Marcelino Manhula
De morador de rua a artista laureado internacionalmente
Marcelino Manhula, de 34 anos, é um “herói improvável”, protagonista de uma história de persistência, fé e muita resiliência. Artista que explora o mosaico contemporâneo e faz as pedras falarem, ganhou, em 2013, o maior prémio nacional de mosaico da África do Sul, país a que se aventurou, de mãos vazias e o coração apinhado de esperança, em busca do seu sonho.
Mas, antes de se tornar o mosaicista reconhecido internacionalmente que é hoje, Manhula, nascido em Maputo e residente na África do Sul, viveu quase dois anos nas ruas de Joanesburgo e da Cidade do Cabo, passando frio e fome, até ser acolhido numa igreja local.
Para entender a história de superação deste verdadeiro Mestre, é preciso recuar a fita até 2005, ano em que, com a especialidade de mosaico, decide emigrar para o país vizinho em busca de melhores condições de vida, depois de terminar o ensino técnico em Artes Visuais, na Escola de Artes Visuais de Maputo.
Começou a interessar-se pela arte durante a infância, quando cursava o ensino fundamental. Não foi uma formação fácil, mas a vontade de vencer na vida fez com que encarasse e ultrapassasse toda e qualquer dificuldade que lhe aparecia pela frente. “Cresci com a minha mãe, não conheci o meu pai. Vendia sucata, roupa usada, e trabalhava em turnos como estivador, nos Caminhos de Ferro de Moçambique, para poder ajudar a minha mãe a pôr comida na mesa. De manhã tinha de ir à escola, à tarde tinha de ir trabalhar”, continua. “Vezes sem conta dormia a meio da aula. Os professores perguntavam sempre porquê, e eu explicava que durante a noite carregava sacos nos porões dos Caminhos de Ferro de Moçambique para pagar as propinas e adquirir material didáctico.”
Manhula está ligado às artes desde criança e orgulha-se de como elas o ajudaram a superar as diferenças sociais. “Cresci no subúrbio, entre os bairros Maxaquene, Mafalala e Polana Caniço, com condições precárias. Na minha comunidade, eram poucos os que podiam comprar um carro, diferentemente das pessoas que viviam em bairros circunvizinhos. Para suprir essa falta, fazíamos, eu e outros meninos do bairro, carrinhos de barro e de ferro reciclado. Quando conduzíamos os nossos brinquedos, feitos com amor, era como se a gente fizesse também parte daquela classe de elite”, lembra, com orgulho, a infância, tanto sofrida quanto feliz.
A aventura do artista e a primeira oportunidade de emprego
Em 2005, logo depois de terminar o ensino técnico em Artes, Marcelino Manhula emigrou para a África do Sul para se especializar em Mosaico, uma técnica milenar, a arte decorativa utilizada desde a Antiguidade, desde pelo menos 3500 a.C. até aos dias actuais. É feita com pequenas peças de diversos materiais, tais como pedra, cerâmica, vidro e outros, embutidos em muros e paredes de edifícios (igrejas, por exemplo) ou colocados sobre qualquer superfície, formando figuras.
“Cheguei à África do Sul com os meus 19 anos de idade. Não sabia a língua, não conhecia ninguém. Dormia nas ruas e nelas procurava qualquer coisa, comia no lixo. Muitas vezes ia ao cinema à noite, ver filmes, e dormia escondido debaixo das cadeiras até ao dia seguinte. Era despertado pelo pessoal de limpeza ou pelos seguranças. Durante muito tempo fui vivendo assim”, conta o mosaicista. “A minha primeira oportunidade de trabalho foi numa empresa local privada de gestão de resíduos sólidos. Eu varria estradas para viver e recebia por hora. Um belo dia, vi um anúncio de vagas para estudar mosaico na Spier Arts Academy, em Cape Town, e viajei até lá. Era a oportunidade de que estava à procura.”
Manhula partiu de Joanesburgo para Cape Town nas mesmas condições em que saiu da terra natal. “Eu tinha de sair de Joanesburgo, me aventurar de novo para uma cidade desconhecida. Apanhei um comboio até Cape Town, com apenas com uma pasta, um casaco e umas calças. No bolso, só tinha 350 randes em moedas. Sobrevivi alguns dias. Não foi fácil, Cape Town é uma cidade muito fria”, relata, contando a experiência sofrida na terra de Madiba.
Sem documentos, Manhula voltou a ter de sobreviver nas ruas, durante um ano e meio. Começou a bater a portas de igrejas locais que tinham serviço de caridade, para conseguir roupa e alimento. “Fui acolhido numa das igrejas e consegui arranjar um emprego, o mesmo que fazia em Joanesburgo. Como não tinha documentos, precisava de obter um documento de refugiado para permanecer naquele país e ter a possibilidade de estudar aquilo que mais amo na vida, as artes, na Spier Arts Academy.”
Efectivamente, em 2012 Manhula licenciou-se na Spier Arts Academy como um dos melhores estudantes do curso, de três anos, de Mosaico Arquitectónico, e ganhou uma bolsa de estudos para fazer o mestrado em Mosaico Contemporâneo na Irene Di Spilimbergo, em Itália, entre 2012 e 2016, onde também se destacou pela excelência do seu desempenho, abrindo desta forma as portas do mundo.
“O Mosaico Contemporâneo é uma técnica pouco explorada no país e no mundo. Somos poucos os que o fazemos. Praticamente, temos mais mosaicistas em Itália e na América do Sul, mais precisamente no México, e na África do Sul.”
Marcelino Manhula é um dos poucos artistas africanos que pinta com pedras. Desde 2015 que faz parte da lista dos 40 melhores mosaicistas do mundo.
Antes de se tornar o mosaicista reconhecido internacionalmente que é hoje, Manhula viveu quase dois anos na rua, passando frio e fome, até ser acolhido numa igreja local
Das galerias do mundo para a comunidade
Marcelino Manhula já realizou diversas exposições individuais, em muitas prestigiadas galerias de países africanos, das Américas, da Ásia e da Europa. Formado também em arte terapêutica, realiza exposições e oficinas internacionais de arte.
“Comecei a vender o meu trabalho em todo o mundo e continuo a fazê-lo até hoje. É possível viver de arte, eu vivo de arte. Todos temos um talento, só temos de descobrir qual, porque é disso que vamos viver”, disse, ressaltando que devemos amar o nosso trabalho.
Recentemente, numa parceria com o Museu Mafalala e a Associação IVERCA, o artista presidiu um workshop de mosaico contemporâneo denominado “Give back to the community” (Devolver à comunidade, em tradução literal), que abrangeu cerca de vinte jovens do bairro da Mafalala, e não só, de vários segmentos da sociedade, principalmente artistas plásticos e estudantes de artes.
“Manhula é um jovem que cresceu nos subúrbios de Maputo, entre a Maxaquene, a Mafalala e a Polana Caniço, e de uma ou de outra maneira sentiu e sente a necessidade de dar de volta a esse espaço que o produziu, que o fez homem. E para nós, como Museu Mafalala, isto também foi uma oportunidade ímpar, na medida em que o nosso foco é precisamente a integração social, é a valorização do património cultural, a democratização da arte e criar efectivamente acessos mais abrangentes para comunidades como a da Mafalala. E isso foi o ouro sobre o azul”, frisou Ivan Laranjeira, Director do Museu Mafalala.
“O meu objectivo é devolver a arte a onde ela nasceu, ao local a que ela pertence, na comunidade”, sintetizou o mestre Manhula, que, em 2021, vai participar numa feira de arte em França e também em Itália.
Escrito por Jaime Álvaro
