Henrique Languane, maquinista de 57 anos, entrou nos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) no tempo em que os comboios ainda eram movidos a carvão. Efectuou inúmeras viagens ao longo dos 34 anos de carreira e descarrilou cinco vezes, tendo saído sempre ileso. Não se lembra de quando realizou a primeira viagem ao comando de uma locomotiva, mas tem memória da última, em Maio deste ano. A revista Xonguila foi a bordo do Comboio 517, aquele com que Languane tem mais afinidade, para conhecer o maquinista mais antigo dos CFM e aqui trazer a sua vida sobre trilhos.
Uma vida inteira dedicada ao trabalho. Henrique José Languane era muito jovem – tinha 17 anos – quando começou a trabalhar. Acabava de concluir a sexta classe e teria sido professor se o pai, então motorista dos Caminhos de Ferro de Moçambique, não lhe tivesse arranjado uma vaga no porto de Inhambane, sua cidade natal. Entrou nos CFM como estivador, antes de se formar maquinista, e saiu da empresa 34 anos depois. A sua formação iniciou-se na Escola Ferroviária de Inhambane, em 1985. Em 1991 começou a trabalhar como maquinista de carga na Estação de Maputo, a que se seguiram diferentes estações, nas zonas Centro (Beira) e Sul (distrito de Chicualacuala, no nordeste da província de Gaza). Reformou-se como inspector de tracção, cargo que assumiu de 2011 até à sua reforma. Languane é casado e pai de três filhos.
Se não comandasse uma locomotiva, comandaria um avião. Sempre fui apaixonado por grandes máquinas. – Henrique Languane, ex-maquinista dos CFM
Linhas de perigo...
O maquinista Languane é um verdadeiro sobrevivente de um filme que se repetiu em sua vida profissional por cinco vezes, sendo ele próprio o principal protagonista. Em 2004, teve o primeiro acidente, quando ia socorrer um colega que tinha o comboio avariado na Machava, província de Maputo. “Puxava uma locomotiva sem vagões, a alta velocidade, e ela descarrilou por causa das condições da linha, que estava soterrada e não me apercebi. Ao passar por aquela zona, a minha locomotiva descarrilou completamente e foi chocar com um poste. Se não fosse pelo poste, provavelmente o comboio teria capotado, e poderia ter acontecido o pior. O mais grave dos cinco acidentes envolveu vagões com passageiros a bordo. Deu-se em Chicualacuala, na zona de Mapai, em 2001. Não houve nenhum ferido grave. Os outros quatros foram descarrilamentos ligeiros”, conta Languane, que reconhece ter já perdido colegas que, em acidentes semelhantes, não tiveram a mesma sorte.
“A primeira dificuldade quando comecei a trabalhar estava relacionada com os vagões, que na altura não tinham freios. A segunda era com a linha férrea, que estava degradada. Depois, eram as próprias locomotivas, que avariavam constantemente. Por último, a falta de um lugar condigno para descansar” – estes, segundo Languane, os principais problemas por detrás dos sinistros ferroviários. “As condições já estão melhoradas porque já há dormitórios equipados com ar-condicionado e camas, o suficiente para dormir à vontade e descansar de modo a retomar o serviço com boa disposição”, relata o maquinista mais antigo e experiente dos CFM até a sua reforma.
Outra causa de acidentes que Languane aponta é erro humano, que pode ser provocado por cansaço. “Durante as viagens nocturnas eu evitava comer. Fazia longas viagens sem ter ingerido nada para não cair no sono. Apenas bebia água. Preferia passar mal de fome, mas chegar ao destino com os passageiros a bordo seguros”. Outra causa é a falta de conhecimento: “Um bom maquinista tem, antes de mais, que conhecer a sua locomotiva. Depois, tem que conhecer o perfil da linha em que o comboio vai circular, tem que conhecer o tipo de vagão que terá, se pára ou não pára, aperta ou não aperta, e tem que ter em conta o tempo em que vai circular, se é de dia ou de noite” – esta a dica que deixa aos pares que ficam.
