Ouvir Lenna Bahule é entrar num território onde a voz se torna raiz e voo ao mesmo tempo. Entre Maputo e o mundo, leva consigo cantos que são memória e invenção, corpo e silêncio, tradição e futuro. A sua música é portal, e cada canção uma passagem. Nascida em Moçambique, mas com um percurso que a levou a São Paulo, Lisboa e outras cidades, Lenna carrega na sua arte a experiência de ser nómada. Atravessa fronteiras geográficas e sonoras, criando linguagens vocais que escapam às palavras conhecidas, mas comunicam de forma visceral. Mais do que cantar, Lenna convoca o público para um encontro: com a ancestralidade, com a comunidade, com o corpo e com a própria emoção. 

Quando canta em changana, português, inglês ou até em códigos sonoros, sente que está a dar voz a diferentes “eus” ou é sempre a mesma Lenna?
Eu acho que o artista nunca tem um único self. Gosto muito de ver, por exemplo, a persona da Beyoncé. Chegou um momento em que ela percebeu isso e criou os alter egos que tem. Quando estou no palco, também sou tomada por outra dinâmica, diferente do meu dia-a-dia. À medida que fui me apropriando do meu trabalho, percebi isso com mais clareza. Quando tomamos o poder daquilo que queremos materializar no mundo, precisamos encarar o nosso ego de forma verdadeira. A energia da conquista é o ego. Então, tive de aceder a diferentes versões de mim para ocupar o palco e dizer o que quero — seja crítica, sensorialidade, o que for. Sendo africana, moçambicana diaspórica, interagindo muito com o público brasileiro, perguntam-me sempre sobre as minhas origens. E não tem como não passar pela língua. Tive de estudar identidade e língua a sério. Quem sou eu além da cor da minha pele? Além da nacionalidade? E quem sou eu dentro desse universo multilinguístico e musical que Moçambique tem? A língua expressa pensamentos, sensações, emoções. E esse ser humano vive várias fases, vários egos, várias identidades. Com certeza, várias Lenas. Nunca a mesma, mas todas da mesma fonte.

O seu corpo é, muitas vezes, instrumento — percussão, respiração, silêncio. Onde termina a voz e começa o corpo no seu processo criativo?
Cara, essa pergunta vou até levar para o meu processo criativo actual. Neste momento, estou a subir uma montanha em direcção ao meu estúdio, e a voz ofegante já denuncia esse corpo vivo que quer expressar-se, que se coloca à disposição para que o som saia. Escolhi essa caminhada para manter o corpo vivo e disponível. Trabalho muito com essa ideia da disponibilidade — sensorial, física, criativa. Para mim, criatividade não se separa da existência. Criar é intrínseco ao ser humano. Tudo à nossa volta — o sapato, a roupa, o telemóvel — nasceu de uma necessidade. Quanto mais o corpo está sensível a essas necessidades, mais íntima é a troca. Não há fronteiras rígidas, só transições, fluxos, movimento. Gosto de pensar a minha relação com o corpo, a voz, o silêncio, o movimento e a respiração como uma continuidade. Apenas muda o estado da matéria. O som é matéria. A respiração também. O silêncio não é estaticidade — é movimento suspenso, um preparo, um começo. Tudo faz parte do mesmo campo de sensação, que apenas muda de estado.

Já houve algum momento em palco em que a voz falhou e, em vez de ruína, isso se transformou em beleza inesperada?
Esse é o meu processo. Foi libertador. Porque, se tem uma coisa que foi trauma para mim como cantora — e que é bem típica em Moçambique —, é essa cultura de troça. As pessoas fazem piada com vozes que falham. Isso é uma falta de profundidade, muito tosca. Quando finalmente me libertei da necessidade de soar sempre perfeita, comecei a entender que uma voz que “quebra” é um processo físico, fisiológico, emocional. A voz está dentro do corpo, e esse corpo é um ser vivo: dorme, sente, adoece. Não é como um instrumento que se afina e está pronto — mesmo esses têm as suas delicadezas. A voz que tenho hoje não é a mesma que vou ter amanhã. Pode ter o catarro, a noite mal dormida, a briga mal resolvida… tudo isso se expressa na voz. A “quebra” não é um problema — é prova de que esse corpo está vivo e não é uma máquina. Quando me libertei disso, aí sim me apropriei da minha voz. Aí sim comecei a cantar de verdade — quando deixei de atender às expectativas dos outros sobre como devo soar.

