Saiu de Moçambique ainda criança, mas levou o país consigo. A pertença não se fixou apenas na memória do lugar, foi-se construindo na família, nos gestos, na língua, na comida, na estética e nas ligações que nunca se quebraram. No jornalismo, encontrou um ofício que lhe ensinou a observar o mundo com atenção, rigor e consciência das relações de poder, entre a imprensa escrita e a experiência televisiva na RTP África. Mais tarde, com o Afrolink, transformou esse percurso em intervenção pública. Nesta conversa, Paula Cardoso fala de identidade, diáspora, racismo, desgaste e responsabilidade, não a partir da nostalgia ou da vitimização, mas de um lugar assumido, consciente e escolhido.
Há ausências que não se recordam, apenas se sentem. Crescer longe da terra onde nasceste deixou-te com esse tipo de pertença que não se aprende nem se herda, apenas se sente?
Eu diria que há uma herança. Independentemente do sentir, esta pertença que eu sinto também a herdei. É indissociável porque eu nasci em Moçambique. Embora tenha vindo para Portugal muito pequena, ainda não tinha 3 anos, mas estava quase a fazê-los. O meu pai e a minha mãe também nasceram em Moçambique. A minha família é moçambicana da parte materna e paterna, a família mais directa. Esse enquadramento moçambicano acabou por me trazer uma educação e uma exposição à cultura moçambicana, ou às culturas de Moçambique, desde sempre. Nunca houve um distanciamento. Essa presença notava-se não apenas nas comidas, continuo a ter como pratos preferidos aqueles que fazem parte da gastronomia moçambicana, mas também na estética, nas capulanas, nas pulseiras, na sonoridade própria dessas pulseiras. É uma memória que, embora eu sinta que foi construída, recorda-me Moçambique. O meu pai falava línguas nacionais e sempre houve este reconhecer da minha moçambicanidade, o viver essa moçambicanidade, mesmo à distância. Recordo-me da festa dos moçambicanos, que acontecia anualmente no Verão, e que me dava essa ligação ao país, através do encontro com tios e primos. Lembro-me perfeitamente do frango no churrasco, do milho assado, de tantas particularidades que tornam impossível dizer que foi apenas uma questão de sentir. Moçambique esteve sempre presente nas vivências, em experiências muito concretas.
A ideia de viver “entre lugares” surge muitas vezes associada a uma dificuldade de pertença, mas Paula Cardoso nunca leu a sua história nesses termos. A identidade sempre foi clara. É moçambicana e faz questão de o afirmar, recusando formulações que diluam essa pertença. Vive em Portugal desde muito cedo, por escolha dos pais, mas nunca romantizou esse percurso. Foi um caminho de afirmação e de lutas concretas por reconhecimento e direitos. Nunca sentiu necessidade de diluir quem é. As adaptações que existiram, sobretudo na adolescência, passaram pelo cabelo, não como rejeição, mas como tentativa de facilitar o quotidiano num contexto dominado pela normatividade branca. Hoje lê esse percurso com distância e lucidez. Houve ajustes, não rupturas. A identidade manteve-se inteira. Moçambicana, a viver em Portugal, sem romantização e sem fragmentação.
Quando entraste no jornalismo, que ilusões tinhas sobre a profissão que o tempo tratou de desfazer?
Na realidade, eu não tinha muitas ilusões, ou talvez nenhuma. Eu não fazia ideia do que iria encontrar, porque não tinha referências. Não estava a fazer televisão, portanto, não foi por aí que entrei. Sempre fui uma pessoa de imprensa escrita e, sendo uma pessoa de imprensa escrita sem referências na própria imprensa escrita, para além dos jornais que lia, a minha expectativa era apenas trabalhar. Era isso. Não pensava em mais nada para além disso. E percebi que não havia espaço. Existia uma ideia de um Portugal branco e de que os temas tinham de estar alinhados com aquilo que se estima serem as vontades dessa audiência. Os temas envolvendo pessoas negras, quando tinham cobertura, estavam quase sempre associados a situações de excelência ou a situações de exclusão. Histórias como estas tinham espaço, assim como as do atleta ou do músico, os lugares do entretenimento, onde a presença negra foi sendo tolerada, nunca aceite. Tudo isto para dizer que eu não entrei no jornalismo com ilusões sobre a profissão, mas tornou-se evidente que havia coisas que eu não podia fazer. Entendia-se que não tinham público, que não eram tão válidas quanto outras propostas. À medida que fui avançando na área, afastei também uma perspectiva de progressão na carreira que acabei por ter em Angola, não em Portugal. Mesmo trabalhando mais e melhor, não via qualquer hipótese de promoção. Pessoas incompetentes passavam à minha frente. Isso aconteceu. Em Portugal, essa correspondência entre trabalho e reconhecimento nunca existiu para mim. Mesmo hoje, se eu não tivesse criado o meu próprio projecto, provavelmente não estaríamos aqui a falar. Foi isso que senti: que não haveria esse lugar para mim, fizesse eu o que fizesse.
