Nasceu em Angola em 1998, mas cresceu em Rio de Mouro, subúrbio da Linha de Sintra, em Portugal. Ivandro tem-se destacado como um dos artistas mais autênticos e versáteis da nova geração da música lusófona. Com uma carreira em ascensão e uma voz que atravessa fronteiras, traz nas suas composições a alma de um verdadeiro contador de histórias. Em entrevista exclusiva à Revista Xonguila, o artista fala sobre identidade, espiritualidade, processos criativos e a forte ligação que mantém com Moçambique — um país que, segundo ele, o fez viajar até à lua.
Tens uma forte ligação a África e às suas raízes musicais. De que forma essa herança africana moldou o teu percurso e a tua forma de sentir a música?
Herdei muita musicalidade de África graças aos meus pais, graças à minha família. Tivemos sempre o hábito de ouvir grandes músicos da nossa terra e, sem dúvida, isso influenciou a minha música. Até aos dias de hoje, as minhas maiores músicas são quase sempre ali perto do afro, ou senão mesmo afro. E estou também a voltar às raízes e a criar mais músicas nesse estilo
A tua música transmite muita emoção e autenticidade. Como consegues equilibrar a tua verdade pessoal com o que o público espera de ti?
Isso é uma boa pergunta e acho que, tanto para mim como para qualquer artista, sabermos o que é que as pessoas querem de nós pode causar uma certa pressão, mas acho que o segredo para passar por cima disso é criar, criar imenso, ter várias opções e, assim, sentir que estamos sempre a lançar algo que tem a nossa verdade.
Eu já tive a oportunidade de tocar em Moçambique e os concertos foram incríveis. O público aí é muito forte, muito apaixonado. Agarraram-nos e levaram-nos até à lua.
O teu álbum Trovador reflecte uma jornada introspectiva e já afirmaste que "as melodias surgiram onde as palavras não chegavam". Como é que a música te permitiu expressar emoções ou pensamentos que, de outra forma, seriam difíceis de comunicar?
Eu penso que a música, para mim, tornou-se uma ferramenta que faz mesmo isso que eu disse: ela consegue chegar onde as palavras não chegam. A musicalidade, os instrumentos, tudo o que envolve uma canção permite-me transmitir o que está dentro do meu coração. Permite-me, muitas das vezes, mesmo — imagina — passar a quem eu quero passar, a mensagem que está aqui dentro. E, às vezes, é difícil numa conversa fazer isso. E, com a canção, a magia acontece, e é muito mais fácil entregar à pessoa um coração aberto a 100%. Sinto que as mensagens se tornam tão fortes que ecoam só em nós, e não só para a pessoa a quem queríamos falar, mas para todo o mundo, todo o universo de pessoas que também estão a passar pelo mesmo.
Na faixa "Give God Praises", há uma forte componente espiritual. Qual o papel da espiritualidade na tua vida e de que forma influencia a tua música?
A espiritualidade tem uma forte componente na minha música e em mim. Eu cresci num meio muito religioso, fui praticando até aos meus 17 anos de vida, e diria que comecei já na barriga da minha mãe, por assim dizer, né? E sempre fui muito ligado a Deus, não só eu, mas também a minha família, e o cantar na igreja influenciou muito a minha musicalidade. E, mais tarde, eu próprio encontrei a minha verdade. Sei que Deus está na minha vida, sinto as suas bênçãos à minha volta e, por isso, influencia tudo, tudo… tudo… tudo… tudo à minha volta.
Na música Chakras, dizes "Vou deixar a minha marca, encher de orgulho a minha casa." Sentes que já conseguiste atingir esse objectivo ou ainda há algo maior que queiras conquistar?
Eu diria que, dessa frase, já consegui, de certa forma, completar as duas coisas que eu disse, que é deixar a minha marca e encher de orgulho a minha casa. Mas acho que a marca ainda pode ser maior e o orgulho ainda pode ser maior também. Ou seja, acho que ainda há mais, ainda mais caminho para trilhar e fortalecer ainda mais isso que eu disse.
Em entrevistas anteriores, disseste que ainda não definiste bem o teu som na música. Após o lançamento de Trovador, sentes que encontraste a tua identidade musical ou ainda estás em busca dela?
Sim, eu no passado disse isso e continuo a sentir exactamente o mesmo. Claro que há estilos em que eu me sinto mais confortável, nomeadamente o afro — e talvez as pessoas até adorem mais ouvir-me nesse estilo — mas eu sinto que sou músico, sou polivalente, gosto de explorar várias vertentes minhas, gosto de ouvir vários estilos de música, não me cinjo apenas a um. Então, ainda também não sei definir qual seria o meu estilo. Mas diria que tem uma praia, que é o afro. Mas gosto de explorar, e acho que a vida faz mesmo essa transformação. Nesse projecto Trovador, nota-se imenso. Foi um projecto extenso e levou-me anos a ser feito mesmo. E isso vê-se, vê-se várias fases minhas, várias alturas em que eu estava mais no afro, outras alturas em que eu estava mais no hip-hop, outras alturas em que eu estava mais ali, no “clássico”, diria assim — numa bossa nova, por exemplo, o Noite, com o Vitor Kley. E acho que é isso que me define como artista. Eu tento passar o que a vida me está a passar. Ou seja, nesta fase, a minha singularidade será uma, mas no futuro, talvez eu vá estar noutro estilo.
Houve algum momento no palco que tenha sido tão forte que te fez repensar a tua relação com a música?
