Qual foi o momento que desencadeou o teu desejo de te tornares cantor e o que te inspirou a seguir este caminho?
Esse desejo surgiu quando, na sexta classe, um colega (Impro – Bruno Sebastião Cuna) partilhou com o nosso grupo de amigos (Bagas – Bruno Abreu Bata e Fábio Matsinhe) o álbum "99% de Amor", do grupo angolano SSP. Na altura, já imitávamos nas festas da turma músicas dos Gémeos Parruque (um duo moçambicano dos anos 90) e dos Black Company. A partir daí, quisemos ser rappers e começámos a compor as nossas próprias canções.
Descreve-nos a tua jornada na indústria da música. Quais foram os desafios mais marcantes?
Iniciei-me na Escola Primária do Segundo Grau da Maxaquene, onde hoje funciona a Universidade São Tomás, com o grupo OPR – Organização dos Putos Rappers. Mais tarde, em 1999, comecei a frequentar o estúdio do Tio Ernest, teclista do African Trio, que antes fez parte do K10. A paixão pela música fez-me reprovar na 8ª classe. Em 2004, integrei-me na Track Records, onde fui apelidado de Ace Nells pelo Kloro e pelo D-lon. Ali, integrei-me no grupo ELEX, onde realizei as minhas primeiras gravações. Em 2005, participei no Fama Show, uma etapa da minha carreira bem conhecida pelo público moçambicano. Em 2010, lancei o meu primeiro álbum, editado pela Vidisco, e actualmente preparo o segundo.
Como defines o teu estilo musical e como evoluiu ao longo da tua carreira?
Considero-me um músico versátil, predominantemente orientado para o R&B, mas que também explora o Afro Jazz e o Afro Beatz, entre outros estilos. Esta versatilidade talvez seja fruto da minha experiência no Fama Show, onde era necessário adaptar-me a qualquer música que nos fosse atribuída. A minha evolução deve-se, em grande parte, à curiosidade de estar em palco. Participei em muitos concertos ao vivo, muitas vezes sem remuneração, em locais como o Gil Vicente e outros que acolhiam eventos como o "Clave de Soul", organizado pelo Felling Kappela. Aí, tive a oportunidade de conhecer músicos brilhantes que me ajudaram a aprimorar a minha sensibilidade para com a música ao vivo.
Muitos artistas têm uma obra que consideram um marco na sua carreira. Qual é a tua e porquê?
"Histórias de 918" é, até agora, o meu único álbum lançado, e marcou-me profundamente, uma vez que surgiu cinco anos após a minha ascensão no Fama Show. Foi um momento marcante, semelhante a dar à luz um primeiro filho. Em termos de singles, destaco "Será", que contou com a participação de Anselmo Ralph, e "A Ma Fofinha", com a participação de Ziqo. Este último, em particular, foi um grande sucesso, premiado nos Mozambique Music Awards.
As tuas experiências pessoais reflectem-se nas tuas músicas ou letras?
Sim, muitas das minhas letras são inspiradas nas minhas próprias experiências e também nas das pessoas que me rodeiam. Aprendo com as experiências dos outros, sem necessidade de passar pelas mesmas situações.
Quais foram as maiores dificuldades que encontraste e como as superaste?
Enfrentei diversas dificuldades, algumas maiores do que outras. O meu conselho é manter a paciência, ponderação, determinação e tranquilidade para superar qualquer obstáculo que se apresente.
Além de cantares, estás envolvido noutros projectos artísticos ou sociais que gostarias de partilhar connosco? O que estás a fazer no momento?
Sim, para além de músico, sou advogado e estou a construir uma carreira promissora como digital influencer. Actualmente, estou a trabalhar no desenvolvimento do meu escritório de advocacia, CAN Advogados & Associados, e numa empresa de comunicação que criei juntamente com a minha esposa e filhos, a Neyson's Empire. São projectos que me são muito queridos e nos quais estou a investir toda a minha energia.
Como consegues manter a originalidade e a autenticidade no meio das tendências actuais?
Embora as tendências actuais possam ser úteis para nos manter actualizados, é crucial não perder a nossa essência no processo. Podemos adaptar-nos, mas sem perder a verdadeira identidade.
Há algum artista com quem sonhas colaborar num futuro próximo?
Sem dúvida, o Ne-Yo! Quanto aos outros, sinto que poderia concretizar uma colaboração a qualquer momento.
Como vês a evolução da música moçambicana no cenário musical internacional?
Acredito que estamos no bom caminho. Contudo, é notório que nem todos estão a fazer um bom trabalho. Além disso, existem artistas que, tal como eu, poderiam estar a contribuir muito mais para a música moçambicana. Temos bastante talento, apenas necessitamos de orientação e incentivos adequados. A indústria musical deve proporcionar uma vida confortável para todos os músicos, em vez de gastar grandes quantias apenas em músicos estrangeiros que vêm actuar em Moçambique. É essencial apoiar os músicos locais, assistindo aos seus shows e comprando os seus álbuns, para garantir a sustentabilidade e o crescimento da indústria musical nacional.
Quais são os teus planos para o futuro?
Tenho vários planos a nível pessoal, mas, em resumo, pretendo lançar o meu novo álbum, “Quarto Escuro”, consolidar a minha firma de advocacia juntamente com os meus sócios e fazer a diferença na comunicação em Moçambique, juntamente com a minha família, através da Neyson's Empire. Estes são os projectos que me ocupam actualmente e nos quais estou focado.
