Há artistas que chegam ao mundo devagar, como quem primeiro escuta. João Timane é desses. Antes de pintar, observa. Antes de escolher a cor, procura o que ficou por dizer. Cresceu no Bairro do Aeroporto, num lugar onde a pressa convive com a ternura, e hoje o homem carrega ainda a criança que levava o mundo nos olhos antes de o levar para a tela. Talvez por isso a sua obra tenha essa mistura rara de energia e delicadeza. As figuras que cria guardam memórias, as ruas voltam a aparecer nos contornos, e há sempre um traço que parece saudade. Agora vive na Alemanha, rodeado de outras paisagens e outros silêncios, mas continua a pintar como quem regressa a casa. Cada tela é um gesto íntimo, quase confissão, onde tenta preservar o que se perde no caminho e o que ainda o move por dentro. Aqui, abre-nos essa porta.
Cresceste no Bairro do Aeroporto, um lugar onde a vida raramente abranda. Quem olha hoje para a tua obra percebe que carregas muitas dessas memórias nos gestos, nas cores e nos rostos que pintas. Que imagens da infância continuam a sussurrar-te quando te sentas diante da tela?
Quando me sento diante da tela, o Bairro do Aeroporto não fica no passado, senta-se ali comigo. Vejo as mulheres da minha família a caminhar com passo firme. A minha irmã mais velha, já fale-cida, com o lenço amarrado à cabeça, a resolver problemas difíceis. As mulheres do meu bairro, humildes, mas ricas de alegria.
Há artistas que entram na arte por inquietação e, outros, por necessidade de expressão. No teu caso, o que foi primeiro: a urgência de dizer algo ou a descoberta de que tinhas um idioma pró-prio no desenho?
A arte não começou com inquietação nem com urgência, começou com convivência, ambiente e herança, posso assim dizer. Nasci num meio artístico, rodeado de nomes que se tornaram gran-des mestres: Malangatana, Netto, Chissano, Mbique, Makazako, Mavec, etc. Não eram apenas artistas consagrados, eram meus vizinhos. Crescer ali deu-me uma vantagem silenciosa porque percebi cedo que a arte não era um luxo, era um idioma natural, tão quotidiano quanto respirar. Sinto que vivi num lugar onde a arte sempre fez parte do quotidiano. Posso dizer que fui privile-giado.
Pintaste crianças, vizinhos, ruas e momentos que parecem pequenos fragmentos de um quoti-diano visto com ternura e atenção. O que te ensinou o bairro sobre humanidade que nenhuma escola ensina?
O bairro ensinou-me lições que nenhuma escola consegue ensinar. Aprendi que, quando um vizinho tem sal, partilha com os outros; que quem tem arroz não deve esquecer quem não tem. Que, se uma casa arde, os filhos do vizinho afectado dormem na casa de quem ficou com tudo intacto. Aprendi que a solidariedade não é opção, é necessidade. Que a união salva, que a aten-ção ao outro transforma o quotidiano e que a humanidade se revela nos gestos mais simples. O bairro ensinou-me que olhar pelo outro é tão natural quanto olhar para dentro de nós próprios, e é esse olhar que tento trazer para cada quadro que pinto.
Quando fala dos mestres que o marcaram, João Timane descreve um caminho feito de encon-tros decisivos. Em Malangatana, descobriu que a arte pode ser memória e identidade, que um desenho carrega histórias inteiras. Em Chichorro, encontrou a força da cor, aquele brilho que ilumina uma sala e transforma tudo à volta. De Naguib Elias, recebeu a visão e a presença de um líder, alguém muito à frente do seu tempo, que lhe mostrou que a força de um artista também vive na forma como enfrenta a vida. E, embora admire Picasso, foi em Makazako que encontrou o seu verdadeiro guia, o mestre que acreditou nele, que lhe deu o impulso e o gesto certo. A ausência de Makazako ainda o visita em sonhos, um silêncio que dói e conforta ao mesmo tem-po. No fim, cada mestre deixou-lhe uma parte importante, mas todos lhe ensinaram a mesma coisa: a coragem de encontrar a sua própria voz.
Há dois anos decidiste afastar-te fisicamente do teu país para te aproximares ainda mais da tua arte. A Alemanha deu-te silêncio, distância e novas referências. O que mudou na tua forma de ver, pintar e sentir desde que chegaste?
A Alemanha é um país com uma cultura completamente diferente da minha. A maior lição que tenho aprendido é a disciplina. Afastei-me um pouco e silenciei-me durante dois anos porque pre-cisava de me integrar e absorver o que este país tem para oferecer. A maior dificuldade tem sido a língua, mas tudo indica que, dentro de seis meses, estarei novamente 100% activo. Estou ansioso por esse momento, com muita sede de colorir as minhas telas. Desde que cheguei, sinto que de-senvolvi o meu intelecto. Já não pinto apenas Moçambique, pinto o mundo. Estou rodeado de diversidade e isso ensinou-me a respeitar e a compreender culturas diferentes. Cada pessoa, cada cenário e cada experiência acrescentam uma nova dimensão ao meu trabalho e à forma como vejo a arte.
Estudar fora é descobrir onde realmente pertencemos. O que a Alemanha te ofereceu que Moçambique não podia dar naquele momento — e o que Moçambique continua a oferecer-te que lado nenhum consegue substituir?
