A música acompanha-a desde a infância, desde quando teve acesso à escola de música. Foi registada como Amélia Maria Matsinhe, mas a sua doçura e encanto fizeram o mundo artístico baptizá-la simplesmente de Mel Matsinhe, um nome que carrega a arte, de forma acentuada, sob diversas formas. 
“Fiz parte do primeiro grupo que teve benefício da independência: a escola gratuita, a escola de música. Tive acesso a muita coisa a que as crianças do meu tempo não tinham. Os meus pais sempre permitiram estudar livremente o que quiséssemos, e eu escolhi a música, ou a música escolheu-me”, afirmou Mel Matsinhe. Aos quinze anos, teve uma bolsa de estudo e foi estudar música em Cuba. É formada em performance, como pianista e como pedagoga musical, pela Escola Nacional de Música de Havana. É licenciada em história pela Universidade Eduardo Mondlane, com um trabalho de conclusão de curso pioneiro sobre a música popular urbana e a identidade no período pós-colonial. Mel Matsinhe é também mestre em história e musicologia pela Universidade de Oslo, na Noruega, onde viveu cerca de dez anos. De regresso a Moçambique, para além da música passou a dedicar-se à arte de escrever em verso:  “Descobri que, como seres humanos, somos criadores, e criadores não se limitam. Estamos constantemente a buscar novas formas de nos expressar, e é assim que surge a literatura na minha vida. É como se fossem duas pessoas diferentes em mim, uma prefere escrever e a outra, fazer música, e as duas coexistem pacificamente”.

Mel lançou o seu livro de estreia Ignição de Sonhos, em 2017, pela Fundação Fernando Leite Couto. Desde então, publica em diversas antologias nacionais e internacionais. A sua obra seguinte, Palavras em Fuga, foi publicada sob chancela da Xiluva Edições. Xiluva - Partidas de uma flor é outra obra da artista, que reúne 51 poemas repletos de musicalidade.

O “Mel” para animar os sonhos dos mais novos 
Para além de pianista, cantora, poetisa, activista social e empreendedora, Mel Matsinhe é também apaixonada por crianças. Deste amor pelas artes e pelas “flores que nunca murcham”, surgiu há dez anos a Xiluva Artes, um centro de artes vocacionado para a formação artística de crianças e adolescentes. Entre a palavra e o ritmo, a artista encontra um espaço para dar voz aos talentos dos mais novos. “Eu penso que é nas crianças que podemos colocar as sementes do cidadão. Eu escolhi, como parte do meu caminho, influenciar de forma consciente as crianças através das artes”, acresceu a artista.

O Njingiritana, Festival Internacional da Criança, é um exemplo claro do esforço empreendido pela artista para levar a arte às crianças. A plataforma desenvolvida pela Xiluva Artes visa promover a educação artística através de performances, debates, oficinas infantis. A iniciativa surgiu em 2016 e, desde então, tem-se centrado na promoção da apresentação de conteúdos artísticos apropriados para crianças, contribuindo assim para o acesso destas a produtos artísticos feitos especialmente por eles. “Nós percebemos que podíamos ocupar um espaço diferente e trazer os produtos de arte e cultura para mais crianças e mais famílias. Sair da zona de conforto e ocupar nosso próprio espaço. Neste contexto, a Xiluva Artes, através dos nossos programas de ensino e por meio do festival, aproveita para fazer isso, para expor as crianças a todo o tipo de produtos de arte, de forma a terem outras experiências, a fim de desenvolverem outras sensibilidades.”

A 7ª edição do Njigiritana teve lugar recentemente em Maputo, entre os dias 12 e 16 de Outubro, no espaço cultural Galeria de Maputo e no distrito de Marracuene. O festival procurou incitar a relevância da criação e acessibilidade a conteúdos infantis apropriados no contexto moçambicano, regional, africano, sobretudo neste período pós-pandemia da covid-19. O acesso aos produtos de arte tem sido uma das preocupações que paira na mente de vários artistas, e uma reflexão constante que se fez presente nesta edição do Njigiritana.
Entre desafios e conquistas, a multifacetada artista carrega sonhos que não são somente seus, sonhos que reflectem as aspirações de muitos artistas do país. “Há um sonho colectivo, e não individual, de um sector artístico consistente, robusto, em que os artistas, por exemplo, possam viver da sua arte, possam ter os seus direitos de criadores respeitados e protegidos, e deles beneficiar. Porque a arte perdura, e não só os artistas beneficiam, mas todas as gerações. Acredito que faço parte destes que sonham com um sector artístico mais robusto, em que a arte de facto seja assumida como ela é, como embaixadora de Moçambique, um vector de paz, harmonia e bem-estar individual e colectivo”, concluiu Mel.