"Neste Deserto Nascem Flores" é um título bastante evocativo. Poderiam partilhar mais sobre o momento ou a situação específica que inspirou este nome e conceito do álbum? Além disso, quais são as vossas expectativas quanto à recepção pelo público e pela crítica?
O nome do disco surgiu depois das canções já estarem escolhidas, depois de já se ter arranjado um colectivo, um bocado à semelhança de quem escreve. Quando agarramos num instrumento ou em algo que nos inspirou, não sabemos ao certo o que aquilo vai ser, nem que consequências ou que impacto aquilo vai ter. O nome do disco surgiu depois de estarmos a olhar para a obra com outros olhos e percebermos que o nome "Neste Deserto Nascem Flores" era muito forte e também acabava por resumir muito o espírito do disco. Então pareceu-nos ser um nome até demasiado óbvio para nós não nos termos apercebido até então. Do ponto de vista da aceitação do mercado, é sempre imprevisível. Por isso, eu prefiro não ter grandes expectativas. Naturalmente, sendo um ser humano que gasta tempo e se envolve de forma emocional com as coisas que cria, tenho sempre a expectativa de que as pessoas consigam retirar para si algo positivo e que, de alguma maneira, sejam tocadas pela obra. Mas, do ponto de vista comercial, tento não criar grandes expectativas.
Este álbum marca uma nova fase na vossa carreira. Em que aspectos sentem que a vossa música evoluiu ou amadureceu neste último trabalho?
Eu tenho um bocado de medo da palavra "evolução", porque evolução nem sempre significa algo mudar para melhor, mas eu quero acreditar que, à medida que fomos fazendo discos, eles foram sempre mudando para melhor. É assim, nós já estamos, na verdade, há 16 anos; no final deste ano vamos fazer 17 anos juntos. É muito tempo a partilhar a estrada, muito tempo a partilhar música. Esta é a nossa 5ª aventura discográfica. Eu quero acreditar que sim, que à medida que fomos fazendo, fomos melhorando. Em termos de sonoridade, HMB é sempre muito difícil de retratar. Eu creio, inclusive, que HMB acontece ao vivo e que os discos de estúdio têm muita dificuldade em retratar o espírito da banda. Mas é isso. Mas acho que sim, que evoluímos e amadurecemos. As canções têm temáticas naturalmente mais maduras, carregadas de experiência, e é isso que nós queremos passar. Começamos a entrar num ciclo que é o ciclo de começar a partilhar experiências.
“Se surgir um convite, nós vamos aceitar ir a Moçambique e fazer música para o povo moçambicano. É só chamarem por nós!” - Héber Marques
Os singles "Sol e Lua" e "Já Não Sou Bom a Mentir" apresentam contrastes emocionais e musicais. Podem falar sobre a escolha destes temas como singles e o que representam no contexto do álbum? Como é que as experiências pessoais de cada membro se entrelaçam nas letras e melodias deste álbum?
Os singles de facto são antagónicos em vários aspectos. Por exemplo, o primeiro single, "Sol e Lua", foi de facto escolhido porque era a música mais "easy listening" e que tinha os "gimmicks" mais fáceis de se digerir, perceber e apreciar. Estamos a falar de um amor platónico, que acaba por depois, obviamente, ser mais profundo na análise, mas foi por esses motivos que escolhemos "Sol e Lua". Já a música "Já não sou bom a mentir" espelha muito aquilo que é uma condição que, muitas vezes, à medida que vamos crescendo, nos encontramos e percebemos que "Epá, fogo, esta versão de mim que expus até hoje não é a versão mais autêntica, não é a versão mais fiel". Então, é natural que se queira quebrar algumas imagens cristalizadas, e a música "Já não sou bom a mentir" fala exactamente disso. As experiências pessoais têm sempre, obviamente, muito impacto nas letras das canções. Eu, sendo quem escreve a maioria das músicas, não consigo fugir a isso, não é? Ou seja, pelo menos de mim, as músicas vão ter sempre uma quota parte muito grande, e nas melodias e nos arranjos vai ter dos outros.
As colaborações com artistas como Tatanka, EU.CLIDES e Joana Silva trazem uma diversidade sonora ao álbum. Como surgiram estas parcerias e qual foi o impacto delas no resultado final do álbum?
