Motus Corporis, de Lulu Sala e Ivan Barros
A dança, o espectáculo, sem palco (e sem público) é possível?
Não! Seria esta, provavelmente, a resposta de muitos artistas antes do estado de calamidade pública que o país e o mundo vivem há mais de um ano. Hoje, os artistas, e todas as forças vivas da sociedade, reinventaram-se face à crise sem precedentes provocada pela covid-19, e descobriram novas formas de viver. Agora sem palcos, sem público. Quantos irão resistir, quantos sobreviverão ao “novo normal”? Ninguém sabe a resposta ainda. É uma incógnita cuja chave pertence ao tempo. No entanto, enquanto o tempo não nos revela a resposta, decidimos conversar com um bailarino e coreógrafo contemporâneo moçambicano, Lulu Sala, que nos contou sobre o seu mais recente projecto de dança.
Acostumado a dançar e a desenhar peças e espectáculos de dança, que já apresentou nos quatro cantos do mundo, Lulu contou à Xonguila como aprendeu os passos de dança da música do momento: a “covid-19”. “Por vezes, a vida começa muito cedo, de forma inesperada, às vezes com alguns contornos, ou então define-nos para o resto da vida. Foi exactamente o que aconteceu comigo”, conta o bailarino que, na verdade, queria fazer outra coisa no palco.
Lulu Sala tinha apenas 10 anos quando cruzou o caminho das artes para nunca mais dele se desviar, teve sim que se redefinir. A sua escola, onde aprendeu o bê-á-bá da dança, foi a Casa da Cultura, na cidade de Maputo. Ainda não sabia qual era a sua vocação, mas tinha muitas opções. Poderia ser artista plástico, um escultor, um músico ou um actor. Primeiro, tentou ser músico, mas o sonho durou pouco tempo. A sua praia era mesmo o bailado. “Eu já me imaginava no palco, a cantar com uma guitarra. Sentia-me um rockstar”, revelou o artista um dos seus sonhos, frustrado, e ainda bem, porque o tempo foi capaz de o transformar num dos maiores bailarinos contemporâneos de todos os tempos em Moçambique.
“Desisti do sonho de cantar, mas nunca tive dúvidas de que a minha vida seria em cima dos palcos. Porque a minha dança vem da alma, não é algo superficial, não está lá fora, é algo que vem das entranhas”, sintetizou o artista, dono de uma carreira que para muitos dos seus pares é o limite entre sonho e utopia. Lulu Sala é um bailarino multifacetado, coreógrafo, professor, activista cultural e promotor de eventos. Com mais de 20 anos de carreira, Lulu tem trabalhado com várias companhias, Universidades, centros de pesquisas, entre outros, quer em Moçambique, quer no estrangeiro.
Lulu Sala Já realizou vários espectáculos em mais de 60 países, dos cinco continentes.
Actualmente, o artista tem estado a trabalhar em vários projectos, em parceria com a Universidade de Bayreuth, da Alemanha, de Santiago de Cuba, entre outras. Lulu define-se como um artista versátil e não tem preferência com uma técnica específica de dança. Sente-se confortável em todas elas, desde a dança clássica, a tradicional, passando pelo jazz, o breakdance, o ballet, a pop dance, até à dança contemporânea. “Tenho a sorte de ter aprendido a técnica de quase todas as danças. Nas minhas apresentações, faço questão de misturar as técnicas de dança moderna e tradicional africana e consigo criar um novo estilo. Essa versatilidade confere-me flexibilidade e permite-me fazer espectáculos para públicos diferentes”, disse, antes de apontar para a falta de identidade de artistas da nova geração.
Lulu Sala é um bailarino multifacetado, coreógrafo, professor, activista cultural e promotor de eventos. Com mais de 20 anos de carreira, já realizou vários espectáculos em mais de 60 países, dos cinco continentes
A dança como expressão identitária de um povo
Para Lulu Sala, a dança é um elemento que deveria afirmar a identidade de um povo, o seu orgulho. A falta dela, segundo o artista, faz com que a audiência local não se reveja nos espectáculos apresentados.
