Há artistas que criam para entreter. Outros, para questionar. Osvaldo Passirivo dança como quem escava memórias e levanta poeiras antigas, com gestos que desafiam o tempo e o ruído. Coreógrafo, intérprete e professor, Passirivo tem levado Moçambique aos palcos do mundo — mas nunca deixou que o corpo se desligasse da terra que o formou. Das ruas de Maputo às salas de espectáculo de Bruxelas e Lisboa, o seu percurso artístico é feito de inquietações: sobre o que somos, sobre o que carregamos, sobre o que escondemos. Nesta conversa com a Xonguila, ele revela-se não apenas como artista, mas como guardião de gestos ancestrais, condutor de afectos e tradutor de silêncios.

A dança levou-te de Maputo a palcos internacionais, mas também te trouxe de volta às raízes. Se te pedisse para descrever o ponto de partida invisível de cada nova criação tua — o momento antes do primeiro passo — o que encontraria?
Antes do primeiro passo, há sempre um silêncio-turbilhão — ressonâncias do meu trajecto artístico. Não é vazio, é um lugar cheio de fantasmas, memórias, vozes dos meus ancestrais, do batuque ao longe, do corpo a acordar para uma dor ou uma alegria antiga. É ali que tudo começa. Invisível, sim, mas presente.

Quando crias uma coreografia, procuras contar uma história, lançar uma pergunta ao público, ou provocar uma emoção? Preferes que o público compreenda ou sinta o que está a acontecer em cena?
Crio para perguntar, mas já coreografei ou fiz direcção de movimento para criações que contam histórias, pois cada colaboração é ímpar. Cada gesto meu carrega uma dúvida, uma inquietação, mas, por vezes, pergunto-me se tudo tem de ser perguntado e/ou respondido. "Não" me interessa oferecer respostas — prefiro abrir fendas e deixar reticências. Se alguém sair do espectáculo sem certezas, mas com o corpo mexido por dentro, então dançámos juntos.
Prefiro que sintam. A compreensão é um luxo e subjectiva; o sentir é urgência. Se o corpo do outro vibra com o meu, já estamos a dialogar — próximos ou distantes.

Que silêncios de Moçambique procuras traduzir em movimento?
Os silêncios do meu país falam alto, mas muito alto. O silêncio dos que se foram sem dizer adeus, pois deixam um silêncio vazio para os que ficam; o das mulheres que carregam o mundo sem reclamar desde sempre; o das ruas que dançam mesmo sem música — pois as ruas, avenidas, etc. do meu Moçambique dançam as histórias nelas vividas. Tento traduzi-los sem traí-los.

E se a cidade de Maputo fosse um corpo em movimento, como seria a sua dança?
Maputo dança com a anca solta, mas com o peito apertado. É um corpo quente, pulsante, mas também cansado de carregar promessas. A sua dança é feita de improviso, de ter de se adaptar às situações existentes, pois a dança (arte) é mediocrizada por quem a devia apoiar. Mas, como somos resilientes, fazemos história (pandzamos). Só para reflectirmos: a dança, desde o jardim-de-infância até à fase adulta e profissional, mesmo assim, vê o reconhecimento demorar a chegar.

Já houve algum momento em palco que te tenha feito repensar a tua relação com a dança?
Sim, houve um momento. Estava em residência criativa do espectáculo SMILE IF YOU CAN, do Horácio Macuácua, em Maputo. De repente, senti que dançava parado no mesmo espaço, com um buquê de rosas, e percebi que a dança não consiste só em mover-se — o estar estático num espaço performático já nos leva a um lugar que começa estático e termina dinâmico, ou de outras formas. A partir daí, a dança passou a ser algo mais aberto... Mas importa referir que, a cada criação, permito que o corpo, a mente e a minha espiritualidade se coloquem em questionamento deste corpo global...

