MÁRIO TIQUE: “Poderia ser tudo na vida, excepto artista”
Escrito por: Jaime Álvaro
É irónica, mas verdadeira, a afirmação de um dos artistas plásticos mais conceituados de Moçambique que um dia já pensou viver de outra coisa que não fosse a arte. Mário Tique queria pilotar aviões, quando já os desenhava, pequeno ainda. Eram, na verdade, os traços do seu destino, completamente diferente do que os pais sonhavam para ele. Os pais de Mário queriam que ele fosse advogado, economista ou médico. Aliás, ele podia ser tudo o que quisesse ser, excepto o que o tempo dele fez, um artista plástico e designer gráfico afortunado que, mesmo não sendo piloto, tem o dom de levar as pessoas às viagens que as suas emoções, memórias, experiências e imaginação inventam e suas mãos mágicas pintam sob as telas.
“Meus pais começaram a aceitar-me como artista quando comecei a ganhar prémios”, afirma Mário, orgulhoso de todos os prémios e menções honrosas em reconhecimento do seu trabalho. “Foi necessário tempo para aperfeiçoar a técnica, apesar de ter já nascido com um dom natural. Aliás, o bichinho artístico é coisa da família”, gabou-se o artista, cujos irmãos também estão ligados às artes, antes de nos levar a bordo na sua última “viagem”, Debaixo do Sol, nome que deu à sua recente exposição individual, cuja curadora foi Yolanda Couto.
Mário Tique participou em exposições de pintura em Moçambique e no estrangeiro, com destaque para mostras no Porto e em Lisboa (Portugal), em Marseille, Lyon e Paris (França), onde estudou design gráfico
Debaixo do Sol expõe e também denuncia as desigualdades sociais, as guerras, a fome, as crises da humanidade (de ontem e hoje) em diferentes perspectivas e linhas geométricas, que o artista utilizou também para mostrar o espírito de trabalho, a resiliência, a união que o povo moçambicano tem, apesar das diferenças sociais que cada vez mais se reproduzem como a intensidade da luz do sol, por baixo de todos, ricos e miseráveis.
A mostra, exibida na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na cidade de Maputo, em Maio, levou cerca de um ano a ser preparada e significou a reabertura de espaços culturais, nomeadamente galerias, museus, teatros, cinemas, entre outros, que se viram obrigados a encerrar as portas devido à vigência do estado de emergência decretado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, por força da pandemia da covid-19.
Por coincidência, Nyusi foi um dos primeiros visitantes da exposição e comprador de uma das obras. “Fiquei satisfeito com o interesse do Presidente da República pela minha obra. A gente muitas vezes pensa que os políticos não se interessam pelas artes, e que por isso é que a arte é deixada de parte, muitas vezes, nos programas do governo. Podemos ver que eles assistem mais as outras áreas e a arte é sempre deixada para o fim. Mas o Presidente a comprar uma obra da minha exposição já demostra que, afinal, nós podemos estar enganados, afinal eles também estão atentos a esse tipo de eventos”.
É preciso descentralizar as artes
Para Mário Tique, as artes plásticas estão elitizadas no país. Pessoas da periferia não lhes têm acesso, e “a falta de público formado sobre a importância das artes acaba prejudicando o artista”, defendeu. “Urge decentralizar as exposições das zonas urbanas e levá-las aos bairros periféricos, e ensinar às pessoas o significado das artes. Porque serão elas que irão apreciar as nossas obras e depois comprá-las. Algumas pessoas continuam dizendo que as obras de arte são caras, mas, na verdade, elas não as compreendem”, frisou.
A responsabilidade não é apenas dos curadores das galerias, “o Governo deve fazer a sua parte. Como artista, às vezes, abro a porta da minha galeria e convido amigos e crianças para apreciarem as minhas criações. Além disso, tenho usado as redes sociais para promover o meu trabalho”.
E Mário disse mais: “O preço dos materiais para pintar é caro e, às vezes, é preciso importar. Isso faz com que alguns artistas usem tintas de baixa qualidade. Alguns optam por usar tinta de parede para pintar telas. Isso reflecte-se na qualidade e valor da obra, que é adquirida a um preço insustentável para o artista se profissionalizar e viver do seu trabalho”, conclui.
Durante a sua carreira, Mário participou em exposições de pintura, quer a nível doméstico quer no estrangeiro, com destaque para mostras no Porto e em Lisboa (Portugal), em Marseille, Lyon e Paris (França), onde estudou design gráfico e desenvolveu a sua aprendizagem em matéria de artes plásticas.
