escola de rua. Mas hoje, graças à sorte que tive, dou aulas de dança em Universidades da Europa", disse, com muito orgulho.

Em 2005, Horácio ganhou, do seu mentor, uma bolsa de estudos para se especializar em dança contemporânea na Europa, precisamente na Áustria. Como aprendiz do coreógrafo venezuelano David Zambrano, participou como intérprete em várias das suas criações, pesquisando e desenvolvendo suas técnicas, como o Flying Low – ‘voando baixo’, que consiste especialmente em um trabalho de solo, permitindo ao bailarino explorar a relação entre seu peso e a superfície. Essa técnica utiliza padrões de movimento simples que envolvem a respiração, velocidade e a liberação de energia através do corpo todo para activar a relação do centro com as articulações.

Horácio actua também como professor, tendo já leccionado em Moçambique, Bélgica, França, Alemanha, Holanda, Suécia, Espanha, Brasil e Portugal: "Já andei em várias universidades do mundo, em escolas, seja a dar aulas, a fazer workshops, a compor peças ou a transmitir a minha experiência. Estou constantemente a sair de um lugar para o outro a partilhar a minha bagagem cultural. Estou num lugar que não sei, mas sei que estou com a agenda 'full', por alguma razão, que desconheço, as pessoas gostam daquilo que faço", partilhou a experiência.

Horácio desempenha um papel importante na dança contemporânea nacional. Ama o que faz e transmite tudo quanto sabe com amor e entusiasmo. "O meu mentor fez-me um pedido especial. Ele pediu-me para partilhar o conhecimento adquirido na Europa com os outros profissionais em Moçambique, porque ele não podia levar todos. Desde então, não cobro um centavo sequer para ensinar as técnicas que aprendi na Europa aos meus alunos", revelou o artista, que lamenta o egocentrismo de alguns colegas. "Há um pouco de egocentrismo nos artistas experientes, o que impede o surgimento de uma nova classe artística, uma nova geração. Não se passa o testemunho. Os festivais que existem apresentam muitos artistas, muitas companhias. Entretanto, esses colectivos, esses artistas, só aparecem naquele evento anual ou bienal. O que fazem durante os anos sem festivais? É preciso mudar essa forma de promover a arte, de promover os artistas. Essa forma actual não é sustentável".

O “destruidor” de regras
“Obras de arte fazem regras, mas as regras não fazem obras de arte. ”Esta citação pertence ao músico e compositor francês Claude Debussy, mas poderia ser de Horácio Macuácua. A “regra”, para Horácio, não é uma lei, mas sim uma excepção. Usada, poucas vezes (ou quase nunca), pelo artista nas suas criações e/ou performances. A improvisação é o seu único método, a sua única disciplina, quando se apresenta em um palco. "Não gosto de uma ideia fixa. Sou como uma tela branca em que deixo as tintas darem contornos que nos levam a um caminho não pré-concebido. Não me interessa fazer uma arte definida. Gosto de me surpreender, não defino muito as estruturas das minhas peças. É mais surpreendente quando eu mesmo não conheço o final das minhas próprias peças", vincou a sua singularidade artística.

Com toda a sua bagagem artística, o bailarino passou a investir num trabalho artístico autoral, tendo “Comum”, de 2007, sido o primeiro, que mescla performances em ambientes fechados e abertos. Em 2009, Macuácua criou “Orobroy, Stop!” para a 3ª edição do Kinani – Plataforma de Dança Contemporânea de Maputo, recebendo o Grande Prêmio “PUMA Creative”. No ano seguinte, 2010, conquistou o primeiro lugar no concurso Danse l’Afrique Danse – Encontros Coreográficos de África e Oceano Índico, realizado em Bamako, Mali. A Companhia então passou a fazer apresentações pelo continente  africano, em países como Benim, Chade, Congo, Nigéria e Togo, e pela Europa, na Holanda, França e na Bélgica. No ano de 2012, Horácio criou a peça “Smile if you can”, apresentando-se em Portugal, África do Sul, França e Polónia. Em 2014, realizou o trabalho “Convoy“, em colaboração com quatro intérpretes espanholas. Seus trabalhos mais recentes são as peças “Migrations to paradise” e “Paradise is not in the sky”.  

Horácio não tem dúvidas de que o seu futuro é no palco, e, esteja ele onde estiver, a bandeira e o nome de Moçambique vão sempre consigo: "Vou continuar seguramente na Europa, mas a dar voltas pelo mundo, levando sempre o nome de Moçambique para onde eu for. Sinto que tenho que fazer algo pelo meu País, por isso tenho o projecto de abrir um estúdio em Moçambique para partilhar a minha experiência", finalizou.

Horácio Macuácua vive na cidade de Granada, em Espanha, desde 2009.