Há lugares onde a infância não tem margem para distracções, cresce depressa e aprende cedo o peso do mundo. Na Ilha de Moçambique, entre rotinas frágeis e afectos construídos no dia-a-dia, nasceu a Heartseed, não como resposta pronta, mas como tentativa persistente de estar. Nesta conversa, Juliana Lamares, fundadora do projecto, fala do que não cabe nos relatórios, do momento em que uma ideia deixa de bastar, do instante em que ficar passa a ser uma escolha, e da responsabilidade que ganha rosto, nome e tempo.

A Heartseed nasce de uma ideia, mas ideias não chegam longe sozinhas. Em que momento sentiste que isto tinha de passar do sonho à responsabilidade?
No início, a Heartseed era apenas uma inquietação dentro de mim. Uma sensação constante de que eu não podia passar por aquelas crianças todos os dias e fingir que não via. Eu vinha de um mundo onde tudo parecia organizado, com planos, horários, segurança, e, de repente, estava num lugar onde a infância acontecia na rua, exposta a tudo. O momento de viragem surgiu quando deixei de ver apenas crianças a pedir na rua e passei a conhecer as suas histórias, os seus nomes, as suas rotinas. Quando percebi que muitas delas não estavam ali por escolha, mas por abandono, pobreza, falta de protecção, e pela influência de um sistema que, sem querer, as empurra para a mendicidade. Quando uma criança confia em ti, quando te olha como um porto seguro, quando começa a preferir estar num espaço protegido em vez da rua, já não é possível tratar isso como um projecto pontual. Nesse momento, percebi que não era mais um sonho bonito. Era uma responsabilidade diária, emocional e humana. Foi aí que entendi que não podia simplesmente ir embora quando ficasse difícil. Que já não era sobre mim, mas sobre elas.

Para Juliana, não houve um dia exacto nem um instante isolado que marcasse a viragem. Houve vários momentos pequenos, quase silenciosos, a acumularem-se. Um deles ficou gravado quando, num dia em que não apareceu, um grupo de crianças lhe bateu à porta à procura de respostas. Nesse gesto simples, percebeu que já não ia conseguir ir embora de verdade. Foi dessa permanência inesperada que a Heartseed ganhou forma. Um projecto feito de cuidado e paciência, mas também de uma dureza que raramente se conta. Porque o amor não resolve tudo depressa. Há crianças que chegam fechadas, marcadas por abandono, violência ou negligência, e dias em que se dá tudo e nada parece mudar. Plantar sementes é ficar quando empurram para longe. É aceitar que a transformação é lenta e que há feridas que não se curam apenas com comida ou escola. Há cansaço, dúvidas e frustrações. Mas há também pequenos milagres silenciosos. E são esses, quase invisíveis, que fazem tudo valer a pena.

O que te trouxe à Ilha de Moçambique e o que te fez ficar, mesmo quando teria sido mais fácil ir embora?
Cheguei a Moçambique quase por acaso, através de uma grande amiga moçambicana, sem saber muito sobre o país. A ideia era ficar apenas um mês e viajar de Maputo até ao norte. Quando cheguei à Ilha, à noite, senti uma ligação imediata e muito forte, uma sensação de casa. Cresci em Trás-os-Montes, com muita liberdade, a brincar na rua, descalça, com famílias sempre próximas. A Ilha trouxe-me essa mesma energia de comunidade e simplicidade. Mas o que me fez ficar foram as pessoas, especialmente as crianças, e a percepção de que ali podia construir algo com impacto real. Percebi que podia ir embora e continuar a minha vida confortável, mas também percebi que nunca mais seria a mesma pessoa se o fizesse. Ficar tornou-se uma escolha consciente.

Antes de começar este projecto, Juliana achava que a vulnerabilidade tinha fome, frio e falta de escola. Com o tempo, percebeu que a ferida maior é invisível: a ausência de amor, de segurança, de alguém que fique. Aprendeu que, antes de ensinar a ler, é preciso ensinar a confiar, e que nenhuma regra vale se o amor desaparecer quando se erra.

