Há rostos que nascem para a luz, mas nem sempre a procuram. Nádia Silva é um desses. Vinda de Cabinda, cresceu entre passagens, concursos e câmaras, aprendendo cedo que a beleza pode ser escudo e também ferida. Foi miss, actriz, apresentadora, mãe. É, sobretudo, uma mulher que se refez a cada etapa, com uma serenidade que desarma e uma força que não se exibe. Entre Lisboa e Luanda, vive no intervalo das fronteiras, entre mundos que partilha com naturalidade rara. No Miradouro da Lua, programa que conduz na RTP África, fala com o mundo, mas é dentro que mais escuta. Primeira mulher negra angolana a apresentar um late night show no canal, transformou a visibilidade em acto de resistência e de afecto. Há nela a herança das mulheres que vieram antes — da avó que curava com as mãos, da mãe que acreditava no poder do estudo, da filha que hoje lhe devolve espelho e futuro. Há também a inquietação de quem vive entre países, sotaques e silêncios, sem nunca deixar de procurar um sentido para a própria voz. Há conversas que não se fazem para responder, fazem-se para escutar o que o silêncio revela. Esta é uma delas.

Tens vivido entre câmaras e silêncios. Como é que se aprende a estar em frente às luzes sem se perder nelas?
Eu olho para dentro antes de olhar para a lente. A câmara mostra o que faço, mas só o silêncio me lembra quem eu sou. Não é sobre nunca me perder, até porque estamos todos sujeitos a isso, é sobre sempre me encontrar de novo para não perder o norte.

Quantas vezes a tua beleza falou por ti quando preferias que fosse a tua voz?
Incontáveis. A beleza muitas vezes chegou antes de mim, e eu tive de empurrá-la um pouco para ela sair da frente. Hoje sei que a minha voz é a parte mais bonita de mim. Aprendi a fazer-me ouvir com subtileza e educação. A beleza pode abrir portas — e abre, na verdade, para muita gente —, mas é a palavra que constrói caminhos. A beleza tem um prazo curto, o que fica mesmo são os nossos valores.

Dizem que a televisão é uma casa feita de reflexos. Quando se apagam as luzes do estúdio, quem é a mulher que fica sozinha diante do espelho?
Quando as luzes se apagam, fica uma mulher que respira fundo, que às vezes está cansada, outras vezes orgulhosa, mas sempre inteira. No silêncio, eu não sou imagem nem personagem. Sou carne, fé, dúvidas e uma vontade muito teimosa de continuar.

Já falaste de assédio e de pressões dentro do meio. O que é que te fez decidir transformar a dor em discurso, em vez de silêncio?
O silêncio adoecia-me. A dor, quando guardada, cria raízes onde não devia e traz problemas muitas vezes irreversíveis. Falar abertamente do assédio e da pressão no meio artístico libertou-me e pode libertar outras mulheres também. Transformo ferida em palavra e palavra em força. É assim que eu curo e caminho. Entendi também que essa transformação não muda apenas o meu trajecto, mas o de muitas outras mulheres que se inspiram na minha história, coragem e voz.

És a primeira mulher negra angolana a conduzir um late night show na RTP África. Que peso carrega essa conquista — é vitória pessoal ou responsabilidade colectiva?
É as duas coisas. É vitória minha, sim, mas é também o eco de mulheres que sonharam chegar antes e o impulso das que virão depois. Quando entro no estúdio, entro com África, com Angola, com Cabinda, com as nossas histórias e com a esperança de que não serei a última. O lugar que ocupo hoje aumenta a minha responsabilidade a cada episódio do Miradouro da Lua, exactamente por ser a primeira, a que está a abrir o caminho, a romper barreiras e crenças. Tento não falhar comigo, e sobretudo com todos aqueles que acreditam na revolução que estamos a fazer.

Em programas como o Miradouro da Lua, a conversa parece simples, mas há sempre um subtexto. O que te move quando entrevistas alguém: curiosidade, empatia ou espelho?
É um triângulo, na verdade. A curiosidade abre a porta, a empatia convida a entrar, e o espelho faz com que a conversa não seja só sobre o outro, mas sobre nós todos. Conversar, para mim, é sempre encontrar humanidade partilhada e, querendo ou não, acabo sempre por sentir uma ligação ao meu entrevistado. É mesmo um processo de partilha mútua. Gosto que o convidado se sinta realmente em casa.

