Coreógrafa, bailarina, professora de dança, investigadora de dança contemporânea, empreendedora na área das artes e cultura, e realizadora de sonhos, Maria Helena Pinto tem 50 anos de idade, 40 dos quais dedicados às artes. Nasceu e cresceu na cidade de Maputo, e voa pelo mundo desde os 17 anos de idade. É viúva, mãe de um rapaz de 19.
Maria Helena Pinto deu os primeiros passos na dança com apenas 8 anos, e assim recorda esses tempos já distantes: “Criaram-se nessa altura as primeiras escolas artísticas em Moçambique e havia uma Escola Nacional de Dança, que existe até aos dias de hoje. Eu acabava de assistir a um espectáculo intitulado “As mãos”, onde vi Maria José Sacur a dançar, e, a partir desse momento, apaixonei-me pela dança”. Depois, como diz Maria Helena, foi “recrutada pelo Estado”, revelando não ter sofrido nenhuma influência da família, embora tivesse uma tia que cantava e integrava um renomado agrupamento musical da época.
É toda uma vida dedicada a coreografia, dança e investigação. Questionada sobre qual teria sido o ponto mais alto da sua careira ao longo das quatro décadas de dança já percorridas, Maria Helena Pinto disse-nos que seria difícil responder, por terem sido vários os momentos que a marcaram, mas um acabou por ser eleito: “Foi em 1995, quando voltei de Cuba, na companhia do Augusto Cuvilas, e criei a peça “Amadsofer”, que foi vista por mais de 24 mil espectadores. A peça foi exibida no quadro do 15º aniversário da Companhia Nacional de Canto e Dança e, graças a ela, houve uma grande avalanche de interesse pela dança e pela profissão”, explicou.
Na mesma senda, Maria Helena acrescentou: “Nessa altura houve uma grande exposição da minha vida como artista nos órgãos de comunicação social e fiz capa dos principais jornais em circulação. Falo do jornal Domingo e do Notícias. Era este o início. As pessoas puderam descobrir o meu trabalho e, a partir desse momento, não mais parei. Eu tinha começado a trabalhar com apenas 13 anos, e já dançava em discotecas, criava as minhas próprias coreografias e dava aulas muito antes de 1995. Saí do país com 17 anos de idade. Três ou quatro anos depois do meu regresso, comecei a trabalhar com a Companhia Nacional de Canto e Dança”.
Uma vida cheia de realizações tem sempre empecilhos pelo caminho, e com Maria Helena Pinto não foi diferente: “Ao longo do meu percurso, encontrei vários desafios de afirmação, lutei pela mudança de consciência em relação à questão do artista coreográfico e do bailarino. Lutei igualmente pela existência da profissão, pela valorização da classe e da figura do bailarino”, apontou.
Para esta investigadora de dança contemporânea, é muito difícil mudar a mentalidade das pessoas e a percepção que elas têm da classe artística. É um trabalho titânico e leva muitos anos: “Neste exercício, evidentemente, não posso assegurar que nada consegui, porque, hoje em dia, o entendimento e o respeito que uma parte da sociedade tem pelos fazedores de dança já mudou. Mas, claro! É preciso dar valor pagando aos artistas coreográficos pelos serviços que fornecem. Muitas vezes reclamamos que isto é caro, a arte em si é cara”, desabafou.
No mesmo diapasão, Maria Helena Pinto defendeu que “é preciso parar de pensar que, porque é arte, não tem valor. É preciso desmistificar esta coisa de dizer que o artista é um marginal. Não somos marginais, temos conhecimento, projectos, participamos no desenvolvimento de uma sociedade, nós fazemos a diferença no nosso país, assim como por onde passamos. Com as nossas obras, participamos na mudança de mentalidades, para a evolução da própria humanidade. Isto não é gratuito, tem o seu valor, tem a razão da sua existência, portanto, é necessário investir nessa área, e investir também significa que temos de pagar pelos serviços que os artistas nos proporcionam”.
Maria Helena Pinto é doutorada em Estética, Ciência e Tecnologia das Artes, opção Teatro/Dança, pela Universidade de Paris – VIII, França, depois de se ter licenciado em Artes Cénicas na Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo. Frequentou cursos e workshops de dança em vários países, como França, Portugal, Brasil, África do Sul, Senegal, Tanzânia, entre outros. É co-fundadora do Instituto Superior de Artes e Cultura (ISARC) e fundadora do projecto Primeiro Festival Internacional de Dança Contemporânea (FIDC). Foi uma das coreógrafas principais da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD), onde esteve de 1995 a 2009, tendo-se tornado directora artística em 2004. É também fundadora e Presidente da Associação Centro de Pesquisa Coreográfica em Maputo. “Ao longo dos 40 anos dedicados as artes, fui deixando sementes que podem ser fontes de inspiração para os jovens nos trabalhos futuros. Foi uma forma de deixar patentes as marcas do meu trabalho, o meu legado e a minha obra.”
Para além desta vasta bagagem e historial que possui, Maria Helena Pinto fundou, em 2010, o Dans’Artes, projecto a que, nos últimos tempos, tem dedicado a sua maior atenção. “Dans’Artes foi pensado como um lugar que pudesse contribuir para descentralizar espaços de manifestação das artes. Basicamente, estes espaços estão concentrados na cidade capital, todavia, fui ao distrito criar esta atracção”. Dans’Artes localiza-se no distrito de Boane, em Djonasse, na Vila Artística Dans’Artes, e, segundo patrona, assenta em quatro pilares: Desenvolvimento artístico-cultural; Desenvolvimento do turismo cultural; Desenvolvimento da comunidade; Desenvolvimento social e económico.
Maria Helena Pinto é autora de mais de uma dezena de coreografias e já participou em vários festivais nacionais e internacionais de teatro e dança. Foram-lhe atribuídos vários prémios e distinções ao longo da sua carreira, dois dos quais recebidos em nome do Dans’Artes, um ainda este ano, o Prémio das Indústrias Culturais e Criativas, na categoria de Dança, atribuído pelo Ministério da Cultura e Turismo.
No campo académico, Maria Helena Pinto é impulsionadora e criadora do primeiro curso de Licenciatura em Artes Cénicas, da Universidade Pedagógica de Maputo, e foi presidente na criação do primeiro mestrado, no país, em Artes Cénicas e Estudos Culturais em perspectiva de arranque a breve trecho pela mesma universidade. Nas letras, Maria Helena Pinto já publicou um livro, “Devir(es) Contemporâneos”, sobre o surgimento e a evolução da dança contemporânea em Moçambique. Está presentemente a escrever a sua segunda obra, intitulada “Minha Vida”, onde narra o seu percurso artístico e a sua vida em geral.
Assinalando os seus 50 anos de idade, a artista realizou, no passado mês de Junho, uma exposição intitulada “Maria Helena Pinto: Corpo e mente com histórias universais” e festa-leilão com objectivo de angariar fundos para dar continuidade à construção do Teatro do Dans’Artes.
