Yuck Miranda
e a luta pelos Direitos dos “Não Identificados”
Escrito por: Jaime Álvaro
A luta pela defesa dos direitos humanos, e da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero) de forma particular, é o que define a vida do experiente actor e performer de dança moçambicano Yuck Miranda, nascido em Maputo. Este artista multidisciplinar, que se considera activista em todos os momentos da sua vida, seja no palco ou fora dele, conversou com a Revista Xonguila e partilhou a sua experiência artística, intrinsecamente ligada à sua causa humanista.
Criado pelos avós, Yuck Miranda, de 28 anos de idade, cresceu em ambiente de artistas, tendo como referências a mãe e uma tia, bailarinas. Yuck, homossexual assumido e reconhecido defensor da causa pelos direitos dos membros da comunidade LGBT, sempre teve acesso às artes, pelas quais acabou por se apaixonar e com que mantém um romance duradoiro. Estudou artes cénicas na Escola Primária e Secundária SOS Hermann Gmeiner, em Maputo, e, além destas artes (música, teatro e dança), aprendeu cerâmica, cestaria e corte e costura, o que alavancou a sua paixão e entusiasmo pela representação e dramatização, transformando-o no artista polivalente que hoje é. "Desde que me conheço como gente que me percebo artista. Comecei a envolver-me com o teatro aos quatro anos. Comecei a estudar teatro na infância e a fazer peças na escola aos sete anos", partilhou. "Nessa altura eu já tinha a certeza do que queria fazer. Frequentei todas aquelas disciplinas artísticas da primeira à sétima classe. Quando saí da SOS, fui para o ensino público, onde não havia muitas disciplinas artísticas. Então decidi fundar grupos de cultura na escola para transmitir a minha bagagem cultural e dar continuidade à minha aprendizagem nas artes". Em 2010, Yuck começa a trabalhar com companhias de relevo de Maputo, dando assim início ao seu processo de profissionalização. Foi actor profissional na Companhia de Teatro Luarte, onde se desenvolveu, antes de se juntar à já histórica e reputada companhia Mutumbela Gogo. Hoje formado pela Universidade Eduardo Mondlane, diz o seguinte de si: "Não sou, necessariamente, um artista da dança. A dança é uma coisa muito recente no meu percurso artístico. Sou mais um artista de teatro que ousa trabalhar com espectáculos de dança".
Zita: uma história (sur)real
'Zita', apresentada pela primeira vez em 2019, no Festival Kinani, é uma peça que resulta do trabalho de investigação do Projecto Identidades Não Identificadas, trabalho que visa revelar, através de performances, as narrativas e dilemas dos membros da comunidade LGBTIQ+ (evolução da sigla 'LGBT' para englobar as diversas minorias sexuais e de género) e que continua em fase de investigação. Nele Yuck aborda narrativas inéditas de pessoas que sofreram tentativas de homicídios em espaços (ditos) seguros, de pessoas que sofreram ataques homofóbicos, e discute as políticas inacessíveis em países denominados seguros para a aquela comunidade. "Este é um dos meus projectos de vida, e ele surge de uma experiência muito própria que eu vivi em Moçambique sendo uma pessoa LGBT", revelou. O Projecto envolve entrevistas a um grupo de pessoas que têm sido sistematicamente discriminadas, marginalizadas e excluídas quando se trata do exercício dos seus direitos humanos, devido à falta de reconhecimento da sua identidade.
"Decidi recolher histórias em países considerados seguros para a pessoa LGBT. Fiz o meu primeiro estudo em Moçambique, concretamente em Nampula, onde entrevistei várias pessoas LGBT. Uma das histórias inspirou a primeira peça teatral do Projecto, Zita".
Moçambique é um dos três países do continente africano "mais tolerantes relativamente à homossexualidade", de acordo com dados de um relatório do Afrobarómetro, que analisou 33 países africanos. Yuck questiona a dita tolerância moçambicana (e não só) no que diz respeito à homossexualidade ou às pessoas LGBT e considera-a "ambígua". "Tento reflectir dentro das 'Identidades Não-identificadas' esse lugar. Haverá no mundo um lugar seguro para a comunidade LGBT? O que estamos a querer dizer quando nós dizemos que há um espaço seguro?", questiona. "Se eu for atacado por ser uma pessoa LGBT alguém me protege? Eu já vivi na pele essa experiência e senti que não tive assistência, e ouvi também de muitas histórias de gente que não teve acesso às estruturas básicas sociais – os hospitais, a polícia, a justiça –, a meio de um ataque desses", queixou-se. No âmbito do Projecto, Yuck colheu mais de 100 histórias, no nosso país e, igualmente, no estrangeiro, retratando os dilemas que a comunidade LGBT enfrenta no mundo.
Uma 'Causa' (re)conhecida, mas...
"A falta de reconhecimento da identidade das pessoas LGBTIQ+ torna-as não identidades e, portanto, não sujeitos de direito, o que contribui para a falta de medidas que têm de ser postas em prática para assegurar a identificação de tais identidades e a garantia dos respectivos direitos", explicou Yuck Miranda o escopo do Projecto.
Yuck esteve recentemente em Paris, em França, desenvolvendo a fase de pesquisa para o seu projecto de vida, Identidades Não Identificadas, centrado em narrativas de membros LGBTIQ+ de diferentes países de todo o mundo, antes da eclosão da pandemia em Moçambique. "Eu sou activista em todos os momentos e todos os dias, seja no palco, seja fora dele. O activismo não é um casaco que a gente veste e, quando chega a casa, coloca numa espécie de bengaleiro. O activismo é a minha vivência diária", frisou. "A arte é um lugar de liberdade, se a arte não tem liberdade não é arte. Então é sobre as liberdades, sobre os silêncios, sobre o que dizem os silêncios sociais, que meu trabalho actua. Quero dar vozes a esses silêncios porque a arte é um lugar livre", referiu.
Para além de Moçambique, Yuck Miranda já actuou e dirigiu diversos trabalhos colectivos e/ou individuais em vários países, designadamente França, Portugal, Noruega, Suécia, Ruanda, Zimbabué e África do Sul. Em Outubro de 2021, foi galardoado com o 'Prémio Prince Claus', na categoria Semente, pelo trabalho engajado que desenvolve em prol da defesa dos direitos humanos. "Ser reconhecido por uma fundação como a Prince Claus, que vem financiando a cultura no mundo inteiro, dá-me imensa alegria", disse com orgulho. “O ganho deste prémio não é só um ganho meu, é um ganho para outros artistas. Acredito que, com este prémio, muitas portas se vão abrir para a nova geração de artistas moçambicanos, em particular, e africanos, de forma geral", concluiu. O Prémio possibilita um fundo, através do qual o artista laureado poderá desenvolver um projecto no sector das artes e cultura.
