Como começou a tua jornada na música? 
O meu percurso começou na igreja, como baterista, mas, pouco tempo depois, mudei para a viola/guitarra como instrumento principal. Com o andar do tempo, fui conhecendo músicos da praça e aproximei-me de alguns, para aprender e interagir musicalmente. Desses, destacam-se o professor Orlando da Conceição, Angélico Manhique, Abílio Manjaze e o falecido Filipinho. Em 1996 conheci pessoalmente Jimmy Dludlu, na altura do lançamento do seu primeiro álbum, Echoes From The Past no Clube Desportivo de Maputo. Dessa interacção e amizade surgiu a oportunidade de ir conhecer, assistir e vivenciar alguns concertos e festivais de jazz em Cape Town, em 1999, e de conhecer o South African College of Music da University of Cape Town, que viria a ser o meu colégio de música de 2003 a 2007. Formei-me, e durante esse período tive oportunidades de tocar com músicos profissionais, estudantes e professores de música, e interagir com músicos norte-americanos que faziam parte do alinhamento de festivais e concertos, tais como Marcus Miller, John Scofield, Lee Ritenour, Norman Brown Mike Stern, Joe Mcbright, Pat Metheny, George Benson, e outros, isso durante sessões de jam, workshops, palestras, conferências, masterclasses e performances.

Como foi a experiência de estudar Jazz Performance na Universidade de Cape Town (UCT)? Que repercussões teve no teu trabalho?
Foi uma experiência marcante, contagiante e indescritível. Após ter passado vários anos da minha infância e juventude a escutar e tentar transcrever obras de vários artistas amantes deste género de música, senti-me empolgado por ir para o South African College of Music of University of Cape Town, para poder absorver, reter e manusear (cientificamente ou não) quase tudo o que tem a ver com a linguagem e vocabulário do jazz: execução e improvisação (que é o ponto fulcral do jazz). Após a finalização do meu curso, em 2007 – no ano seguinte e ainda em Cape Town –, iniciei a gravação do meu primeiro álbum de músicas originais River of Dreams, que terminei e lancei em 2009. O álbum contou com a participação de músicos sul-africanos e alguns moçambicanos residentes em Cape Town.

Quais são as tuas principais influências musicais, tanto dentro como fora do jazz? De que maneira essas influências se reflectem no teu estilo de música?
Joe Pass, Pat Metheny, Kevin Eubanks, Garrison Fewell, Mike Moreno, Teddy Pendergrass, Luis Salinas, Nelson Faria, João Bosco, Manu Dibango, Papa Wemba e Ernesto Ndzevo. Essas influências ajudam-me, na maioria das vezes, a decidir que direcção deverei tomar em relação ao meu modo de compor, arranjar, orquestrar e alinhar sequencialmente as músicas num álbum ou show musical. Sinto-me sempre fascinado quando, ao escutar a música de alguém, noto que, para além desta ter uma melodia e harmonia linda, também é bem orquestrada e arranjada. Sonho em colaborar um dia com Richard Bona, Victor Wooten, Lizz Wright e Chris Potter.

Poderias falar-nos um pouco sobre a tua experiência como professor de música na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM)? Como consegues equilibrar o teu trabalho como músico e educador?
A minha carreira de docência na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, teve o seu início em 2010, como professor de teoria de música, instrutor de ensemble de música e big band (junto com a American International School of Mozambique). De 2011 a 2015, enquanto docente, desempenhei também a função de director do curso de música. Tive igualmente a oportunidade de leccionar em programas de intercâmbios internacionais na University of Ghana (Gana), University of Cape Coast (Gana), Universidade de Makumira (Tanzânia), Sibelius Academy (Finlândia), Rhythmic Music Conservatory (Dinamarca), Royal Academy of Music (Dinamarca), Estonian Academy of Music and Theatre (Estónia), Universidade Federal da Bahia (Brasil), Universidade Estadual da Bahia (Brasil), Faculdade Evangélica de Salvador (Brasil), Universidade Recôncavo da Bahia, Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Brasil), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brasil), Universiti Teknologi MARA (Malásia) e Berklee College of Music (Estados Unidos da América). Nesse exercício de docência, não só tenho tido a oportunidade de transmitir e partilhar o conhecimento musical (performativo, científico e pedagógico), mas também de colaborar, interagir e saber manter a motivação e entusiasmo do estudante pela disciplina. Para mim, ser músico e educar está interligado: quando ensino, também aprendo e, muitas vezes, recupero conteúdos musicais aprendidos no passado. Assim, revitalizo essas matérias do passado e volto a incorporá-las no meu vocabulário e linguagem musical. Claro que isso requer planificar e adaptar-se as situações de última hora. De momento, estou concentrado em fazer a exposição do meu segundo álbum de músicas originais, Walks of Life, que foi publicado agora, em Maio de 2023.

Qual é a tua visão para o futuro da música moçambicana e do jazz em geral? 
Em relação ao futuro da música moçambicana, creio que vai melhorar e ultrapassar um dos maiores obstáculos que a nossa música tem: harmonia fraca e/ou pobre, e isto não é só um problema da nossa música folclórica (designada no nosso seio como música “popular” moçambicana), mas de todo o continente africano. Nossa harmonia é simples, repetitiva e estática, e precisa-se mudar isso, explorando e desenvolvendo mais os campos harmónicos, pois as nossas melodias e ritmos são bastante ricos, e muitas vezes também dinâmicos. Em relação ao jazz, a coisa aí já é outra. Anda uma febre ilusória na nossa sociedade musical que quase tudo o que se toca hoje na nossa praça é jazz ou está associado ao jazz. É frequente ouvir-se um spot publicitário radiofónico ou ver-se um anúncio a dizer que o artista X vai dar um show de jazz ou afro-jazz, mesmo sabendo-se de antemão que o género ou estilo musical desse artista é música tradicional, ou pop, ou pandza, ou etc. Eu sempre tive algumas dúvidas sobre toda a ideia de enfatizar a americanidade do jazz ao ponto da exclusividade, mas esse é um outro assunto. Uma das muitas coisas que torna o jazz único é como ele é adequado para absorver tão bem materiais, estilos e tons infinitos de realizações humanas. Portanto, ele pode albergar (caso haja espaço para tal) qualquer cultura. Mas é preciso não confundir nem deturpar as coisas. O jazz tem a(s) sua(s) forma(s), linguagem e vocabulário, e é preciso que se respeite isso. Então, não se pode, por exemplo, pegar numa simples marrabenta e designá-la de afro-jazz só por se incluir um ou alguns acordes tétrades, ao invés de acordes tríades que constituem o campo harmónico da marrabenta. É da própria natureza do jazz mudar, desenvolver e adaptar-se às circunstâncias do seu ambiente. O jazz é uma ideia mais ponderosa do que os detalhes da sua história; um conceito maior do que qualquer um jamais poderia esperar ou saber definir na íntegra. Assim sendo, acho que o jazz vai provavelmente continuar a prosperar, embora possivelmente de maneiras inesperadas.

Como vês a evolução da tua música nos últimos anos e quais são as suas expectativas para o futuro?
Positiva e com tendência a melhorar, tendo em conta as oportunidades, vivências e experiências musicais, culturais e educacionais expostas, vividas e adquiridas nestes últimos anos. Quanto às expectativas para o futuro, continuar a investigar, pesquisar e buscar mais conhecimentos e experiências para enaltecer e aprimorar ainda mais a minha própria música.