Manica é a província de Moçambique que mais é conotada com a exploração do ouro, esse metal precioso e brilhante que consegue hipnotizar quem lhe toca, frequentemente personificando a ganância humana e o individualismo. Em contrapartida, começam a surgir na mesma província projectos que pretendem fomentar o empoderamento da mulher e o desenvolvimento das comunidades. Estamos a falar de plantações de café que estão a florescer ao redor de Manica e Sussundenga, de um novo “ouro” que pretende alterar o paradigma actual da agricultura de subsistência da maior parte da população da região.


Mas comecemos por contar um pouco da origem da bebida, incontornável para muitos para iniciar bem cada dia. Reza a lenda que Khali, um pastor nas montanhas da Etópia, reparou em como as suas cabras ficavam revigoradas quando comiam as folhas e os frutos do cafeeiro. A notícia espalhou-se e, logo depois, um monge começou a utilizar uma infusão com os frutos, para combater o sono durante as suas orações. A península arábica rapidamente ficou rendida a esta bebida, tendo surgido importantes plantações no território que hoje conhecemos por Iémen. O consumo da infusão, o “chá” de café, chegou com naturalidade a todo o mundo árabe como forma de despertar o espírito, assim como de melhorar a digestão. A torra do fruto surgiu pela primeira vez na Pérsia, no século XVI, levando a uma revolução do paradigma de como a bebida era preparada e consumida. Daí até conquistar todo o mundo foi um salto, impulsionado pela expansão do Islamismo e dos Descobrimentos

Aqui em Moçambique, no topo das montanhas da cordilheira de Chimanimani, a vista alcança muito para lá da fronteira do país vizinho, o Zimbabwe, onde a população está intimamente ligada ao cultivo do café. Ali proliferam inúmeras plantações de cafeeiros, o que levou muitas famílias da zona raiana de Moçambique a procurar trabalho naquelas fazendas. Há, inclusive, quem produza o café em solo moçambicano, levando-o depois para processamento no país vizinho. Os projectos Café de Manica e Café Vumba criaram uma oportunidade que estava à vista de todos: Moçambique tem disponíveis terras para cultivo e exploração, assim como mão-de-obra. O Café de Manica é liderado pelos sócios Jenaro Lopez e Mandela Manuel, e o Café Vumba pela empreendedora Riana Ribeiro. Apesar de empresas distintas, partilham a mesma filosofia e o mesmo modelo de negócio. A Xonguila foi convidada a conhecer as acções empreendidas nesta região que pretendem dinamizar a economia agrícola em torno do café, assim como melhorar as condições de vida das famílias envolvidas.

Sediadas no sopé da famosa formação geológica com o mesmo nome, o Monte Vumba, as instalações do projecto Café Vumba beneficiam de uma paisagem magnífica que faz inveja ao mais belo empreendimento turístico. Ali cruzámo-nos com os primeiros pés de cafeeiro, dispostos em canteiros bem alinhados à mercê da rega de aspersão. As mudas estão a ser entregues duas vezes ao ano, entre Fevereiro e Abril e entre Outubro e Dezembro, e a equipa preparava-se para fazer uma entrega em mais uma comunidade nos arredores da cidade de Manica.

Em Nhaconza fomos recebidos com canções de regozijo e de boas-vindas por um grupo generoso de mulheres. Os cânticos aumentaram de intensidade assim que o tractor, carregado de caixas repletas de pequenas plantas, foi alcançado no campo de visão do grupo. Solomon, um jovem técnico especializado no cultivo do café, explicou detalhadamente às beneficiárias como plantar aquela delicada planta e os cuidados a ter com ela neste estágio inicial de vida. Era visível a emoção, alguma curiosidade e, em especial, muita atenção, enquanto Solomon manuseava cuidadosamente um pequeno cafeeiro.

Em conversa com uma das beneficiárias, ficámos a saber que as famílias têm grandes expectativas na produção de café. Someia Manuel, de 22 anos, residente na comunidade de Nhaconza, espera que as suas condições de vida melhorem significativamente, sonhando conseguir melhorar a sua casa e poder enviar os filhos para a cidade, para estudar. Por seu turno, o líder da comunidade, o Sr. Moisés, de 55 anos, confidenciou-nos esperar que este projecto (Café Vumba) permita que os jovens não tenham que abandonar a comunidade à procura de melhores oportunidades na cidade. O café apresenta-se, para estas populações, como um veículo para fixar os jovens na região.

O lema de ambos os projectos é inspirador: “Uma mulher, um hectare!”. Segundo Jenaro Lopez, pretende-se fomentar o empoderamento da mulher no campo, pois, para além de serem as mulheres quem mais se dedica às actividades da machamba, elas canalizam o rendimento que dali provém para o próprio desenvolvimento da família. Como forma de garantir que esse rendimento vá efectivamente para as beneficiárias, os contratos de compra e fornecimento são, salvo raras excepções devidamente justificadas, celebrados exclusivamente com mulheres.