Lenna Bahule fala do nomadismo como quem fala de um espelho. Só ao sair de Moçambique percebeu até que ponto o corpo carrega o território — não apenas a casa da mãe, mas um ecossistema inteiro: sociopolítico, cultural, geopolítico.

“Quando estamos em casa, estamos simplesmente em casa. Mas ao sair, tudo muda — a língua, o clima, a comida, o ar. E ganhamos distância. E a distância dá-nos profundidade.”

Esse confronto com outras realidades não a afastou das origens — pelo contrário, aproximou-a de si mesma. Fez nascer perguntas: quem sou eu, o que quero manter, o que posso largar?

“Comecei a desidentificar-me de padrões que já não me serviam. E, nesse processo, tornei-me mais africana do que nunca — não no conceito, mas na prática.”

Com o tempo, deixou de ver Moçambique como um ponto isolado e passou a entendê-lo dentro de uma cosmogonia africana — e até universal. A sua música espelha isso. “Eu sou o que canto, e canto o que sou.” E o reconhecimento dos seus pares africanos tem-lhe dado sentido. “Não tem preço ouvir moçambicanos e africanos dizerem que se sentem representados na minha arte.” Mas esse lugar de retorno também é político. E não isento de crítica.

“Hoje, África virou trend. Todo mundo quer ser africano, mas ninguém quer viver as dores de ser africano. Ninguém quer estudar as filosofias, meter a mão na massa, entender as histórias e as lutas por trás do que o mundo agora admira”

O que significa para si cantar para plateias que não falam a sua língua, mas se emocionam mesmo assim?
É rico, né? Porque isso só comprova que a música vai além de fronteiras, a música é universal. Sempre digo aos meus colegas, quando estamos a trabalhar em arranjos novos e a abrir possibilidades criativas, eu digo: “a música é soberana”. A música é soberana, é uma entidade por si só, e vai dizer o que precisa. É só uma questão de ouvir. E, quando chega, faz sentido. A gente sabe: é aqui, é isto que precisa soar. Colaborando com artistas do mundo inteiro, isso torna-se cada vez mais real e verdadeiro. É de uma gratidão enorme poder ser reconhecida e validada, posso até dizer mundialmente, porque agora as minhas músicas estão a ser tocadas nos quatro cantos do mundo. Isso é muito legal, muito gratificante. Além-fronteiras. E considerando que a língua não é apenas a língua local de Moçambique, mas também uma língua nómada, que eu, a partir da busca da minha identidade, fui explorando como possibilidade para dar vazão às minhas ideias. Exactamente para poder comunicar de forma mais universal com as pessoas. Às vezes parece haver esse lugar de não tentar regionalizar-se tanto, de procurar o equilíbrio entre ser regional e ser global, planetária.

A sua música fala de liberdade, corpo, ancestralidade. Em Moçambique, sente que o artista ainda pode ser guardião de memória e, ao mesmo tempo, provocador social?
Nossa, estou a adorar essas perguntas, exactamente por causa dessa relação. Inclusive, tenho um projecto chamado Memórias D’Aqui. Quando nos percebemos responsáveis por um poder de acesso — não só de receber, mas de transmitir — entendemos o papel social do artista. Sempre digo: nos primórdios, o artista era quem recebia as dores do mundo e as transformava em arte. Isso continua actual. A dor muda de forma, mas o artista ainda tem esse dom de a transformar em beleza para aliviar a dor colectiva. Uma das formas de fazer isso é voltar ao centro: à memória, à ancestralidade. E, inevitavelmente, isso torna-nos provocadores sociais. Afinal, o que se passa aqui? Porquê esta dor? O artista percebe quando falta amor e transforma essa sensibilidade em arma de mudança. Em Moçambique, isso é sério. Muitos artistas que cumpriram esse papel morreram pobres — porque o sistema não quer transformação. É uma máquina muito maior contra a qual o artista luta. E se o povo não se engajar, o artista morre — porque já usou tudo o que tinha. Vide Azagaia. Lutou um bom combate, disse tudo o que precisava. Ficámos anos sem ouvir. Agora está a virar mártir, a ser reconhecido depois de partir. Que pena que não pôde viver as graças da sua luta. A verdade é que Moçambique está num estado crítico. Houve um episódio recente que deu um mínimo de esperança, mas o tamanho da bucha  é muito maior. Para que haja justiça social, muita gente teria de abdicar dos seus privilégios. E nem todos estão dispostos a isso.