Nós, sempre que fizemos parcerias em disco, sempre respeitámos aquilo que a música estava a pedir. Desde o início, desde o primeiro disco dos HMB, sempre foi assim. Se nós achávamos: "Pá, a música pede... Sei lá, uma harpa", e ninguém de nós toca uma harpa, nós íamos convidar alguém porque a música pedia muito uma harpa. Isto só a título de exemplo. Então, no caso, os convidados, no meu entender, têm sempre um impacto muito grande na canção, e eu acho que é sempre um bom impacto. No caso do Tatanka, nessa música "Money", quando me surgiu a frase "O pedigree é especial e ninguém leva a mal", eu sempre ouvi o Tatanka na minha cabeça a cantar esta frase. Então, tendo em conta que é amigo pessoal, tenho o número de telefone dele, perguntar se ele estaria na boa para fazer era fácil. E, sendo a pessoa generosa que é, disse "claro que sim, bora nessa". Marcámos, e ele fez a cena acontecer. Eu até filmei e foi muito especial para mim. Tenho até um trechinho dele a fazer aquele acting ali a meio da música, que eu acho que ele faz como ninguém. Acho que aí ele brilhou ainda mais. No caso do Eu.Clides, a música... eu sempre achei que ela era um dueto, nunca achei que era uma música para ter apenas um intérprete, sempre achei que a música teria dois intérpretes. Mas o Eu.Clides não foi óbvio inicialmente. Mas acabou por ser a melhor opção. Quando o Joel, o baterista dos HMB, se lembrou do Eu.Clides, foi ele que propôs. Eu já conheço o Eu.Clides há muito tempo, acho que ele devia ter uns 13 ou 14 anos por aí... E sim, quando ele disse, de facto, era óbvio. Então, chamei o Eu.Clides e, além de ser um artista com uma voz muito única e uma maneira muito única de fazer a sua música, é um guitarrista de mão cheia. Mandei a música para ele e ele gostou muito, achou que tinha muito a ver com ele. Veio aqui ao estúdio ter comigo, gravou a guitarra porque eu lhe pedi também, e só ele ter posto a guitarra dele já levou a música para outro nível. E depois, quando ele pôs a voz dele e a maneira dele interpretar a canção, acho que a música se tornou muito especial, ao ponto de ser, até à data de hoje, a minha música preferida no disco.
Após uma carreira de 15 anos e com uma base de fãs sólida, como é que vêem a vossa relação com o público? Existem expectativas específicas sobre como este trabalho será recebido pelos vossos fãs, especialmente em Moçambique?
Eu acho que, mediante o período da história em que um artista emerge, ele tem noções diferentes do seu público. Nós surgimos numa altura em que estava a surgir o YouTube, por exemplo, e, mais tarde, uns dois anos depois de termos começado, surge o Facebook e as redes sociais. Começa a haver essa ideia de redes sociais. Eu acho que os artistas que começam hoje têm uma noção mais clara do público que pretendem alcançar. E isso não é propriamente melhor ou pior. Não é melhor nem pior para o artista ter já uma ideia certa de quem pode vir a ser o seu público e daquele que não faz ideia do que pode acontecer. Para falar especificamente de nós, nós surgimos nessa fase em que começamos a ter um contacto mais directo com o público. Eu acho que, no início, até chegámos a usar bem o YouTube e a comunicar bem com o nosso público com muito conteúdo. Depois houve ali uma fase em que deixámos de fazer isso, e esse é o meu grande arrependimento. Eu acho que os HMB, sendo a banda que são, com a história que sempre tiveram e com a qualidade que têm hoje e sempre tiveram, deviam ter tido uma comunicação ininterrupta com o seu público. Mas eu quero acreditar que o impacto da nossa música é sempre um impacto positivo. Quero acreditar que deixamos musicalmente um bom legado, e que o público, pelo menos quanto à qualidade, nunca se vai sentir defraudado. Essa é a minha expectativa quando lanço ou edito músicas com os HMB, sempre foi essa a minha expectativa. Eu acredito que quem quiser parar para escutar música (não só pôr a música a tocar, como a maioria das pessoas faz hoje em dia, ligando o rádio e pondo a música como som ambiente, e eu não tenho nada contra isso…), quem se sentar para o ouvir vai retirar verdadeiramente a essência do disco. E eu gostava que esse fosse o comportamento do nosso público. Até porque fizemos isso com uma série de amigos nossos mais próximos, convidando-os para se sentarem connosco e ouvirem o disco de ponta a ponta.