A maternidade muda o corpo, o tempo e a voz. O que é que a tua filha te devolveu de ti própria? Houve algum momento em que te sentiste vulnerável como mãe e percebeste que não precisavas ser perfeita?
A maternidade é dos processos mais contraditórios na vida de uma mulher, vivemos um misto de sentimentos, sensações e transformações, renascemos, aliás digo sempre que toda mãe nasce duas vezes, as alterações com o físico são um processo inevitável quando decidimos gerar vida dentro do nosso ventre, mas os cuidados pós-parto são fundamentais para que possamos de alguma forma voltar ao nosso estado normal, o corpo mexe muito com o emocional. A minha filha devolveu-me a minha ternura. Ensinou-me que vulnerabilidade também é força. Houve um momento em que percebi que não precisava ser mãe perfeita, só mãe presente. Ela não quer uma heroína, mas sim colo, verdade e amor. Com ela aprendo todos os dias a aproveitar os pequenos momentos, pois tudo passa muito rápido.

A tua mãe e a tua avó não te deixaram fortuna, deixaram-te rumo e conhecimento. Que parte delas ainda te guia quando a vida exige mais?
A fé da minha avó e a coragem da minha mãe. Duas mulheres humildes e cheias de força. Elas ensinaram-me a caminhar com o coração erguido, mesmo quando o mundo tenta encolhê-lo. Carrego os valores delas como bússola, e é impossível perder-me quando sei de onde venho. Ensinaram-me o valor e o poder da educação, e que, onde quer que vá, nunca me esqueça de onde sou.

"Se pensares na educação que tiveste, há algum conselho dos teus pais, crença ou até receio que ainda molda quem és?"
Na verdade, tenho dois: “Não esqueças quem és e de onde vens” e “Estuda, minha filha, o conhecimento é a arma mais poderosa.” Cresci com esses mantras dentro de mim. Ser fiel a mim mesma sempre foi a minha maior força.

E houve algum momento em que percebeste que o teu caminho se desviava — e que nunca mais serias a mesma?
Sim. Foi quando percebi que o meu lugar não era dado, era conquistado. Quando parei de pedir permissão e comecei a existir com autoridade. A partir daí, nunca mais fui pequena para caber em espaços apertados. Conheço o meu valor e exijo respeito pelo mesmo.

O que é que a menina que foste ainda exigiria da mulher em que te tornaste?
Que eu continue ousada. Que eu não me acomode. Ela sonhava sem medo e dizia verdades que eu, às vezes, quis suavizar. Hoje honro a coragem dela e deixo-a guiar-me quando o mundo pede silêncio.

Quando o espelho não te reconhece, o que é que ainda escondes dos outros — e de ti?
Escondo o medo de falhar e a tentação de duvidar de mim mesma. Mas tenho aprendido que assumir as minhas sombras me dá mais luz. Não sou forte apesar das minhas fragilidades, sou forte com elas.

Vinda de Cabinda, trazes contigo uma terra quase mítica, tantas vezes esquecida. Que parte dessa origem ainda fala mais alto quando estás em Lisboa, entre sotaques e distâncias?
A raiz. O chão. Cabinda lembra-me que pertenço a uma terra que resiste e que guarda memórias como se fossem tesouros. Levo o perfume do mar, a teimosia da terra e a certeza de que não sou estrangeira em mim. Tenho saudades do nosso sotaque carregado e único, do calor humano, da comida da minha avó e do infinito verde que veste a província de uma ponta à outra. Somos um povo particularmente hospitaleiro e, acima de tudo, sobrevivente.

Entre Portugal e os países que um dia tocou, há uma dor antiga, mas também uma língua que nos une. Acreditas que um dia seremos, de verdade, um só país de vozes entrelaçadas?
Acredito na língua como ponte, mas também reconheço as feridas. Não sei se seremos um só país, mas acredito que podemos ser várias nações que se escutam, que se respeitam e que finalmente tratam a memória e a dor com dignidade.

Que lugar ocupa Angola nos teus planos de amanhã — é regresso, ponte ou memória? E, nesse mesmo olhar, entre o que se diz e o que se cala, o que é que ainda precisa de ser dito em voz alta sobre a identidade e o choque cultural que viveste?
Angola é sempre casa, mesmo quando é distância. É regresso, é ponte, é raiz. Ainda precisamos de falar mais alto sobre identidade, sobre o não-lugar que tantas vezes vivemos entre mundos. Eu existo no meio, mas esse meio também é território. Tenho tido oportunidade de ir muitas vezes a Angola e consigo, de certa forma, amenizar a saudade. Mesmo vivendo fora, continuo ligada ao país. O Miradouro da Lua tem-me proporcionado essa conexão anualmente.

E quando as câmaras e os microfones se desligarem, o que é que farás nesse silêncio?
Vou respirar. Vou escrever. Vou ser só mulher, mãe, filha, amiga. No silêncio, volto para mim. E é dali que nascem as minhas próximas luzes. Tenho inúmeros projectos em carteira, mas não gosto de meter a carroça à frente dos bois. Trabalho com calma e respeito o processo de cada etapa da minha vida, mas sei que parada não vou estar.