Octávio aprendeu a lutar antes de entrar no ringue. Cresceu em Maputo, entre liberdade e movimento, e saiu ainda em criança, deixando para trás muito mais do que um lugar. A vida tratou de lhe apresentar os primeiros combates cedo, alguns sem plateia, outros difíceis de nomear. O boxe chegou mais tarde. Não como destino imediato, mas como resposta. Foi aí que encontrou forma de canalizar o que trazia dentro de si, a dor, a disciplina, a resistência, a vontade de continuar. Hoje, cada combate carrega esse percurso. Não é apenas confronto, é memória. É o ponto onde o atleta e o homem se encontram. Nesta conversa com a Xonguila, fala da infância, da partida, da solidão do ringue e daquilo que, no fim, realmente fica.
Antes de soar o primeiro gongo, quando ainda está sozinho no balneário, quem é o homem que se prepara para entrar no ringue?
Um homem cheio de sonhos. Independentemente das conquistas que possa ter, independentemente da idade, sinto sempre essa fome, esse desejo de conquistar mais. É um homem que entra no ringue como sonhador, sempre pronto para alcançar mais e mais.
Que tipo de menino era o Octávio que cresceu nas ruas de Maputo? Que memórias da sua infância ainda o acompanham hoje, mesmo depois de tudo o que viveu?
Ah, tenho boas lembranças do meu país, tenho boas lembranças de Moçambique. Era um miúdo extremamente irrequieto, mas sempre gostei muito de luta. Tínhamos uma cultura muito forte em Moçambique de fazer lutas de karaté e de lutar na rua depois de ver os filmes. Grande parte da minha infância, como já disse, passei-a no Chamanculo, rodeado de muitas brincadeiras. Gostávamos de brincar com piões, de andar carrinhos de rolamentos, entre outras coisas. Fui uma criança que cresceu com muita liberdade, algo que hoje já não se vê. Sempre cheio de energia. Trago, até hoje, muito boas lembranças de Moçambique e da minha infância. Foi um período muito agradável. Vivi momentos que ainda me marcam e que me deixam sempre saudades do país.
Para Octávio, Maputo vive nas sensações. O cheiro do mar, o da fruta, o sabor que fica, o calor no corpo, a liberdade de andar descalço. É aí que a memória permanece. Lembra-se da partida ainda em criança. No aeroporto de Maputo, entre despedidas e rostos familiares, o sonho começou a ganhar peso. Ia atrás de um futuro ligado ao Sporting, mas deixava tudo o que lhe era próximo, e foi ali, naquele momento, que a emoção tomou conta, chorou muito, sem conseguir travar o que sentia. Foi o primeiro verdadeiro afastamento. Aprendeu a viver com a distância, mas aquele momento nunca saiu de lá.
Ao longo do seu caminho houve certamente sonhos que ficaram para trás. Qual foi o preço mais difícil que teve de pagar para chegar até onde chegou?
O grande sonho que eu tinha quando era miúdo era ser jogador de futebol. Sempre quis ser jogador do Sporting ou um grande jogador de futebol de um grande clube mundial. Mas esse sonho nunca chegou a acontecer, porque não tinha essa qualidade. Mas aquilo de que mais tive de abdicar, para chegar ao patamar onde estou hoje, foi da distância que tive de ter da minha família, dos meus próprios filhos. Porque tive sempre de dar de mim muito mais do que devia, né? Comecei no desporto muito tarde, então senti que tinha de trabalhar o dobro, o triplo dos outros, para conseguir alcançar os meus objectivos. Entretanto, tive de abdicar muitas vezes de estar com os meus filhos, com a minha família, para poder realizar os meus sonhos. Isso, para mim, foi a coisa mais difícil, mais dura que tive de fazer para chegar ao patamar onde estou hoje e de onde quero chegar ainda mais alto.
O boxe nasceu num dos momentos mais duros da vida de Octávio Pudivitr. Não foi escolha imediata, nem um sonho antigo. Foi necessidade. Quando o filho mais novo foi diagnosticado com cancro, tudo à volta perdeu equilíbrio. A rotina deixou de fazer sentido. Procurou mudar, sair daquele lugar, encontrar alguma forma de lidar com uma dor que não conseguia conter. Foi nesse contexto que o boxe entrou. Não como paixão, mas como escape. Um espaço onde pudesse descarregar, onde pudesse, à sua maneira, enfrentar o que estava a viver. Treinava mais do que o habitual. Três, quatro, cinco horas por dia. A intensidade foi moldando o corpo e a cabeça. Com o tempo, começaram a surgir sinais de algo mais, evolução, oportunidades, uma ligação real à modalidade. Hoje, reconhece esse momento como viragem. Aquilo que começou como fuga acabou por abrir caminho. O boxe deixou de ser refúgio e passou a ser destino.
Há quem veja o boxe apenas como violência. Para si, o que é realmente este desporto?