A palavra corre ao sabor do vento e chega rapidamente a outras comunidades. Dia após dia o número de pedidos de mudas de café aumenta. As populações esperam com estes dois projectos ter a mesma prosperidade que se inveja do outro lado da fronteira. O interesse é visível e muito elevado, podemos dizer até que há uma verdadeira corrida ao “ouro” na região de Manica. No total, estes dois projectos têm a meta conjunta de entregar mudas de café a cerca de 4.100 famílias.
No momento estão a ser distribuídas pelas populações diferentes variedades de café. Não haverá a utilização de fertilizantes químicos porque se pretende que o café produzido pela população residente seja exclusivamente orgânico. Para o efeito, em cada localidade será criado um centro de compostagem comunitário, cuja vermi-compostagem será feita com recurso a minhocas, para a criação de fertilizantes orgânicos, sendo estes um dos importantes factores que contribuem para o aroma e a fragância do café. O aroma (aquilo que se pode cheirar) e a fragrância (aquilo que podemos sentir no nosso palato) divergem muito entre as diferentes zonas de produção, bastando haver condições climatéricas e geológicas ligeiramente diferentes para se obter um sabor bastante distinto entre grãos da mesma espécie. Por esse motivo, no futuro serão criados microlotes com edições especiais e limitadas, cada um identificado de acordo com a respectiva comunidade que lhe deu origem.  As populações também terão ao seu dispor a assistência de um técnico que acompanhará de perto os produtores, indicando-lhes os tratamentos e cuidados específicos que as plantas deverão receber em cada altura do ano.  

A cultura do café não pretende substituir a agricultura existente, mas sim, complementá-la. Cada hectare de terra receberá cerca 2.500 plantas, dispostas por linhas afastadas 4 metros entre si, de modo a permitir que a população continue a produzir as culturas que habitualmente produz, tais como o milho, o feijão, o gergelim e a mandioca, entre outras. A matéria seca resultante destas culturas servirá de fertilizante para o próprio cafeeiro ao longo dos seus 20 anos de vida. Espera-se que a maturidade de produção seja atingida entre os 4 e 5 anos, podendo-se produzir entre 5 e 6 quilogramas de cereja de café (assim são denominadas as bagas maduras da planta). Isto representa uma renda familiar de cerca de 250.000 meticais, com base nos preços actuais de mercado. Uma das vantagens do cafeeiro é que a maturação das cerejas de café ocorre na época seca, trazendo um retorno financeiro importante para as famílias fora da época comum das colheitas. As comunidades que produzirem café de excelência serão beneficiadas com incentivos consoante a qualidade de café produzido, motivando-se assim ainda mais a dedicação a esta cultura.

No caso específico do projecto Café de Manica, a sede localiza-se na localidade de Munhinga (distrito de Sussundenga), na estrada de acesso ao Parque Nacional de Chimanimani. Este último reconheceu a importância fundamental do projecto para região, pois está a desenvolver-se na zona tampão do parque e expande-se até à região de Espungabera, no Distrito de Mossurize. Para o efeito, o projecto beneficiou do apoio do FNDS (Fundo Nacional de Desenvolvimento Sustentável), com fundos do Banco Mundial para a compra de mudas e plantas nativas para a população circundante do parque de Chimanimani. Em contrapartida, parte dos lucros do café torrado pela Café de Manica reverterão para o Parque Nacional e sua parceira Biofund, para apoiar a preservação da biodiversidade no parque. Este acordo foi celebrado no passado mês de Fevereiro, em Maputo. Com o plantio de árvores nativas, como a panga-panga e outras espécies, pretende-se reflorestar a zona tampão do parque, que tem sido assolada por uma forte onda de abate ilegal de árvores. Futuramente, as novas panga-pangas e outras permitirão uma produção à sombra, que resultará numa baga de melhor qualidade, por esta se encontrar mais protegida do sol. A produção de café na região tampão de Chimanimani servirá de agente dissuasor do abate ilegal de espécies de árvores nativas.

É expectável que, em meados do próximo ano, as comunidades beneficiadas pelo projecto Café de Manica já se possam beneficiar dos primeiros rendimentos provenientes do café. Em 2024 será a vez das comunidades ao redor do Café Vumba terem o primeiro retorno do seu esforço no campo. Ao todo, os dois projectos têm previsto plantar 16 milhões de mudas nos próximos 6 anos, esperando-se atingir uma área de cultivo correspondente a perto de 5.500 hectares, de que apenas 20% estarão sob sua alçada directa.

Nós, como Xonguila, temos o objectivo de divulgar aquilo que o país tem de melhor para dar e mostrar. Ao longo de uma semana de campo e de muitos quilómetros percorridos, ficámos convencidos de que o cultivo do café tem muito para dar a Moçambique. Se continuarmos a implementar projectos desta natureza, em que a população é entendida como parte primordial do negócio (note-se que, conforme o que aqui relatámos, as comunidades serão responsáveis por 80% da produção!) estaremos a criar riqueza em larga escala, estaremos a desenvolver o nosso Moçambique.