Para responder a isto, eu talvez tenha de revisitar o meu primeiro concerto em que o público me abraçou. Sem dúvida, isso fez-me repensar na minha relação com a música, fez-me perceber quantas pessoas é que também estavam ligadas pelas minhas palavras, quantas pessoas é que sentiam a minha música como se fosse delas, e fez-me agarrar a minha música com as duas mãos e acreditar que isto seria real, que um dia eu ia estar onde estou, e que ainda haveria muito mais por sonhar quando lá chegasse. E também, quando partilhei o palco do estádio com os Coldplay, com a Bárbara Bandeira, também tive outro momento em que repensei a minha relação com a música. Acho que a vida vai acontecendo, atingimos várias metas, e eu estava numa altura em que, digamos, estava a ver uma parede, por assim dizer, uma parede metafórica. O que quero dizer com isso: talvez imaginasse que sabia o que poderia vir amanhã e quais seriam os meus limites. Mas, naquele dia, a minha cabeça voltou a abrir, o meu coração também, e permitiu-me sonhar. Percebi que não sabemos o futuro, ainda há muito mais para acontecer, e que, se eu trabalhar mais, se eu me dedicar mais, se eu puser ainda mais o meu coração cá fora, ainda há muita coisa que eu não sei que poderia acontecer… que vai acontecer.
A tua música já te levou a conhecer pessoas e culturas que mudaram a tua forma de ver a vida. Há alguma história marcante que queiras partilhar?
Sim, a minha música já me fez conhecer pessoas e culturas diferentes, e tive imensos momentos marcantes nesta jornada. Acho que posso falar de um momento: por exemplo, apercebi-me de que as canções já não são só minhas quando ouço histórias de pessoas como, por exemplo, alguém que teve que passar um momento de vida difícil — por exemplo, ver o seu pai num estado terminal e entre eles escolherem a minha música Lua para ser a despedida entre eles, porque era uma música que gostavam muito, tanto um como o outro. E decidiram ouvi-la até ao último dia. Isso foi muito forte, muito forte para mim. Percebemos que a música não é só minha, mas sim algo que agora é nosso. Quando eu digo “nosso”, minha e do mundo, e de toda a gente que estiver com o coração aberto para recebê-la.
Que planos se seguem ao Trovador? Podemos esperar novas sonoridades ou projectos diferentes?
Os planos para o futuro… ainda estou a pensar neles. Tenho feito imensa música. Após fazer um projecto tão extenso, quis dar-me o desafio de voltar a inovar-me e a soar ainda melhor do que aquilo que consegui fazer nesse projecto, que eu sinto que foi incrível, e acho que as pessoas abraçaram de uma maneira incrível. Quero conseguir sentir que me superei. E estou, neste momento, nesse trabalho — que é em estúdio, que é na vida —, por exemplo, estou a construir família e a viver esse momento da vida para aprender com ele e para poder trazer mensagens para a minha música que são realmente relevantes, não só para mim, mas também para quem estiver disposto a ouvir. Deixar aí o mesmo, assim como fiz com canções no meu projecto Trovador, deixar aqui outra vez músicas que, diria, são intemporais.
Haverá alguma emoção ou mensagem que ainda não conseguiste expressar em música, mas que gostarias de explorar?
Ainda existem emoções e mensagens que eu ainda quero expressar na minha música. O meu processo criativo envolve muito viver, viver e deixar a vida explicar-me o que é que eu devo passar na minha música. E como tem algumas experiências em estúdio que o público, em si, ainda não conhece, ainda estou a experimentar. Mas há aqui coisas que eu ainda sinto que a vida vai ensinar-me a pôr no papel e caneta e transformar em música, e estou à espera que isso aconteça.
A tua geração de artistas está a redefinir o som da música lusófona. Sentes que existe uma identidade nova a surgir ou ainda estamos num processo de descoberta?
Eu sinto que sim, sinto que a minha geração está a redefinir o som da lusofonia. Penso que já aconteceu, acho que temos uma identidade muito própria. E, claramente, têm surgido sempre aquelas pessoas que trazem algo novo e continuam aqui a trilhar um caminho para isto se transformar ainda mais e ser ainda mais incrível. Ou seja, de certa forma, também é sempre um processo de descoberta. Mas, neste momento, acredito que a nova geração tem um som incrível, uma identidade incrível.
Se pudesses colaborar com um artista moçambicano, do presente ou do passado, quem escolherias e porquê?
Se eu tivesse oportunidade de colaborar com um artista moçambicano, eu penso que escolhia alguém do presente, muito provavelmente o Mark Exodus, porque, quando eu estive em Moçambique, ele recebeu-nos muito bem, tivemos ali uma conexão, falámos, trocámos ideias e estou à espera que a vida volte a juntar-nos e possamos trabalhar e colaborar numa música.
Os teus fãs moçambicanos acompanham-te de perto e muitos esperam ansiosamente por um concerto teu em Moçambique. Já há planos para actuares no país? Quando poderemos ver-te ao vivo por cá? E que mensagem gostarias de deixar para eles?
Eu já tive a oportunidade de tocar em Moçambique e os concertos foram incríveis. O público aí é muito forte, muito apaixonado. Agarraram-nos e levaram-nos até à lua. Acho que nós fomos tocar aí com eles, e eles é que nos fizeram viajar. São incríveis, mesmo. E, claro que gostava, num futuro próximo — talvez este ano, talvez no próximo ano —, vamos fazer todos os possíveis para conseguirmos ir aí e abraçar novamente o público, porque são incríveis, receberam-nos muito bem e eu só trouxe memórias incríveis daí de Moçambique. Então, para os meus fãs de Moçambique, espero que saibam que eu vos amo. Vocês são incríveis, e quero voltar a fazer uma viagem convosco, levar-vos até à lua, alinhar os vossos chakras, e, assim que for possível, estarei aí. Um grande abraço.
