Cantora de alma livre e voz inconfundível, Maria João é uma das artistas portuguesas mais ousadas e criativas da sua geração. A sua ligação a Moçambique atravessa o tempo e o sangue, e fez-se sentir de forma intensa na recente apresentação do seu novo trabalho no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo. Nesta conversa com a Xonguila, a artista fala-nos dessa ponte afectiva e criativa entre Portugal e Moçambique, das raízes maternas que a moldaram e da forma como a cultura moçambicana se entranhou na sua música e no seu ser.
Qual é a origem da sua ligação a Moçambique?
A minha ligação a Moçambique é realmente extraordinária. É, de facto, muito forte — é através da minha mãe, que nasceu em Moçambique, é moçambicana. Nasceu no Chinde e foi criada durante os seus primeiros anos de vida lá. Tem uma história de vida inacreditável nesses primeiros 10 ou 12 anos. Foi criada num barco que o meu avô, médico veterinário, tinha. Esse barco navegava o rio para trás e para a frente, com mercadoria e animais. Ela cresceu ali, naquele universo. Contava que tinha um animal de estimação, uma cabrinha... e a história continua por aí.
Como foi essa influência materna? Sente-se, de alguma forma, moçambicana?
Sinto-me metade portuguesa, metade moçambicana. Honestamente, de todo o coração, é assim que me sinto. É uma ligação brutal. Eu nasci em Portugal e cresci lá, mas Moçambique é, de alguma forma, o meu país também. E nem sei explicar bem porquê ou como. A verdade é que comecei a ir a Moçambique muitas vezes a partir dos 11 anos. A minha mãe só não me levou antes por receio que eu apanhasse malária, por ser ainda muito pequena. Mas, desde então, fomos muitas vezes a Maputo, à Beira, e até à África do Sul. Foi uma influência importantíssima para mim — um sentir moçambicano que não sei explicar bem. Vivi mais tempo em Portugal, mas acho que é o sangue que corre nas minhas veias, é a cor que habita a minha pele, são as minhas memórias. A minha mãe foi fundamental para manter essa sensação de pertença a Moçambique
De que modo a cultura moçambicana influenciou a sua carreira e a sua música?
A cultura moçambicana influenciou-me profundamente, de forma consciente, e eu sei exactamente quando. Foi em 2000, por ocasião das comemorações dos Descobrimentos. Fui convidada para criar dois trabalhos sobre as culturas do Índico. Supostamente, era para abordar a Índia, mas pedi para incluir Moçambique. E assim foi. Foi uma experiência avassaladora. Eu e o Mário Laginha fomos dar um concerto a uma ilha e ofereceram-me dois livros — Terra Sonâmbula, do Mia Couto, que é o meu livro de cabeceira, e Hamina e Outros Contos, do José Craveirinha, da editora Ndjira. Esses livros despertaram algo em mim. Senti que me pertenciam. Desde então, andam sempre comigo. Quando quero escrever letras, poemas, é neles que me inspiro. A poesia do Craveirinha, a prosa do Mia — habitam-me. Foi a partir daí que nasceu o disco Cor, que também versava sobre a Índia. Tocávamos com o músico indiano Trilok Gurtu, e esse disco foi importantíssimo para mim. Não por ser melhor do que os outros, mas porque foi aí que me encontrei como artista e como pessoa. Foi quando abracei verdadeiramente o meu orgulho de ser também moçambicana, de ser esta mistura que sou. O disco Cor marcou esse momento.
“O disco Cor marcou o momento em que eu abracei verdadeiramente o meu orgulho de ser também moçambicana, de ser esta mistura que sou.”
Apresentou o seu trabalho mais recente há dias no Centro Cultural Franco-Moçambicano. O que sente que o público moçambicano lhe devolve?
Foi uma festa enorme apresentar este disco, que celebra todos estes anos de carreira, em Moçambique, em Maputo, com os moçambicanos, com os meus amigos de coração e com músicos que tanto amo e que me influenciam profundamente. As cantoras moçambicanas são maravilhosas, o Texito Langa, que agora tem vindo muito a Portugal, o Stewart Sukuma, o Cheny, o Walter... e o António Prista, que é como um irmão. Estou muito agradecida a todos, mas especialmente ao Prista, que é um verdadeiro dinamizador da cultura em Maputo — mexe mundos e fundos para que tudo aconteça. Foi mesmo incrível, conseguimos fazer este concerto, este disco. As pessoas recebem-me sempre muito bem, acho que compreendem esta mistura que sou. Enchem os concertos, batem palmas, vêm abraçar-me. Foi uma felicidade total. No dia seguinte, logo às 8 da manhã, estava num avião para Lisboa, a 10 mil metros de altitude, e no dia seguinte tinha um concerto numa mina de sal em Loulé, a 230 metros de profundidade! Esta vida de artista é uma loucura — tão alto e logo a seguir tão fundo. Mas não escolheria outra vida para mim.
Percebeu-se bem a cumplicidade com os muitos músicos com quem actuou. Pensa estar mais presente em Moçambique ou fazer um álbum todo produzido cá?
Isso seria incrível — fazer um disco inteiramente gravado em Moçambique! Algumas coisas já foram gravadas cá, mas misturadas depois em Portugal. Para isso, só preciso trazer o meu parceiro musical, o João Farinha, que é o meu director musical e sem quem eu não consigo fazer nada. Ele ajuda-me a juntar a parte electrónica à música, algo que me interessa cada vez mais. Gravar todo um disco aí seria maravilhoso. Tenho muita vontade. Neste momento, estou focada em tentar levar alguns músicos moçambicanos a Portugal. Já conseguimos trazer o Texito, e seria fantástico conseguir trazer as meninas também. Mas tudo é muito dispendioso — voos, estadias... Estamos a tentar apoios em Moçambique e também a ver se alguma empresa moçambicana com presença em Portugal pode ajudar. Meti na cabeça que tinha de fazer isto — gravar em Moçambique, com estas pessoas. Já conseguimos fazer uma parte. Mas se conseguir fazer um disco inteiro lá... sim, por favor, por favor, seria o que eu mais adorava.
E é isto. Eu sou a Maria João, cantora.