No Brasil, Lenna Bahule sentiu na pele o poder da criação colectiva entre mulheres. Trabalhou com colectivos como Barbatuques e Clarianas, e viu nascer algo mais do que música: viu crescer uma rede. “Potência! Se tem uma coisa muito comum aqui no Brasil, é mulheres unirem-se para fazer arte juntas. Uma potencializa a arte da outra.” Essa experiência levou-a a repensar hábitos. 
 

“Ainda confio mais em figuras masculinas para entregar o meu trabalho do que em figuras femininas. Acho que isso tem a ver com a sequela do sistema. Mas o movimento de potenciar mulheres está a acontecer — e é lindo de ver.”

Em Moçambique, reconhece, ainda é difícil. As mulheres continuam “sequestradas pelo sistema machista”, encaixadas nos papéis que lhes foram impostos. E há uma realidade básica que dificulta a transformação: “Enquanto estamos preocupados com o estômago, não há espaço para poesia.” Aprendeu, no Brasil, que chegar à excelência requer tempo, rede, apoio e cuidado. E embora reconheça que Moçambique ainda está longe dessa realidade, tenta replicar o que pode, sempre que pode.

Como arte-educadora, o que mais deseja despertar nos outros quando partilha a sua pesquisa vocal?
A possibilidade de que todo mundo pode. Todo mundo pode ocupar o lugar que quiser — desde que se dedique e se comprometa com as suas buscas, percebendo o que precisa mover para que aconteçam. É isso que desejo: ajudar pessoas a encontrarem a sua autenticidade criativa. Todo ser humano é criativo e artístico, cada um na sua arte, no seu talento. E somos seres versáteis, capazes de descobrir novos talentos ao longo da vida. Quero dar às pessoas essa potencialidade para ocuparem o seu lugar.

Sabemos que é mãe, mulher e arte-educadora. Como se entrelaçam essas facetas íntimas com a sua voz em palco? A sua maternidade, por exemplo, já sussurrou alguma canção que ainda não pôs no disco?
Já. E por acaso vai sair uma canção sobre isso, um single. A maternidade foi dos maiores presentes que recebi na vida. Com todos os perrengues e desafios, só vejo bonança. Transformou-me profundamente — como ser humano e como artista. A minha voz mudou depois da maternidade, isso é facto. Mudou fisiologicamente — porque o corpo da mulher muda — e eu abracei essa nova potência. A voz ganhou mais maturidade, mais corpo. E a minha performance em palco também mudou. Deixei de ter vergonha. Pensei: “Meu, pari uma criança, cuidei dela praticamente sozinha durante quatro anos… tô nem aí para o que vocês vão pensar. Vou divertir-me e fazer o que sei fazer.” A maternidade trouxe-me essa coragem. Existe esse superpoder que todas as mulheres sentem: eu pari uma pessoa, posso fazer tudo. E agora que a criança está crescida, sinto que chegou a hora de aceder a outros portais. É isso que estou a buscar neste momento.

Se Kumlango significa portal, que porta interior ainda a espera — que canto, sentimento ou gesto ainda não ousou atravessar em público?
Estou nesse momento agora. Esta entrevista chegou mesmo numa fase certa. Como artista, tenho uma tendência muito grande a colectivizar os meus processos criativos. O Kumlango é um projecto meu, mas nasceu de um processo colectivo. Agora sinto que chegou a hora de ocupar mais o meu espaço, de me permitir ser melhor. É complexo dizer isso em voz alta… Mas estou nessa pesquisa: entender as minhas próprias portas. Sei quais são, mas talvez ainda não saiba dar-lhes nome..

Para terminar, qual é o sonho que ainda canta em silêncio?
Ai, meu Deus… É que já estou a viver a busca desses sonhos, então ele já não está tão silencioso assim. Neste momento, estou a perseguir um sonho que antes permanecia calado e para o qual agora ganhei coragem de correr atrás, de materializar. Esse sonho é ganhar mais intimidade com a minha própria voz, acompanhada por um instrumento de cordas. Um sonho que esteve em silêncio e que agora começa a ser ouvido.