KINANI
Já não se dança como antes. KINANI, um festival para além da dança
Escrito por: Jaime Álvaro
O Festival KINANI (palavra da língua rhonga que em português significa ‘dancem’) não se trata apenas de dança, vai muito além da combinação de ritmados movimentos do corpo. KINANI é uma plataforma internacional de investigação e formação de profissionais de diversas áreas que compõem um espectáculo performativo. KINANI é experimentação e intercâmbio. KINANI é o próprio espírito da dança contemporânea moçambicana.
Esta Plataforma Internacional de Dança Contemporânea contribui para o desenvolvimento de coreógrafos e bailarinos, dando visibilidade ao seu trabalho e abrindo portas à sua internacionalização. Criada em 2005 com objectivo de alargar o panorama da dança contemporânea em Maputo, a mostra de artes performativas que bienalmente nos proporciona consolidou-se e hoje é uma referência em África e no mundo. É nosso produto, é da casa, e a revista Xonguila valoriza tudo o que é feito em Moçambique, por e para moçambicanos, e tudo que eleva o nome do país além dos limites fronteiriços. Nesse âmbito, conversámos com o director criativo do KINANI, Quito Tembe, co-fundador da plataforma, que partilhou a sua experiência de organizar uma edição do Festival em meio à pandemia de covid-19, cujos impactos se reflectiram directamente nas artes cénicas e na vida dos seus fazedores, de modo particular.
KINANI IX: O "reencontro"
A edição 2021 do KINANI – Plataforma Internacional de Dança Contemporânea de Maputo realizou-se entre 23 e 28 de Novembro, tendo reunido mais de 100 profissionais de todo o mundo, entre directores de grandes companhias teatrais e de dança, dançarinos e criativos internacionais. A organização proporcionou 20 espectáculos, todos apresentados com a presença de público. Alguns em praças públicas sem palco, mas sempre com olhares atentos aos momentos mágicos que caracterizaram o KINANI.
"O nosso objectivo era responder à necessidade de os artistas saírem de casa para apresentar o seu trabalho ao público, e em presença, depois de longo tempo de confinamento", explicou o director do KINANI e também curador da nona edição, Quito Tembe. "Organizámos o KINANI 9 no meio de incertezas. Tanto nós (a organização) quanto o público não sabíamos o que é que esperávamos, e nunca me tinha acontecido isso como curador. No entanto, foi uma super boa surpresa a forma como todos nós acolhemos o espectáculo". "Reencontro" é como foi baptizada esta edição do Festival KINANI. Um reencontro do artista com o palco e com o seu público; do público com o artista; e dos amantes da arte performativa. "Foi muito bonito ver a emoção do artista em cena, e a emoção do público a assistir ao espectáculo. Portanto, esta edição foi das mais especiais, pelo facto de a termos conseguido realizar, confrontando-nos com todas as contrariedades impostas pela pandemia da covid-19. Nunca sentimos uma energia tão vibrante quanto esta desta edição", revelou, tentando transmitir o sentimento, descrevendo-o da melhor forma possível.
"Nós, no início, nas primeiras edições, tínhamos uma média de 3 a 4 profissionais (directores de teatro e de companhias de dança) provenientes da África do Sul, mas hoje estamos com um leque de 100 profissionais, oriundos de todas as partes do mundo. Ter a dimensão e a importância que esta plataforma acabou ganhando a nível internacional é para nós motivo de muita satisfação e orgulho", assim sintetizou Quito Tembe o evoluir do Festival ao longo da sua história.
A porta de acesso ao mundo
O principal objectivo do Festival KINANI, segundo o seu mentor, é a profissionalização de jovens coreógrafos e bailarinos, e é, igualmente, a internacionalização dos mesmos. "Sem querer ser pretensioso, o KINANI é a principal porta para a internacionalização. A partir do Festival são fechados vários acordos e são criadas várias turnês, várias digressões pelo mundo. Grande parte dos coreógrafos moçambicanos que andam mundo fora foram descobertos ou celebraram acordos ou foram promovidos, através deste evento", frisou. Quito lamenta o facto de o KINANI ser o único lugar por excelência de promoção de dança contemporânea nacional. O entusiasta amante das artes cénicas, da dança moderna em particular, defende que "devem ser criadas mais plataformas em prol do desenvolvimento das artes performativas no país. Numa só semana, directores de companhias de teatro e de dança de todo o mundo vêm a Moçambique à procura de projectos, de coreógrafos ou de bailarinos. E o único local onde se podem encontrar é no KINANI", referiu.
E se o KINANI não existisse...?
Quito Tembe não tem dúvida de que sem o KINANI a dança contemporânea nacional não estaria no lugar e nível em que se encontra hoje. "Qual poderia ser o local que ajudasse e contribuísse para essa questão da profissionalização das artes?
A partir do qual os nossos profissionais haveriam de promover os seus trabalhos, vender os seus trabalhos, onde é que os nossos artistas o fariam?", indaga Quito, para depois desmitificar o verdadeiro espírito do KINANI. "Então, o KINANI, de alguma forma, chega para complementar o que nós poderíamos chamar de uma possível indústria cultural no país. E porque uma indústria sem mercado não é indústria, o Festival, de certa forma, também contribui para a criação do mercado, não se pode ignorar esse facto", disse, antes de contar o processo de formação do público do Festival.
"A maior dificuldade que enfrentámos ao conceber o KINANI foi a formação do público, que era o meu grande sonho, o meu 'cavalo de batalha'. Toda a fase inicial deste festival estava virada pra aí", revelou. "Nós sentíamos que o público moçambicano ainda desconhecia a dança contemporânea, no sentido de pensar a dança, criar a dança, a dança que põe o pensamento e a criatividade acima de movimentos. Isto ainda era um pouco desconhecido'', considerou. Por isso, na sua fase inicial, o Festival dedicou-se inteiramente à formação do público, segundo Quito. O processo consistia em acordos com escolas secundárias, que emprestavam os seus salões aos coreógrafos participantes do Kinani para ensaios. Em contrapartida, o KINANI deixava a comunidade estudantil assistir aos ensaios e promovia seminários com os estudantes sobre dança contemporânea. "Os alunos das escolas faziam perguntas simples como: - O que é isso de dança contemporânea? Porquê esses movimentos estranhos meio descoordenados? O que é esta coisa que parece de malucos?", contou.
Quito diz que resolveu mais de um problema numa só cajadada. "Foi muito interessante, porque não ajudou apenas na formação do público, mas também a fazer com que os próprios coreógrafos ficassem destemidos diante de um público, diante da conversa com aqueles estudantes, que os treinava para falar em público, que os treinava para debater sobre a sua própria arte. Isso ajudou-nos muito", regozijou-se.
O Festival KINANI celebra, em 2023, 20 anos de estrada. Até lá, a esperança é de que a pandemia da covid-19 seja passado, e que a dança continue a ser a dança, naturalmente, mesmo que seja possível fazer chegar o movimento do corpo por meio da tecnologia, porque o contacto físico é que nos torna humanos.
Kinani (dancem!) sempre.
