Neste mês em que se celebra o Dia Internacional do Trabalhador, a revista Xonguila conversou com duas mulheres de fibra, força interior, entrega e abnegação, mulheres que todos os dias se levantam cedo e vão à luta, duas senhoras que vencem preconceitos, em busca de sustento para si e para as suas famílias. Uma é motorista de chapa, enquanto a outra se dedica à compra e venda de sucata, a meio de adversidades de vária ordem. Só o facto de serem mulheres a desempenhar actividades geralmente desempenhadas por homens já constitui um grande desafio, e cruzar as estradas da capital moçambicana, Maputo, como seu ganha-pão, faça chuva, frio ou calor, é sempre uma batalha. No final de cada dia de trabalho, é com ar de alívio e a sensação de dever cumprido que olham para trás. Com ou sem sucessos, o importante foi terem participado na luta e terem “feito” o dia. Afinal a vida é assim, repleta de momentos amargos e doces.
Suzete Nguenha e Célia Matosse são as nossas duas guerreiras, que orgulham quem as conhece. Nunca perderam a fé nem a esperança, e é essa determinação e garra que faz delas mulheres especiais.
Com um olhar sereno e um largo sorriso, Suzete Nguenha senta-se atrás do volante para iniciar a sua jornada laboral. É condutora de um semi-colectivo de passageiros, vulgo “chapa-100”. Opera na rota Praça dos Combatente, famoso terminal de Xiquelene e Costa do Sol. Com 49 anos de idade, e mãe de um rapaz de 17 anos, está na profissão, a de chapeira, desde o ano 2000. Quando iniciou a actividade, operava na rota Praça dos Combatentes - Manhiça. Segundo nos conta, trabalhou por um período de dois a três anos nessa rota, mas imprevistos vieram que a obrigaram a mudanças. “Tive que me reinventar quando o chapa em que trabalhava teve problemas mecânicos, ou seja, uma avaria grave, e fui forçada a ficar em casa, sem qualquer meio de sobrevivência. Depois de dois anos sem fazer absolutamente nada, pensei em procurar novas formas de juntar dinheiro e comprar o meu próprio minibus. No ano seguinte, consegui amealhar dinheiro e comprei a minha própria viatura”, avançou.
“Quando comecei, éramos poucos, nem vendíamos a sucata como tal; comprávamos baterias, bacias, cadeiras estragadas e revendíamos, mas, nos tempos que correm, explode o número de pessoas que fazem este tipo de trabalho.” – Célia Matosse, a “Rainha da Sucata”.
Devido à distância entre a Cidade de Maputo e o Distrito da Manhiça, Suzete optou por mudar de rota. “Andava sempre cansada e sem tempo para nada. Actualmente trabalho na rota Praça dos Combatentes - Costa do Sol. Aos finais de semana não costumo trabalhar, pois levo o carro para supervisão”. E desabafa: “Fazer chapa não é fácil aqui na cidade de Maputo. Para além dos problemas de congestionamento de tráfego, causados principalmente pelo alto e crescente número de automóveis e chapas, a manutenção dos veículos é inadequada, e os condutores fazem manobras perigosas perante o olhar impávido das autoridades reguladoras”. Segundo a nossa motorista, este é um dos principais problemas de trabalhar no seio da cidade. Suzete têm um coração que bate por várias vidas quando pega o volante, e a ansiedade de chegar ao destino é enorme, mas opta sempre por uma condução prudente e defensiva.
Célia Matosse, a outra mulher batalhadora, tem 38 de idade e é mãe de 5 rapazes. O filho mais velho, de 19 anos, teve que abandonar a escola e emigrar para a África do Sul em busca de melhores condições de vida, procurando auxiliar os pais, ambos a trabalhar por conta própria, nas despesas quotidianas. Enquanto a mãe se dedica à compra e venda de sucata, o pai é pintor e bate-chapas de automóveis. Os irmãos continuam a frequentar a escola graças às poucas moedas que os pais conseguem juntar para lhes dar uma educação aceitável.
Célia Matosse tem o seu negócio desde 2008. Com o que ganha, ajuda o marido a sustentar a família. “Não ganho muito, mas o que consigo obter dá para nos virarmos”, afirma esta Rainha da Sucata, como é carinhosamente conhecida. Apesar de conhecer muito bem o risco que corre ao pegar na máquina rebarbadora, não encontra saída para escapar do seu árduo trabalho. Considera que o custo de vida tende a elevar-se cada dia que passa, mas, não obstante esse facto, já houve momentos em que facturava relativamente bem e o negócio rendia. “Manusear este produto já teve momentos de pico”, sublinha, ao prosseguir, desabafando nostálgica: “Quando comecei, éramos poucos, nem vendíamos a sucata como tal; comprávamos baterias, bacias, cadeiras estragadas e revendíamos, mas, nos tempos que correm, explode o número de pessoas que fazem este tipo de trabalho.”
Matosse revela que um dos seus maiores sonhos é conseguir uma máquina de soldar, para dar outro desenvolvimento à sua actividade, visto que hoje em dia o negócio da sucata já não é rentável: “Se eu tivesse uma máquina de soldar, a realidade seria outra. Com a máquina, eu poderia fazer fogões e vendê-los para aumentar o rendimento de casa”. Ultimamente Célia tem comprado carros muito danificados, em estado obsoleto. O equipamento que usa para cortar o ferro é obtido a título de aluguer, e, com ajuda desse equipamento, despedaça o carro e aproveita uma e outra peça. O resto vai revender no mercado Vulcano, onde está sediado um dos maiores compradores de sucata a nível da capital moçambicana.
Suzete Nguenha e Célia Matosse, duas mulheres verdadeiramente inspiradoras por não baixarem os braços na sua luta constante para vencer os desafios e adversidades da vida.