Que mensagem gostariam de enviar aos vossos fãs moçambicanos? Existem planos para concertos em Moçambique?
Então, planos, nós temos, na verdade, uma grande vontade que é, nesta fase, mais do que nunca, fazer aquilo que nos vai na alma. Nós queremos muito tocar música, fazer a música mais honesta que conseguirmos. Queremos estar nos sítios mais especiais em que conseguirmos estar. Se surgisse uma oportunidade de voltarmos a Moçambique, gostaríamos muito que isso se proporcionasse. Com certeza iríamos tirar ainda mais da experiência do que tirámos em 2016, na altura em que fomos a Moçambique. Acho que iríamos tirar ainda mais. Então, se surgir um convite, nós vamos aceitar ir a Moçambique e fazer música para o povo moçambicano. É só chamarem por nós!
Ao longo da vossa jornada, enfrentaram certamente muitos desafios. Como é que estes desafios influenciaram a criação de "Neste Deserto Nascem Flores" e o que representa este álbum na vossa jornada enquanto banda?
É uma jornada, é uma vida já. Uma pessoa com 17 anos já não é uma criança, também não é um adulto experiente, mas já tem vida, já tem muita história, já tem muita coisa para contar. No universo da música e da carreira artística, 16 para 17 anos já é muito tempo, e é natural que com isso haja também coisas que não correm tão bem, haja desilusões, haja o que a vida nos apresenta, que são dificuldades, e com isso também venha desencanto e desconexão. Tudo isso é natural numa banda. O que não é natural é, ao fim de tanto tempo e de tudo isso que estou a descrever, ainda haver união, ainda haver uma vontade de continuar a fazer música. Isso já vai para o campo do milagre. Então, acho que nós acabamos por ser um pequeno milagre nesta indústria, a par de outras bandas que também já tiveram percursos tão longos como nós. E este disco, "Neste Deserto Nascem Flores", de facto, não podia ser mais apropriado porque, passado este tempo todo e passado tudo isto que acabei de descrever, nós conseguimos ver as pequenas flores a surgirem do deserto. E nada traz mais alegria do que isso.
Este álbum introduz novas sonoridades ao vosso característico Soul e R&B. Poderiam explicar como é que estas novas influências se manifestaram no álbum e o impacto que tiveram na vossa evolução sonora?
Nós vamos sempre ter como matriz uma língua mãe. Assim como eu me expresso melhor em português porque é a minha língua materna, sempre que quiser falar algo que me venha do coração, vou ter mais facilidade em fazê-lo na minha língua materna, a língua do meu coração. Mas isso não quer dizer que eu não me saiba explicar e expressar noutras línguas. A vida e a experiência vão-me equipar com outras ferramentas e outros idiomas, e eu vou provavelmente saber-me expressar em outros idiomas. Com a música é a mesma coisa: nós surgimos do Soul e do R&B, mas, como amantes de música que somos, não nos cingimos a essa sonoridade, e para nós é muito natural viajar por outras cores e outras estéticas. Este disco é só mais uma manifestação disso. Desde cedo que nós sempre gostámos de ser um pouco de tudo, sempre tivemos uma irreverência em termos de som, muito característica do rock. Sempre tivemos temáticas e letras mais inspiracionais, que vêm muito do Gospel, mas gostamos de nos expressar de várias maneiras, e este disco é só mais uma representação disso.
Na sequência da entrevista concedida à Xonguila por EU.CLIDES, na qual ele enfatizou a profunda influência que a igreja e a religião exercem em suas letras, reflectindo uma conexão espiritual intensa com a sua música, gostaríamos de saber: dada a relevância da fé e da espiritualidade nas vossas próprias vidas, de que forma essa dimensão espiritual se entrelaça na narrativa e na mensagem que desejam transmitir com as canções de "Neste Deserto Nascem Flores"? Como é que este aspecto da vossa identidade moldou o conteúdo lírico e a visão artística deste novo álbum?