A Alemanha oferece-me estabilidade financeira, segurança e contacto constante com a cultura no dia-a-dia, coisas que, naquele momento da minha vida, Moçambique não podia garantir. Por ou-tro lado, Moçambique continua a oferecer-me algo que nenhum outro lugar substitui: o calor das pessoas, a alegria mesmo diante das dificuldades e a temperatura agradável que me faz sentir vivo. É essa energia que me inspira e que alimenta a minha arte. Gostaria de conseguir visitar Moçambi-que pelo menos duas vezes por ano. Sinto que isso me faria muito bem porque é ali que recarrego a minha força e a minha criatividade.
Muitos olham para as tuas cores como energia pura. Outros vêem nelas cicatrizes antigas e afec-tos guardados. Quando escolhes um vermelho ou um azul saturado, estás a pensar no que sen-tes ou no que queres que os outros sintam?
Quando pinto, na maior parte das vezes não penso em nada. Tudo flui naturalmente. Às vezes posso planear usar, por exemplo, o vermelho, mas no momento acabo a usar laranja. Não consigo explicar exactamente porquê. Sei apenas que pinto para colorir a minha alma. A obra tem de me encantar, a mim, primeiro. É uma terapia sem igual. Sinto-me incrivelmente bem quando termino uma pintura exactamente como desejava. As cores são uma extensão do que sinto, mas também do que preciso de libertar. Não pinto para que os outros sintam algo específico, pinto para me sentir inteiro, pleno e em paz com aquilo que criei.
Os teus retratos femininos têm uma força que atravessa o observador. São mulheres centrais, sólidas, quase monumentos. Que histórias lhes dás quando as pintas? E que histórias delas te chegam de volta?
Quando pinto mulheres, vejo-as como fortes e centrais, quase como monumentos. É assim que sempre as vi na minha vida, na família, no bairro, na rua. Cada traço e cada cor tenta mostrar essa força e presença. As histórias que lhes dou vêm do que vivi: coragem, sacrifício, liderança silencio-sa, alegria mesmo nos momentos difíceis. Mas quando as pinto sinto que elas também me contam coisas, olhares que guardam memórias, sorrisos que mostram resistência, gestos que revelam cuidado e poder. É uma troca silenciosa. Cada retrato que termino faz-me respeitar e admirar ainda mais as mulheres, e perceber que, ao pintar, recebo muito mais do que coloco na tela.
Há movimento, textura e quase uma cadência musical nas tuas composições. Quando pintas, estás a ouvir alguma coisa por dentro?
Sou uma pessoa forte por fora, mas muito sentimental por dentro. Um pouco como um poeta que ainda não se libertou. Sempre pinto ouvindo música, adoro música. Para além da pintura, é a única arte que me consegue transportar para outra dimensão e faz-me sentir de uma forma que nada mais consegue. Escuto quase tudo, dependendo do momento e do que sinto. Às vezes uma músi-ca calma guia o ritmo da minha pincelada, outras vezes um som mais intenso dá energia e força à obra.
As tuas capas de livros viajaram entre Moçambique, Brasil e Portugal. Há escritores que pintam com palavras e artistas que escrevem com cor. O que descobriste ao ver o teu trabalho pousar sobre livros que contam outras vidas?
Primeiro, fez-me chegar a outro público. Permitiu-me ter contacto com a literatura, mesmo fazen-do parte de uma geração que quase não consegue abrir um romance ou um livro de poesia, mas que passa horas a ler milhares de publicações nas redes sociais. E isso não é crítica porque eu pró-prio não sou muito diferente. É apenas a realidade da nossa geração, uma luta silenciosa que cada um enfrenta à sua maneira. Ver o meu trabalho sobre livros que contam outras vidas ensinou-me que a arte pode cruzar caminhos e experiências, e que uma pintura pode conversar com palavras, histórias e emoções de formas que eu nem imaginava.
Já disseste que pintas o que observas, mas também o que te inquieta. Que inquietação ainda te move quando achas que já disseste quase tudo?
Mesmo quando sinto que já disse muito, a inquietação continua presente. Há sempre algo que me perturba, algo que não consigo ignorar, seja uma injustiça, uma memória que insiste em voltar ou a simples curiosidade de entender melhor o mundo à minha volta. Essa inquietação faz-me conti-nuar a olhar, a observar, a sentir. Leva-me a explorar novas cores, novas formas e novas expres-sões. Cada pintura é uma tentativa de dar forma a emoções e pensamentos que não se calam. No fundo, essa inquietação mantém a minha arte viva porque há sempre algo para dizer, algo para mostrar, algo para sentir.
No fim de cada obra há sempre um resto de silêncio, uma pequena margem onde fica aquilo que não conseguiste dizer. Se um dia a tua arte te pedisse uma última resposta, sem tela nem cores, apenas verdade, que luz deixarias ali para quem vier depois de ti?
Esta pergunta é incrível. Na verdade, não é uma pergunta para mim, mas para grandes mestres como Silvério Sitoe, Chocate, João Paulo Quehá, Gemuce, entre outros. Mas, se tiver de respon-der, diria o seguinte. Se a minha arte me pedisse uma última resposta, sem tela nem cores, apenas verdade, deixaria ali uma luz sobre a coragem, a força e a humanidade. Deixaria que quem viesse depois visse que a arte não é apenas técnica ou beleza, é uma forma de existir, resistir e transmitir o que sentimos e vivemos. Que cada traço ou cor possa inspirar os outros a serem fiéis a si pró-prios e a respeitarem o mundo à sua volta. Precisamos uns dos outros.