O jornalismo deu a Paula Cardoso, antes de mais, consciência da palavra. Sempre teve facilidade na escrita, mas foi na prática diária que aprendeu a ouvir-se, a conduzir conversas e a reconhecer vícios da linguagem. Entrevistar e transcrever tornou-se um exercício de afinação constante. Deu-lhe também um olhar mais amplo sobre o mundo. A actualidade obriga a circular entre temas, geografias e contextos distintos, e esse movimento alargou-lhe interesses e leituras da realidade. Ao mesmo tempo, retirou-lhe o romantismo da profissão. A ideia do jornalismo como contrapoder esbarra nos grupos económicos, nas linhas editoriais e na construção da própria noção de notícia. Mudou ainda a sua relação com o tempo. Os prazos comprimem tudo, o passado perde relevância e a pressão torna-se estrutural. Fins-de-semana e feriados deixam de ser referência. O jornalismo ficou como um ofício formador, exigente, mas sem ilusões.
Em que momento sentiste que o teu trabalho começou a incomodar mais do que a ser celebrado?
Muito honestamente, eu nunca senti que o meu trabalho, excluindo esta nova etapa da minha vida, tivesse sido celebrado. Fui eu própria celebrando, na medida da minha consciência, a cada momento. Fui celebrando as minhas conquistas e alguns trabalhos que publiquei, de que gostei e com os quais fiquei satisfeita. Fiz esse caminho por mim, até porque sempre fui a única pessoa negra nos contextos profissionais em que estive em Portugal. Era a única jornalista negra e, dessa perspectiva, sabia que tinha de celebrar. Não incomodava porque eu não trabalhava estes temas. Quando digo estes temas, refiro-me aos temas que hoje trabalho no Afrolink. Quando começo a ter uma presença pública em Portugal, a partir do Afrolink, o projecto que criei para construir o meu próprio espaço, aí percebo que surgem incómodos que têm directamente que ver com as temáticas que estou a trabalhar. Esse incómodo existe. O que sinto é que, com o Afrolink, o meu trabalho é muito mais celebrado do que qualquer outra coisa. Pelo menos é nessa energia que eu estou, na energia da celebração. O incómodo, para mim, significa apenas que o trabalho está a ser feito. Está mais relacionado com o tema em si do que com o meu trabalho em particular. Qualquer pessoa que trabalhe nesta área vai provocar incómodo em Portugal.
Para Paula Cardoso, tudo começa na consciência. É ela que define fronteiras, entre representar e ser usada, entre ocupar um lugar e ser instrumentalizada. Cada convite traz uma agenda, mas a decisão passa sempre por uma pergunta simples: serve ou não o lugar que escolheu ocupar? Quando serve, não há desconforto. A consciência protege. Essa mesma consciência impede também a separação fácil entre confronto externo e desgaste interior. Para ela, um alimenta o outro. Não existe desgaste que não tenha raiz no exterior, nem confronto que não deixe marcas por dentro. Somos seres em relação, lembra, e é dessa fricção com o mundo que nascem as inquietações, as angústias e os mergulhos interiores que sempre a acompanharam. É por isso que ocupar espaços exige mais do que presença. Exige clareza sobre as linhagens que se trazem, sobre quem se representa e, sobretudo, sobre quem vem depois. A representatividade não se proclama, acontece quando alguém se revê. E quando acontece, deixa de ser símbolo para se tornar caminho.
Alguma vez tiveste vontade de recuar, de deixar de falar, de sair de cena? O que te fez ficar?
Não. Nunca tive essa vontade. Estou a falar na fase do Afrolink, porque há claramente um antes e um depois na minha história. Na comunicação social, no jornalismo, se quisermos, há um antes e um depois do Afrolink. Antes, eu trabalhava por conta de outrem, o que me limitava, obviamente, naquilo que podia fazer. O meu último vínculo profissional foi em Angola, uma realidade diferente, que me permitiu desenvolver uma série de trabalhos que, em Portugal, não conseguiria fazer, mas que nunca me colocaram este dilema de recuar, de deixar de falar ou de sair de cena. Com o Afrolink, começo a trabalhar temáticas que confrontam directamente o sistema que temos em Portugal. Percebo também que há muitas pessoas nesta luta contra o racismo, a xenofobia e todas as formas de discriminação, que recebem mensagens de ódio e ataques constantes. Tenho consciência de que o discurso de ódio existe e está aí. Não sou imune a ele, mas não me sinto amedrontada. São precisamente estes recuos a que estamos a assistir que me dão ainda mais vontade de avançar e de reconhecer a importância de continuar a fazer aquilo que faço, em conjunto com outras pessoas. Este trabalho não é individual, é um compromisso colectivo. Não tenho vontade de recuar, nem de deixar de falar, nem de sair de cena. Pelo contrário, continuarei a fazê-lo enquanto sentir que este trabalho é necessário.
