Em Outubro, o mundo une-se em torno da campanha de sensibilização para o cancro da mama, com o laço rosa como símbolo de luta, esperança e superação. Em Moçambique, onde o acesso à informação e ao tratamento continua a ser um desafio em muitas áreas, esta grande campanha adquire uma relevância ainda maior. É neste contexto que a Associação Casa Rosa se destaca, trazendo iniciativas como o projecto "Mulheres-Fénix", que dá voz e visibilidade a sobreviventes do cancro da mama. Assim como a lendária fénix que renasce das cinzas, estas mulheres são o reflexo de resiliência e transformação após enfrentarem a adversidade da doença. Dirigido artisticamente por Nwetana, o projecto vai além de uma simples homenagem à vida; ele evidencia a força de superar desafios tão profundos como o cancro.

No projecto fotográfico "Mulheres-Fénix", cada imagem não só capta a dor e superação, mas também revela histórias de coragem e medo que marcam este processo. Nwetana, nome artístico de Ana Lúcia Silva, trouxe à vida este ensaio com uma sensibilidade especial, utilizando a arte como ferramenta de cura. O bodypaint foi o meio através do qual ela redesenhou sobre cicatrizes, criando uma nova pele carregada de significados, onde cada traço simboliza uma conquista. Para essas mulheres, a arte não foi apenas uma expressão, mas uma forma de se reconciliarem com os seus corpos transformados pela doença. O cancro surge como um inimigo invisível que invade de forma súbita, alterando por completo as suas vidas, mas é nesse momento que o processo de renascimento começa. Esta batalha, tão íntima e pessoal, revela uma força interior que muitas vezes desconheciam. É um verdadeiro renascer das cinzas, onde cada mulher emerge mais forte e resiliente. Estas são, sem dúvida, as mulheres-fénix.

O projecto de que falamos inspira-se também no trabalho incansável de Katya Saraiva, fundadora da Associação Casa Rosa. Criada em 2017, esta Associação tem como missão apoiar mulheres diagnosticadas com cancro da mama, oferecendo-lhes suporte emocional, financeiro e informativo. O objectivo é claro: que nenhuma mulher enfrente a luta sozinha. A Casa Rosa tem sido essencial nos esforços contra a doença em Moçambique, assegurando que o acesso à informação sobre prevenção e diagnóstico precoce chegue a mais mulheres. Para além disso, a Associação organiza palestras, feiras de saúde e formações para profissionais da área, aumentando a consciência sobre a importância do auto-exame. Através de campanhas locais e folhetos traduzidos para línguas regionais, a Casa Rosa difunde a sua mensagem por todo o país, reforçando a importância da prevenção.

O ensaio fotográfico de 2023, realizado durante o Outubro Rosa, transcende a dimensão artística: é, antes de tudo, um movimento de auto-ajuda. Para muitas das mulheres que participaram, tal ensaio representou a primeira oportunidade de se confrontarem com os seus corpos marcados pela doença. A aceitação é um processo doloroso, mas necessário, e, através deste projecto, essas mulheres foram encorajadas a aceitar as suas novas formas e a redescobrir a beleza que reside nas cicatrizes. Nwetana, ao aplicar o bodypaint, transformou essas marcas em símbolos de força e superação, permitindo que cada uma visse nas suas cicatrizes uma história de resistência e coragem.

A colaboração entre Nwetana e a Casa Rosa não é nova. Em 2020, a artista já havia dirigido o ensaio “Capulana & Rosa”, que explorava a junção da cultura moçambicana com o símbolo internacional da luta contra o cancro da mama. Tanto nesse como no actual projecto, a arte foi usada como uma ferramenta de transformação e empoderamento, dando às mulheres uma plataforma para serem vistas e ouvidas.

Mulheres como Edite Dimene, Elisa Maida Benate, Felismina Nhantuve e Júlia Simões, que participaram no projecto de 2023, são verdadeiras inspirações. Cada uma delas carrega consigo uma história de superação, provando que a vida continua, mesmo após a devastação causada pelo cancro. São exemplos vivos de força e resiliência, e as suas histórias mostram-nos que é possível superar qualquer obstáculo.

Para além da vertente artística e emocional, a Casa Rosa continua a desempenhar um papel crucial na prevenção e tratamento do cancro da mama. Através de iniciativas em empresas, escolas e comunidades, bem como do apoio directo às pacientes mais vulneráveis, a Associação tem sido uma peça fundamental na luta contra a doença em Moçambique. O impacto do seu trabalho em Maputo e na Beira é notável, salvando vidas e garantindo que mais mulheres tenham acesso ao tratamento com dignidade e apoio.

A arte de Nwetana, por sua vez, vai muito além da estética. A artista, ao longo da sua carreira, tem abordado questões fundamentais para a sociedade moçambicana, desde o impacto da desflorestação até à aceitação do corpo e as transformações físicas causadas pelo cancro. Através das suas criações, ela constrói pontes entre a dor e a cura, o trauma e a aceitação, mostrando que, mesmo nos momentos mais difíceis, há sempre espaço para a beleza e a esperança.

As “Mulheres-Fénix” são a prova de que o renascimento é possível. Tal como a fénix mitológica, estas mulheres mostram-nos que há sempre uma nova vida para além das cinzas. Em Outubro, e em todos os meses do ano, as suas histórias continuam a inspirar-nos a lutar, a viver e a acreditar que, por mais desafiadora que seja a jornada, a vida vale sempre a pena ser vivida.