Em Moçambique, falar de orfanatos é falar de vidas que, muitas vezes, começam marcadas pela ausência: ausência de família, de afecto, de cuidados consistentes. Mas existe outra ausência que raramente discutimos com honestidade, a ausência da sociedade. A ausência de nós.

Durante anos, a narrativa dominante em torno dos orfanatos tem sido a das doações. Acredita-se que ajudar significa levar roupas, alimentos, brinquedos ou dinheiro. Mas a realidade das instituições no nosso país mostra que, demasiadas vezes, parte dessas contribuições não chega às mãos das crianças. Perdem-se em burocracias, desvios, má gestão ou simplesmente desaparecem.

Por isso, este artigo não é sobre doações materiais. É sobre presença. É sobre humanidade. É sobre olhar para as crianças que vivem nos orfanatos e reconhecer que elas precisam, antes de tudo, de tempo, de atenção, de alguém que lhes chame pelo nome e lhes pergunte como foi o dia.

O sorriso que não se compra
Quem já visitou um orfanato sabe: o sorriso de uma criança ao receber um abraço ou ao ver alguém disposto a brincar com ela não é um sorriso comum. É um sorriso puro, sincero, urgente. Um sorriso que diz: “Hoje, alguém se lembrou de mim.”
A verdade é que essas crianças já carregam, desde cedo, o peso de uma exclusão social silenciosa. Muitas foram abandonadas, outras perderam os pais, outras simplesmente não tiveram quem cuidasse delas. Crescem à margem de uma sociedade que, apesar de se orgulhar da sua solidariedade, ainda tem dificuldade em olhar para estas crianças como parte integral da comunidade.

E, no entanto, o que elas mais desejam não é só um saco de arroz ou uma pilha de roupas usadas. O que elas querem é o que todas as crianças querem: sentir-se queridas. Sentir que pertencem a algum lugar. Saber que existe alguém, mesmo fora das paredes do orfanato, que se importa com elas.

O poder de um dia
Passar um dia ou algumas horas num orfanato pode transformar mais do que imaginamos.
Uma conversa.
Um jogo de futebol.
Um desenho feito em conjunto.
Uma história lida antes de dormir.
Esses gestos simples podem tornar-se memórias preciosas para quem muitas vezes não tem memória nenhuma de carinho.

As crianças dos orfanatos não precisam de pessoas perfeitas. Precisam de pessoas presentes. Pessoas que cheguem com paciência, com alegria, com o coração aberto. Pessoas que compreendam que cinco minutos de atenção podem significar mais do que cinquenta quilos de donativos.

O que realmente faz diferença
A mudança profunda não acontece apenas pelo que damos, mas pelo que oferecemos de nós mesmos.

As crianças crescem mais confiantes quando sabem que são vistas, que são valorizadas, que não são apenas um número dentro de uma instituição.

A presença humana:
• Fortalece a auto-estima;
• Reduz a sensação de abandono;
• Quebra o ciclo da exclusão afectiva;
• Mostra-lhes que existem pessoas que acreditam no seu futuro.

É isto que muda vidas. É isto que não pode ser comprado.

Uma sociedade que inclui é uma sociedade que cresce

É fácil culpar as instituições, os sistemas, as políticas. Mais difícil é assumir que também nós, como comunidade, temos parte da responsabilidade. Uma sociedade inclusiva não é apenas aquela que regista números ou cria leis. É aquela que se faz presente onde há solidão.

As crianças dos orfanatos são as mais esquecidas e, ironicamente, são as que mais têm para oferecer: alegria, pureza, espontaneidade, sonhos que ainda cabem inteiros dentro do peito.

Por isso, este é um apelo simples: não as excluamos também dos nossos corações. Não as deixemos crescer pensando que o mundo não tem lugar para elas.
Se cada pessoa dedicasse apenas um dia por ano a visitar um orfanato, Moçambique seria um país infinitamente mais terno, mais humano, mais unido.

Porque, no fim, o que uma criança precisa não é daquilo que cabe numa sacola, é de alguém que lhe diga:
“Tu importas. E eu estou aqui.”