Desligar não significa abdicar. A luta contra o racismo e a desigualdade faz parte do quotidiano de Paula Cardoso, mas não ocupa tudo. Há alegria, há amor, há vida para lá do trabalho e da intervenção pública. Há jantares com amigos, riso, uma taça de vinho, futebol e o prazer simples de acompanhar o Sport Lisboa e Benfica. Essa existência paralela não apaga a consciência. Mesmo em momentos de lazer, mantém-se atenta ao que acontece à sua volta. Não ignora situações de discriminação só porque está fora do contexto profissional. Se for preciso intervir, intervém, sem sentir isso como um peso, mas como responsabilidade cívica. O equilíbrio constrói-se nesse ponto intermédio. Desligar quando é possível, cuidar-se, observar limites e estar atenta a eventuais desequilíbrios faz parte da forma como se mantém inteira num confronto que sabe ser permanente.
Houve algum episódio concreto, uma conversa ou um silêncio que funcionou como gatilho para a Afrolink existir?
Sim. Mas não teve que ver com nenhuma situação de violência ou de animosidade. Antes de criar o Afrolink, escrevi um livro infanto-juvenil, A Força Africana, com o título “O Sol desapareceu, será que foi roubado?”. É uma proposta que quero continuar noutros livros. A Força Africana é o grupo de super-heróis e super-heroínas que criei, e a ideia é colocá-los a desvendar mistérios ao longo de várias histórias. O primeiro livro foi publicado em 2020. O Afrolink nasce da Força Africana. Porquê? Porque eu precisava de uma ilustradora ou de um ilustrador negro, alguém que partilhasse a minha pertença e que percebesse a importância de trazer para o mercado literário infanto-juvenil uma história como esta. Eu cresci sem essas referências literárias e não encontrava nos livros personagens parecidas comigo. Quando tive dificuldade em encontrar alguém para ilustrar o livro, ocorreu-me que seria importante criar um projecto que facilitasse a identificação de perfis de profissionais negros e que permitisse desconstruir a ideia de um Portugal branco. O Afrolink nasce dessa identificação de perfis, dessa visibilização das nossas trajectórias e dos projectos que estamos a desenvolver, desmentindo a ideia de menoridade que continua a ser associada às nossas trajectórias, muitas vezes a partir do preconceito.
Paula Cardoso não identifica partes da sua história que lhe sejam difíceis de contar. Não por entender tudo como público, mas porque distingue com clareza o que deve ser partilhado do que pertence à intimidade. O que escolhe partilhar está ligado ao crescimento. Angústias, frustrações e desencontros da vida, quando partilhados com pessoas de confiança, podem gerar consciência e leveza. Se existe um vazio, ele está no que não conhece, não no que não quer contar. A curiosidade dirige-se à ancestralidade, marcada por silêncios e desenraizamentos históricos que dificultam o acesso às origens familiares. Partilha quando faz sentido, com quem faz sentido, e acredita que muitas dores persistem precisamente porque não nos permitimos ser vulneráveis.
O que é que hoje já não estás disposta a sacrificar, mesmo em nome de causas maiores?
Sacrificar. Eu não sei se me revejo nessa palavra. Quando fui fazendo as minhas escolhas ao longo da vida, até chegar aqui, e neste momento tenho 46 anos, não sentia que estivesse a sacrificar coisas. Fui tomando decisões, e as decisões implicam sempre incluir umas coisas e excluir outras. Na vida, o equilíbrio é tudo. Com a consciência que tenho hoje, procuro esse equilíbrio. E, nessa procura, o descanso é fundamental. Resumindo, não sacrifico o meu descanso. Não abdico do meu descanso. Isso não quer dizer que, numa ou noutra circunstância, não esteja disposta a abdicar, mas, como regra, não quero isso para a minha vida. Quanto às causas maiores, a defesa da democracia é fundamental. Para mim, é uma causa maior, porque todas as outras causas que defendo dependem da existência de um sistema que nos permita participar, ser parte, colocar a nossa voz no mundo. Depois, a luta pelos direitos humanos é central, uma causa maior pela qual vale a pena sacrificar tudo. Houve pessoas no passado que morreram para que Moçambique tivesse liberdade, e é importante que continuemos a defender essa liberdade e a lutar por um país melhor para todas as pessoas, seja esse país qual for. Uma causa não é um trabalho, é uma missão. É uma aspiração colectiva.
Entrevistas
Paula Cardoso
Quando o ofício se torna intervenção
Omar Diogo25 de Fevereiro de 202610 min de leituraTempo bem investido.

Tempo bem investido.