Para quando a igualdade de género?


O mês da mulher é uma boa altura para uma reflexão sobre a luta pela igualdade entre homens e mulheres, que, apesar dos importantes avanços registados ao longo da história, ainda tem um longo caminho a ser percorrido na busca por uma sociedade mais equitativa e democrática. Decorridos séculos, ainda vivemos num mundo de desigualdade de poder entre homens e mulheres, baseada, sobretudo, no acesso desigual a oportunidades nos âmbitos económico, político, educacional ou cultural.

Longo foi o período em que, a nível mundial, na maior parte dos países, as mulheres estiveram proibidas de praticar várias actividades, mas ainda há quem não saiba ou não faça ideia do que era a vida das mulheres antes das suas conquistas. A mulher esteve excluída de uma participação efectiva nos espaços públicos, do trabalho fora do âmbito doméstico e da possibilidade de desenvolvimento científico e intelectual. Algumas das proibições impostas à mulher foram não poder trabalhar fora de casa, não poder fazer parte de um júri, não poder votar nem se candidatar a qualquer cargo ou em eleições governamentais, não poder frequentar a escola, e muito menos uma universidade, ou conduzir, não poder jogar futebol ou participar nas olimpíadas. Não tinha direito à palavra e era totalmente dependente do seu esposo ou dos pais.  

Falando concretamente de Moçambique, as mulheres eram também obrigadas a “fazer” filhos uma vez casadas ou vivendo maritalmente, e, caso não pudessem conceber, o seu esposo tinha o direito de trazer, para a mesma casa, sem consentimento da sua esposa, outra mulher que lhe pudesse “fazer” filhos. Por outro lado, as mulheres não podiam, por exemplo, comer ovos, nem algumas partes de carne, fosse ela de aves ou bovina, consideradas as mais saborosas. Infelizmente, alguns destes costumes tornaram-se parte da cultura de algumas etnias e ainda hoje se praticam em algumas regiões do país.
 


Um apelo à sociedade moçambicana para que lute pelo direito  de igualdade entre géneros começa pela mudança de atitude da própria mulher.  Mas a igualdade de  género não é uma questão da mulher,  é uma questão de  direitos humanos  que deve envolver igualmente homense mulheres

A desigualdade de género vem desde os primórdios da humanidade. O sistema patriarcal foi o eleito pela maior parte da sociedade, um sistema em que o homem detém o poder de decisão e mando sobre a família, que se foi transpondo do âmbito familiar para o público, transformando o sistema político a favor do lado masculino.

Hoje em dia, no entanto, as mulheres mobilizam-se para garantir que os seus direitos sejam defendidos e mantidos. Alguns dos factores por detrás desta luta são a disparidade salarial entre homens e mulheres com a mesma formação e desempenhando a mesma função, o assédio e violência sexual sofridos diariamente por um número crescente de mulheres em diversos ambientes e a representação ínfima da mulher em cargos de liderança.

Há grandes desafios para o alcance da igualdade de género. Por exemplo, no que concerne ao trabalho doméstico, frequentemente excessivo, que a mulheres realizam, a carência de serviços públicos impede-lhes oportunidades de trabalho e de renda. Não se dedicando tanto como elas ao lar, e com frequência praticamente isentos de afazeres domésticos, os homens podem dedicar-se mais à carreira profissional. Importa salientar, no entanto, uma mudança gradual positiva, ainda que lenta, que se vive no nosso país. Nota-se uma ascensão feminina em cargos de liderança no sector público e privado, bem como na política. Vêem-se cada vez mais mulheres moçambicanas empreendendo e com iniciativas próprias visando empoderar a mulher.

Um apelo à sociedade moçambicana para que lute pelo direito de igualdade entre géneros começa pela mudança de atitude da própria mulher. Mas a igualdade de género não é uma questão da mulher, é uma questão de direitos humanos, que deve envolver igualmente homens e mulheres. Para que se efective realmente, é extremamente importante a colaboração activa do parceiro masculino. A inclusão dos homens nesta mudança é muito bem-vinda, e é mesmo uma necessidade. Por isso, aqui fica um apelo-convite a cada um, homem ou mulher:

  • Interesse-se pela política, mesmo que o seu objectivo não seja tornar-se político(a). Ajudará a entender melhor como funciona a política no seu país e no mundo;

  • Exija que haja igualdade de género entre homens e mulheres, que gozem das mesmas oportunidades, rendimentos, direitos e obrigações em todas as áreas, desde crianças;

  • Aprenda sobre finanças pessoais e economia doméstica para gerir melhor, e com equidade no lar, os seus rendimentos;

  • Denuncie actos de violência contra a mulher;

  • Combata a diferença salarial;

  • Dê às mulheres oportunidades para atingirem cargos de liderança;

  • Faça palestras educativas visando elucidar e empoderar as mulheres, mostrando-lhe as possibilidades existentes no mercado do trabalho e no domínio do empreendedorismo.

  • Treine e tutoreie em matéria de igualdade de género;

  • Crie programas de empoderamento da mulher, bem como associações que apoiem a educação ou a criação de auto-emprego;


Empoderar a mulher e promover a equidade de género em todas as actividades sociais e da economia, além de melhorar a qualidade de vida de mulheres, crianças e homens, fortalece efectivamente as economias, impulsionando os negócios e promovendo o desenvolvimento sustentável. Esta igualdade é a base para a construção de uma sociedade livre de preconceitos e discriminações. Homens e mulheres devem ser livres para fazer as suas escolhas e desenvolver as suas capacidades pessoais sem a interferência ou limitação de estereótipos.

Ao analisarmos o desenvolvimento histórico da sociedade, veremos que há transformações e melhorias que vêm acontecendo em prol da igualdade de género. Contudo, homens e mulheres, ainda temos um longo caminho a trilhar para chegarmos à igualdade desejada.