Se ficcionássemos a história de Simão Zacarias, poderíamos dizer que, feito explorador, rumou do porto da Cidade da Beira até às águas geladas da Escócia. Não foi assim, mas quase, já que Simão Zacarias tem conquistado tudo aquilo a que se tem proposto. Vamos conhecer esta história aquática?
Simão Zacarias é um eterno estudante. Aos 31 anos de idade, este beirense já correu meio mundo a explorar o universo aquático. Começou por se licenciar em Biologia Marinha, na Escola Superior de Ciências Marinhas e Costeiras (ESCMC) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), na Zambézia. E foi só o começo. Explorou a área da aquacultura, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no Brasil, e recentemente tornou-se oficialmente Doutor, ao terminar o Doutoramento em Aquacultura na Universidade de Stirling (UoS), na Escócia.

“Um dos maiores sonhos que tive foi o de algum dia ser “Doutor” em área que decidisse seguir. O que me encantava não era o título em si, mas as oportunidades e capacidades de investigação e de contribuir significativamente na sociedade que um “Doutorado” possui”, afirma Simão.

Começou a construir os alicerces assim que voltou da Terra de Santa Cruz, em 2015: “Vi um anúncio de projecto de pesquisa de Doutorado na UoS, que precisava de candidatos como eu. Não pensei duas vezes para submeter os documentos necessários – à priori eu sabia que tinha qualificações para trabalhar nesse projecto de pesquisa. Na primeira semana de Dezembro comunicaram-me que eu tinha sido o candidato seleccionado para a vaga do projecto”, diz-nos, com convicção, o jovem cientista.

Zacarias tem sido o senhor do seu destino. A vida ensinou-o, desde cedo, a trabalhar para alcançar aquilo que ambiciona e nunca esperar por ninguém. Essa dedicação e empenho não têm sido em vão, já que Simão foi distinguido, no ano passado, com o Prémio Global de Inovação em Aquacultura. Actualmente, vive na Escócia, mas grande parte do seu trabalho de investigação é feito na América Central (Honduras e Nicarágua) e no Sudeste da Ásia (Tailândia).  

Embora hoje o trabalho e a vida de Simão Zacarias sejam um exemplo, nem sempre os capítulos da sua história foram fáceis. Quando questionado sobre o conselho que daria a jovens moçambicanos que gostariam de seguir o caminho da investigação, o cientista é peremptório: “Gostaria de dizer aos jovens e adolescentes que nasceram em famílias humildes que nunca devem desistir dos seus sonhos, mesmo que tudo pareça impossível”. Não sou filho de nenhum governante ou gente de classe média ou alta. Sou duma família humilde, de um dos bairros da Manga, na Beira, e cresci numa família que vivia com menos de 1 ou 2 dólares por dia. Já vendi petróleo, alface, açúcar e cigarros na rua para conseguir manter-me na escola. É preciso terem muita paciência e trabalharem duro e de forma inteligente para alcançarem os vossos objectivos. Não se deixem levar pelas emoções da adolescência ou juventude se isso influenciar negativamente os vossos objectivos”, informa e aconselha o investigador.
 

“Sou duma família humilde, de um dos bairros da Manga,na Beira, e cresci numa família que vivia com menos de 1 ou 2 dólares por dia. Já vendi petróleo, alface, açúcar e cigarros na rua para conseguir manter-me na escola”

Na realidade, Simão sempre teve gosto pela ciência. Primeiro, por Medicina, e, depois, por Biologia Marinha. Foi em Florianópolis que aprofundou os seus conhecimentos de aquacultura, onde aperfeiçoou as suas habilidades de investigação e aprendeu a produção do camarão, temática em que procura melhorar práticas. “Isso envolve fazer investigação aplicada juntamente com os produtores, e trabalhos colaborativos com diferentes parceiros. Também envolve viajar de um continente para outro (da Europa para a Ásia e a América) e fazer análises em laboratórios da Universidade”, explica o investigador.

Engane-se quem achar que a vida de um cientista é aborrecida. De acordo com Simão Zacarias, ser cientista significa trazer novos conhecimentos científicos e inovações que contribuem para o desenvolvimento do sector. Isso inclui aprender constantemente novas formas de buscar o conhecimento e manter-se actualizado quanto ao desenvolvimento e desafios do sector.

Embora viva a um oceano de distância, Simão mantém o olhar crítico sobre o que se passa no seu país: “Creio que, primeiro, se deve criar ou melhorar a cultura científica no povo e entender que a ciência é uma das principais bases para o desenvolvimento de um país”, partilha. É com o olhar nesse desenvolvimento que o beirense que aqui apresentamos mantém a vontade de criar um centro de investigação de referência no domínio da aquacultura, em Moçambique.