Que gesto teu em cena achas que mais se aproxima de uma oração?
O meu corpo é o meu templo sagrado de partilha e recepção desta fé ancestral, tradicional, clássica, moderna e futurista. Quando me ajoelho, deito, rolo, caminho num chão performático — é ao chão que o corpo fala com algo maior do que ele. Esse gesto é reza, é entrega, é gratidão, é bênção e é fé.

Qual foi o momento mais cru e honesto da tua carreira artística?
Foi quando fazia danças urbanas, no Grupo Makinistas. Na escola primária — foi de lá que saíram os primeiros contratos, mas, ao mesmo tempo, foi a fase "crua" do Osvaldo Passirivo. Depois, veio a transição para a dança contemporânea, vinda das danças tradicionais. Ali não havia truque nem filtro. Só verdade.

Como lidas com a tradição e a inovação sem que uma apague a outra?
A tradição não é um museu — é uma correnteza. Ou seja, tem épocas de alta e de baixa, mas está sempre lá: a minha essência. Inovo com os pés dentro do terreiro, com respeito, mas sem medo, pois não há futuro sem raiz, e não há raiz que não queira crescer.

O que é que o teu corpo ainda não conseguiu dizer, mas insiste em tentar?
Dores que o corpo ainda não sabe dizer com o movimento, mas acabo por partilhar essa reflexão com outros corpos — e acaba por ser uma forma de ver essas minhas dores em outros corpos que podem ser iguais e distintas. Talvez também porque doem demais. Mas vou tentando — a cada ensaio, a cada espasmo, tento. O corpo é insistente, como a exteriorização dessa dor.

Fala-nos sobre o teu projecto actual. O que representa ele para ti, tanto no aspecto artístico quanto no pessoal?
Estou a trabalhar num solo chamado WHY. É uma performance de dança contemporânea que explora as complexidades e nuances das questões existenciais humanas. A peça mergulha nas profundezas da mente, questionando o propósito da vida, a natureza da escolha, a busca pela identidade e a luta contra a incerteza. Mas é também a busca por algumas respostas pessoais — sou pai e tenho um campeão: um filho especial. Ao mesmo tempo, tento entender quem é realmente especial: eu, por saber lidar com ele, ou ele, por aceitar-me e confiar em mim (família)? Cada indivíduo pode ter uma interpretação única do que dá sentido à sua vida — e essa busca pode evoluir ao longo do tempo. O importante é que cada pessoa encontre o que ressoa com as suas próprias experiências e valores.

Guardas alguma imagem da tua infância que ainda hoje te faça mover em palco?
A imagem da minha mãe, do meu pai e da minha irmã a dançarem sempre em casa — o meu pai, descamisado, como gostava de estar, o que acabou por se tornar uma marca em todos nós. Agora, com o meu filho, também ficamos assim. E, como é algo cultural ou tradicional, nas danças tradicionais estamos sempre descamisados e sempre com um sorriso contagiante... A minha família — de sangue e das artes — é, por si só, muito feliz, apesar das adversidades da vida.

O que te emociona mais: uma plateia em silêncio absoluto ou uma que reage intensamente?
O silêncio absoluto arrepia — é conexão mútua, ou seja, é quando o público respira comigo. Mas confesso que também adoro o outro lado, quando alguém grita “eish!” no meio da dança, dependendo do contexto em que nos encontramos. E, particularmente, quando é Moçambique a responder — pois dançar em casa é uma dádiva, é a realização de um sonho sempre que subo ao palco em Moçambique.

Se tivesses de imaginar o corpo moçambicano do futuro — aquele que dançará daqui a 50 anos — e deixasses um último movimento como legado, o que veríamos nessa dança?
Imagino um corpo híbrido: ancestral e electrónico, pois o moçambicano consegue adaptar-se facilmente — não só ao nível da dança, mas também noutras áreas. Vejo um corpo que dança com os algoritmos, mas que ainda sabe o cheiro da terra molhada. Um corpo que não esqueceu o xitsuketa... E se tivesse de sair de cena hoje, o último movimento seria simples: uma mão estendida, a abrir e a fechar devagar. Como quem diz: ainda há mais, mas agora é convosco — é passagem de testemunho.