“Eu acho que nós perdemos o público moçambicano porque chegou uma altura em que todos os espectáculos de dança, ou a maior parte deles, eram puramente contemporâneos, o que eu chamo de contemporâneo europeu. Não conseguimos, de certo modo, preparar o público moçambicano para fazer essa transição do tradicional para o contemporâneo. Foi assim, “cut” e coloca-se outra coisa. E as pessoas vão a esses espectáculos e dificilmente percebem o que está a acontecer”, criticou.
A aculturação não é o único factor por detrás de fraca adesão do público aos espectáculos de dança no país, a “qualidade” dos espectáculos é outro factor a ter em conta, segundo o professor. “Os jovens têm pressa de se profissionalizar, sem formação, sem experiência nenhuma. Facilmente se perdem, começam a dançar e, um ano ou dois anos depois, auto-intitulam-se profissionais. E, quando é assim, o risco de vender coisas muito mal preparadas, seja a nível nacional seja a nível internacional, é maior. E depois vendem as peças confiantes de que aquilo é que é. A corrida para ganhar algum faz com que os jovens entrem no mercado sem nenhum preparo, sem qualidade para vender”, assim caracterizou a tendência actual a fim de se conseguirem resultados imediatos. “Eu acho que o que estão a fazer (a dança), alguns estão a fazer bem, outros ainda têm que andar muito. Moçambique já foi referência na área da dança a nível de África, e isso infelizmente se foi perdendo. Por mais que tenhamos habilidades, dom natural, eu acho que é preciso, é fundamental também, que se aposte na formação. Acho que todo fazedor, principalmente fazedores seniores, deviam incutir nos jovens a importância da formação na dança, no geral”, advertiu a voz da experiência.
“Há um tempo atrás, tínhamos várias organizações internacionais que financiavam vários projectos artístico-culturais. Tínhamos empresas nacionais que também davam suporte financeiro a essas iniciativas. Mesmo na área política, tínhamos dirigentes que acreditavam muito nas artes, na cultura, na dança, mas tudo isso se foi perdendo, até chegarmos ao nível em que estamos hoje, em que não temos, infelizmente, muita qualidade nos espectáculos de dança”.
O experiente bailarino defende a criação de mais festivais de dança no país, como forma de abrir espaço para que escolas e grupos de dança possam divulgar sua arte e talento, partilhar experiências e difundir conhecimentos em prol do desenvolvimento da indústria que ainda procura consolidar-se, e, para já, recuperar dos efeitos da pandemia da covid-19. O Kinani é um festival bienal. Precisamos de mais festivais para mostrar e desenvolver o nosso trabalho. Sem dúvida que os festivais são pilares para o desenvolvimento da dança contemporânea no país”, disse. O Kinani é um festival de dança que abre espaço para intercâmbio entre Moçambique e vários países do mundo.
União para salvar a dança (as artes) em tempo de crise
Sem palco, sem público, os artistas tiveram que se reinventar em tempos de crise generalizada e descobriram que afinal podem levar as suas apresentações ao público, sentado no sofá de casa, através de vídeo, já que ainda não é possível assistir a peças em salas de espectáculos, encerradas por conta da covid-19, mas que entretanto, a meio gás, tentam reabrir, depois de relaxamento das medidas restritivas. Nasceu assim o projecto “Motus Corporis”, com o realizador de vídeo Ivan Barros, que nos últimos anos se tem notabilizado na direcção de peças de dança contemporânea. A parceria artística resultou num vídeo de 19 minutos, em que a estrela principal é Lulu, que se fez acompanhar por outros bailarinos, numa peça em que “o corpo expressa o que as palavras dificilmente alcançam”. A peça foi exibida nas plataformas digitais YouTube e Facebook do Centro Cultural Franco-Moçambicano, no dia 30 de Abril, por ocasião das celebrações do Dia Mundial da Dança, que se comemora a 29 de Abril. “Esta foi a primeira vez que trabalhei com Ivan, mas tinha apreciado os trabalhos dele, que são espectaculares. Ele é um profissional incrível e o mais impressionante é que ele tem paixão pela dança. Trabalha com entusiasmo e entrega. Ele tem a coisa na alma, é algo que faz parte dele”, disse, antes de revelar o seu projecto de vida, a criação de um centro de formação de dança para crianças e jovens.