Realmente, isso faz parte da forma como as pessoas vêem o boxe, como se fosse só agressividade. Há também muita influência de atletas que tivemos no passado, no presente e que vamos continuar a ter no futuro, que acham que o boxe é uma afirmação pessoal. Eu acredito muito que o boxe é um desporto que, tal como salvou a minha vida, salvou a de muitas outras pessoas. É um desporto como qualquer outro. Mas percebo e compreendo que ainda existam muitas pessoas que são má influência, que incitam à violência e ao ódio. Por isso, quando formei o meu clube, tentei sempre fazer algo diferente, fora desse padrão, uma realidade distinta. Quisemos ajudar os miúdos a perceber que o boxe também tem valores, tem disciplina e que nos agrega muito mais do que o próprio desporto. A lealdade, o companheirismo, a disciplina, entre outras coisas. É isso que tentamos incutir nos mais novos, porque, como já disse, essa ideia de que o boxe forma marginais e pessoas de pouca índole ainda está muito presente na cabeça das pessoas. Então, tentamos provar que não é assim, e nada melhor do que dar o exemplo.
O seu corpo tornou-se uma ferramenta de combate. Quando olha para as cicatrizes que ele carrega, vê dor ou memória?
Esta frase vai parecer um pouco cliché, mas não é. Eu acredito que tudo nos fortalece. Acho que tudo aquilo que me aconteceu, as cicatrizes que tenho no corpo, as dores físicas, as lesões, tornaram-me muito mais resiliente e na pessoa que sou hoje. Cada vez mais me orgulho, porque tento ser melhor do que fui ontem. Não sou uma pessoa perfeita, nem caminho para lá, nem quero ser, mas tenho que ser melhor a cada dia e dar o exemplo a toda a gente que se espelha em mim e que acredita no meu processo e em tudo aquilo por que passei. Acredito muito que tudo aquilo por que passei, as dores, as marcas, as mágoas, me tornaram a pessoa que sou hoje. E acredito também que hoje consigo partilhar muito da minha experiência por causa desses erros e desse processo de crescimento, dessa transição para a maturidade. Acredito que tudo isso são experiências positivas que hoje consigo partilhar com amigos, com a família e com os meus filhos. Devo muito a essas mágoas, a essas cicatrizes, a minha resiliência e a minha vontade de vencer. Acho que vem muito daí, de nunca ter desistido.
Para Octávio, o maior desafio no boxe não está no corpo, está na cabeça. No controlo do ego e na consciência de que a vitória é passageira e a derrota pode chegar a qualquer momento. Depois, há a solidão. Quando o gongo toca, desaparece tudo o resto. Fica só o confronto. E, para ele, a vida não é muito diferente disso. Aprendeu a não depender de ninguém. A estar preparado, a sustentar-se a si próprio. Porque, no fim, há uma certeza que ficou: ninguém luta por nós. A ajuda pode surgir. E faz diferença quando surge. Mas antes disso, há uma certeza que ficou: ninguém luta por nós.
Existe algum combate da sua vida, dentro ou fora do ringue, que sente continuar a travar dentro de si?
Como eu disse, procuro sempre ser melhor a cada dia, corrigir os meus erros do passado e alguns erros que tenho no presente, que já detectei. A minha maior luta é essa, tentar ser melhor todos os dias, cada vez melhor, uma pessoa melhor, um pai melhor, um amigo melhor. Essa é a minha maior luta, a minha maior guerra. Todos os dias acordo para ser um cidadão melhor. Essa é a minha maior batalha, a batalha que mais importa para que os meus filhos olhem para mim com muito orgulho do pai que têm.
Há uma força que acompanha Octávio e não se vê. Vem da raiz, da ligação a Moçambique, à sua herança africana e à fé em Deus. Antes de entrar no ringue, regressa aos antepassados. Aos que lutaram antes dele, aos que abriram caminho. É aí que vai buscar energia. Uma força antiga, quase tribal, que o lembra dde onde vem e o empurra para a frente.
O que mudou em si desde que se tornou pai? E os seus filhos sabem exactamente que homem é este que entra no ringue?
Mudou muita coisa. Os meus filhos trouxeram mais sensibilidade, trouxeram uma visão diferente daquilo que eu tinha. Agora sou muito mais compreensivo, muito mais paciente. A minha forma de amar é diferente por causa dos meus filhos. Acredito que os meus filhos vieram acrescentar muito. Dão trabalho, porque são vários, mas é um trabalho que tenho um imenso gosto em acompanhar, em estar presente no crescimento deles, na educação e no desenvolvimento. Sinto muito orgulho, porque, graças a Deus, todos os meus filhos hoje são saudáveis e são bons miúdos, bons alunos. Sinto-me um homem muito sortudo. E eles sentem isso, porque muitas vezes dizem: “Pai, temos um menino na escola que é teu fã”, ou coisas assim. Hoje em dia já têm telefone, vão ao Google, pesquisam. Acho que já têm noção da dimensão daquilo que o pai fez e da importância que tem no desporto, e não só.
No fim, quando tudo parar e olhar para trás, Octávio Pudivitr quer perceber que fez sentido. Que a resiliência, o esforço e tudo o que entregou ao longo do caminho valeram a pena. Acredita que não há tempo certo nem idade certa. Há vontade. Há a decisão de continuar, mesmo quando ninguém acredita. Que fique isso. A prova de que não desistiu. E que o percurso, com tudo o que teve, foi verdadeiro.
