Como surgiu a tua paixão pela arte?
Desde pequeno mostrei sinais de habilidades para me expressar através da arte, no ensino primário já preenchia os meus cadernos com desenhos de quadrinhos e outras imagens sem muito significado. Nunca fui a uma escola de arte, mas cresci numa casa de arte. O meu mentor foi meu irmão mais velho, conhecido naquela altura por professor Roly, que também foi um grande artista e era bastante respeitado nessa área. Ele foi meu professor de desenho no ensino secundário, em casa era meu espelho na arte. Eu copiava os quadros que ele fazia. Lembro-me de que, em 2008, nos sentamos, por duas vezes somente, para falar sobre arte, na varanda da sua casa, e outra vez foi na sala. Nesta conversa, ele explicou-me como começar um desenho e a pintar. Falámos em abrir uma galeria de arte e formarmos uma dupla, mas infelizmente, no mesmo ano, ele adoeceu e perdeu a vida. Como ele era o único irmão que eu tinha, aquilo foi um choque para mim. Eu tinha 15 anos quando ele perdeu a vida. De lá para cá, a minha jornada artística foi e é motivada pelos ideais dele.

Quando terminei o ensino médio, quis fazer arquitectura. Infelizmente a minha família não tinha condições para sustentar os meus estudos e acabei fazendo a formação de professores durante um ano. Depois fui trabalhar na Zambézia, como professor do ensino primário, e por anos pensei que o meu sonho de me consagrar no mundo da arte tinha fracassado. Em 2014, comecei a trabalhar como professor de Desenho, na Beira, e as coisas começaram a ter brilho. Ingressei na Universidade Pedagógica, no curso de Educação Visual, com habilitação em ensino de desenho de construção. Na cadeira de História da Arte, descobri a arte clássica (antigas Grécia e Roma) e o Renascimento, que tinham como denominador comum o realismo. A partir desse momento, surgiu um desejo muito grande de fazer desenhos com muito realismo, assim como a beleza do mundo. Até que a minha monografia foi sobre desenho e pintura realista.


Como caracterizas o teu traço artístico?
A minha obsessão pelos detalhes faz-me criar desenhos hiper-realistas, que parecem uma fotografia em alta resolução. E eu gosto disso, gosto ainda mais quando o público duvida do meu trabalho, e fica a pensar se é realmente um desenho ou uma fotografia impressa. Não sei se existe uma receita para fazer esse tipo de desenho, é mesmo uma questão de desejo, de querer representar a realidade. Mas claro que devemos estudar muito as técnicas para tal, a vida criativa não é linear. Não é uma linha recta de A a B. 


Quem são as tuas maiores referências?
Cá em Moçambique destacam-se muitos jovens também com este estilo, mas, como maiores referências, no meu ponto de vista, temos o Dércio (menino arqueiro), Helton Carvalho e Skeitan.  Internacionalmente, tenho como grandes referências três artistas nigerianos e um sul-africano, Arinze Stanley, Andrews Aggrey, Kelvin Okafor e Jono Dry. Para ser honesto, roubo algumas ideias dos meus ídolos, pego o que preciso, o resto deixo de lado. Todo artista faz isso, descobri que é a partir disso que nos tornamos mais criativos. O artista que disser que nunca rouba ideias, não estará a ser honesto. Não estou a dizer que faço plágio. Todo trabalho criativo é construído sobre o que veio antes, não há nada novo debaixo do sol. “A única arte que estudarei é aquela que contém o que eu possa roubar” – David Bowie. Gostaria mesmo de um dia ter o privilégio de trabalhar com estes artistas, ou mesmo ter a oportunidade de ver seus trabalhos ao vivo. Tenho colaborado com vários artistas nacionais, não só os que trabalham em estilos semelhantes ao meu. Por exemplo, agora trabalhamos no projecto de arte de rua que designamos por Beira Street Art. A ideia surgiu através do AfroIvan, que é um grafiteiro de Maputo. Já pintei também no atelier de um artista abstracto conhecido por Rabanete.


De que forma a pandemia afectou o teu trabalho?
Com a pandemia, as galerias fecharam, assim como muita coisa ficou parada, e isso permitiu-me ter mais tempo para desenhar em casa. Nesse período de quarentena, coleccionei várias obras e, quando houve o alívio das medidas, conseguimos fazer uma exposição colectiva na galeria da Casa do Artista da Beira. Outras obras estão guardadas para exposições futuras. A expansão do mundo digital e das redes sociais impactou positivamente a arte, isso porque através dessas plataformas podemos ver trabalhos de artistas que estão longe de nós, podemos partilhar o nosso trabalho, etc. Falando de mim, por exemplo, o mundo passou a me conhecer muito mais por causa das redes sociais, é lá onde posto meus trabalhos e todo o processo criativo.


No que toca à cultura nacional, como vês o estado actual e quais são os grandes desafios do sector?
Eu sempre falo que devemos apostar muito na educação artística, isso é a base para a construção de qualquer outro conhecimento que vem depois. Antes de aprender A ou B, ou 1 ou 2, aprendemos a desenhar, a colorir, a cantar, dançar, etc., só depois é que vêm números e letras. Isto só mostra que a arte tem um papel fundamental para desenvolver capacidades psicomotoras e cognitivas. Todo o mundo nasce artista, o problema é como crescer artista. Se eu fosse ministro de educação e cultura, o ensino de arte nas escolas deveria ser uma prioridade, iria ajudar as crianças a pensarem fora da caixa, teriam mais ideias, opiniões próprias, mais criatividade. Talvez a matemática, a física, a química, se tornassem mais fáceis. A sociedade não iria olhar um artista como marginal, pois, para muitos, ser artista em Moçambique e sinónimo de marginalidade e pobreza. Estão errados, nos chamam de loucos por pensarmos diferente.


Para terminar, podes dizer-nos quais são os teus planos para o futuro?
Meus planos para o futuro são pintar mais paredes na cidade da Beira, fazer pelo menos uma exposição individual em 2023, tentar ganhar uma bolsa para estudar Belas Artes na Europa e abrir o meu curso de arte na Casa do Artista, na Beira.