Olha, não é uma resposta fácil de se dar, ainda que pareça óbvio tendo em conta o histórico da banda, e até o meu histórico enquanto alguém que está à frente da banda, e o facto de ter nascido num lar cristão. Não consigo escapar a esta mensagem, e é algo que eu percebo hoje, com 40 anos. Eu percebo que não consigo escapar, assim como ninguém consegue escapar à espiritualidade. Tudo começa e termina no espiritual. Mas, para mim, era algo muito inconsciente. Essa espiritualidade que ficava impregnada nas músicas dos HMB era algo muito inconsciente; hoje é algo muito consciente, eu tenho essa noção. Então, além de não conseguir escapar a isso enquanto alguém que vive e respira neste mundo, também tenho ainda mais agudizada a responsabilidade de que a obra que eu ponho cá fora seja uma experiência não só sonora, mas também uma experiência emocional. E o "Neste Deserto Nascem Flores" está impregnado disso nas suas canções. Por exemplo, "Força Motriz" é uma canção onde eu estou a cantar "Tu és minha força motriz, minha terra, a minha raiz". A letra é exactamente isso, é apelar à espiritualidade, ao espiritual, a apelar que o espiritual não desampare, que o espiritual não desapareça. Aqui, o espiritual para mim tem um nome muito específico: eu estou a falar de Deus, estou a falar de Jesus, estou a falar do Espírito Santo. Eu não consigo escapar, de tal maneira que, quando eu vou escrever, muitas vezes as imagens que uso são imagens bíblicas. No próprio verso eu digo "Eu já tentei desatar o nó, olha só, mas nada, nada se passa, nada. Mais de sete voltas a Jericó, olha só, mas nada se passa". Para quem tem alguma familiaridade com as letras, com o conteúdo bíblico, vai perceber que Jericó é uma cidade que ainda hoje existe. É uma terra que remete ao Oriente e é um dos cenários bíblicos do Velho Testamento. Tem uma história muito curiosa que quem tiver curiosidade pode ir ler. Então, isto para responder que, de facto, a espiritualidade e a vida religiosa e de igreja influenciam sempre de uma forma inevitável as canções dos HMB.
Num mundo cada vez mais digital e, por vezes, distante, marcado também por conflitos como as guerras, a música tem o poder único de conectar pessoas e despertar emoções profundas. Com 'Neste Deserto Nascem Flores', que aspectos da condição humana vocês esperam explorar ou iluminar, especialmente em relação à esperança, resiliência e busca por paz em tempos de conflito?
Paz não é necessariamente ausência de conflito. E muitas vezes nós abraçamos uma falsa paz porque não queremos estar em conflito. Estar em conflito não é necessariamente mau. Isto é só um parêntese que eu queria fazer. Mas sim, num mundo mais digital, de facto, as pessoas estão mais distantes, e a interacção humana, que faz toda a diferença, tem vindo a escassear. "Neste deserto nascem flores" é uma reacção humana, é uma expressão humana. Nós expressámo-nos da melhor maneira que conseguimos no período em que estivemos a gravar esse disco. Temos sempre a expectativa de que isso tenha, acima de qualquer outra coisa, um impacto real, que vá além de ser um simples manual de mudança para a vida de alguém ou para a alma de alguém. Queremos que as pessoas, ao ouvirem o disco dos HMB, percebam que foi feito por um ser humano. Acima de tudo, essa é a grande missão da nossa música. Tudo o que vem além disso é por acréscimo. Se as pessoas conseguem retirar algo que ilumine alguma área escura da sua vida, melhor ainda, porque aí deixamos de fazer apenas música e entramos numa área de propósito de vida. Eu acredito efectivamente que todos nós temos um propósito na vida e o meu propósito é ser uma espécie de profeta, aquele que lembra as verdades de Deus. Acho que, mesmo sem mencionar o nome de Deus, é possível passar essa mensagem, lembrar as ideias de Deus, lembrar as suas leis e costumes. E acho que os HMB acabam por ser um veículo para isso, sendo muitas vezes um profeta também para mim mesmo. Quem fala algo emite uma opinião primeiro para si, a pessoa é o seu primeiro público. É complexo, e a pergunta não permite uma resposta muito curta e sucinta, como dá para perceber. Mas, sim, eu gostava de passar uma mensagem de esperança, resiliência e busca de diálogo, acima de tudo diálogo, e não a ausência de conflito. Quero ter a noção de que as pessoas estão efectivamente a ouvir e a entender o que o lado A fala com o lado B.