Comboio 517: Transportando histórias
Inúmeras foram as viagens feitas por Languane ao longo da sua carreira. Não tem memória de quando realizou a primeira como comandante de locomotiva, mas lembra-se do destino, que veio a repetir por vários anos. “Fui a Komatipoort, na vizinha África do Sul. Ia buscar uma composição de citrinos. Puxei um total de 40 vagões de Komatipoort a Maputo. Não tremi porque estava muito confiante. Depois dessa viagem, de 103 Km, distância que separa a cidade sul-africana de Komatipoort da capital moçambicana, Maputo, veio a certeza de que a minha vida seria sobre carris”, disse.
Os colegas de escola de Languane apelidaram-no de Comboio, porque o pai era funcionário dos CFM, a empresa pública que gere os sistemas ferroviário e portuário moçambicanos. Do pai viera-lhe a paixão pelo comboio e, daí, pelas grandes máquinas. “Graças a Deus, formei-me em tracção. Se não comandasse uma locomotiva, comandaria um avião. Meu sonho, desde pequeno, foi o de comandar algo maior. Sempre fui apaixonado por grandes máquinas”. As máquinas aproximaram-no das pessoas, os companheiros de viagem. Os passageiros mais chegados chamam-no pelo apelido, ou seja, simplesmente Languane. O tratamento é igual para todos, dispensando formalismos. Não há “senhoras e senhores”, dentro da locomotiva por ele conduzida, todos são família e amigos: “Fiz tantas amizades ao longo da linha! As pessoas gostavam de viajar comigo devido à disciplina de horário que tinha. Saía sempre à hora certa e chegava ao destino sem atraso. As pessoas reconheciam a minha disciplina”, contou, revelando que “em quase todas as viagens, voltava para casa com um presente oferecido pelos passageiros, que, ao longo dos anos, se tornaram grandes amigos”.
Languane conduz todo o tipo de comboios, desde locomotivas de carga a comboios de transporte de passageiros públicos e especiais. Mas existe um com que desenvolveu uma relação de afectividade ao longo do tempo, o Comboio 517 da Estação Central de Maputo, que fazia viagens Chicualacuala-Maputo e vice-versa. “Fiz mais viagens com o Comboio 113, que parte de Maputo para Ressano Garcia. O 211, que parte de Maputo com destino a Goba, também foi especial para mim. Mas o Comboio 517, que partia às 20 horas da Estação Central em Maputo com destino a Chicualacuala, foi aquele que mais me marcou, pelas amizades que conquistei ao longo da linha”, explicou. Languane realizava uma média de 15 viagens por mês antes da sua indigitação para inspector, em 2011.
Missão cumprida!
Este maquinista, de 57 anos, realizou a sua última viagem nessa função em Maio último, antes de lhe ser concedida a aposentadoria. Fez a rota Maputo-Chicualacuala, transportando quadros dos CFM numa visita de trabalho.
“Dediquei-me a esta profissão com toda a paixão, disciplina e responsabilidade. Vou para casa de cabeça erguida, porque cumpri com determinação e profissionalismo o meu dever. Saio feliz, com a missão cumprida e com orgulho de tudo o que conquistei”, argumentou. “Era um jovem quando entrei nos CFM, há 34 anos. Formei-me aqui, desenvolvi-me como profissional aqui nesta casa. Hoje sou um homem, um pai, chefe de família. O que sou hoje devo aos CFM. Criei uma família ao longo desta linha. Não foi fácil dizer adeus”, continuou emocionado. Languane aguarda por uma despedida formal a ser preparada pela instituição, que deverá coincidir com a data do seu aniversário, em Agosto, e avisa que o seu desligamento da empresa e das máquinas com que passou a maior parte do tempo da sua vida não será em definitivo: “Tenho a missão de passar o bastão à nova geração de maquinistas. Por isso, estou em prontidão para qualquer solicitação”. E travou, com aquele som barulhento e inconfundível do comboio anunciando o fim da linha, ou melhor, a chegada ao destino.