Há uma maneira própria de estar, de cuidar e de educar que foi nascendo com a Heartseed. Como descreverias essa forma de estar no dia-a-dia?
A Heartseed não é apenas um centro, é uma casa emocional, e é por isso que nos temos focado em desenvolver uma metodologia educativa perfeitamente adaptada às necessidades da criança e à realidade local. Aqui, as crianças encontram rotina, mas também colo. Encontram regras, mas também compreensão. As crianças têm rotinas, refeições, higiene, educação e actividades. Mas, acima de tudo, têm adultos constantes nas suas vidas. Aqui misturamos disciplina com muito afecto, estrutura com espaço para brincar e criar. Cada criança é vista como um indivíduo único, com talentos e necessidades próprias, e não como um número.
 

Houve crianças que a obrigaram a rever tudo em que acreditava sobre educação, limites e amor. Chegaram duras, agressivas, incapazes de confiar. Com elas, Juliana percebeu que o amor verdadeiro não é só carinho, é constância, limite e presença quando é mais difícil ficar. Algumas crianças testam antes de acreditar, porque já foram deixadas vezes demais. E amar, ali, é permanecer mesmo quando há rejeição. Esse mesmo exercício repete-se na gestão diária do projecto. Querer fazer mais com recursos limitados exige resiliência. Há momentos de preocupação, quando não é claro como garantir tudo o que é necessário. Ainda assim, a escassez transforma-se em criatividade, parcerias e metas claras. Não como um bloqueio, mas como desafios a ultrapassar por um bem maior.

Que tipo de ajuda faz realmente a diferença no vosso dia-a-dia, aquela que quase nunca se vê de fora?
A ajuda que realmente transforma é aquela que vai além do impulso do momento. Durante muito tempo acreditámos, e muitas pessoas continuam a acreditar, que dar dinheiro, comida ou uma bola a uma criança na rua é um gesto de amor. A intenção vem da compaixão e da vontade de aliviar o sofrimento imediato. Mas, na maioria das vezes, isso não ajuda, perpetua o problema. Cada moeda dada na rua mantém a criança presa naquele lugar, longe da escola, da brincadeira, da infância. A mendicidade infantil não existe por escolha. Existe porque nós, adultos e sociedade, não as estamos a proteger. Muitas são empurradas para a rua por falta de cuidado ou por famílias que também vivem em grande vulnerabilidade. E, uma vez dentro desse ciclo, sair torna-se extremamente difícil. Ajudar de verdade dá mais trabalho. Exige tempo, envolvimento, conhecer a criança, a família, o contexto, e empoderar os adultos para que possam cuidar e proteger. É um processo longo, muitas vezes invisível, mas é o único que gera mudança real. Na Heartseed, isso traduz-se em retirar as crianças da rua e oferecer um espaço seguro, rotina, alimentação, educação, actividades e acompanhamento familiar, tratando não apenas o sintoma, mas a raiz do problema. Para que tudo isto seja possível, a ajuda mais importante é a contínua. Não são apenas grandes doações pontuais que fazem a diferença, mas o compromisso regular, os apadrinhamentos, as parcerias que ficam. É essa constância que garante que uma criança coma todos os dias, esteja na escola e tenha adultos presentes.

Quando alguém decide apoiar a Heartseed, o que é que está, na prática, a sustentar, mais do que a financiar?
Está a sustentar protecção, educação e cuidado diário. Quando alguém apoia a Heartseed, não está apenas a financiar um projecto, está a sustentar vidas no dia-a-dia. Está a tornar possível que existam rotinas estáveis onde antes havia rua, protecção onde antes havia abandono, cuidado onde antes havia ausência. Está a garantir que uma criança saiba que vai comer, aprender, brincar e ser cuidada todos os dias. Apoiar a Heartseed é devolver algo que nunca deveria ter sido retirado: o direito a uma infância segura. Mais do que apoiar uma estrutura, é criar escolhas reais, a escolha de ir à escola em vez de ir pedir na rua, de sonhar em vez de apenas sobreviver, de construir um futuro com oportunidades. E essa transformação não impacta só a criança, mas também a família e toda a comunidade.
 

Na Heartseed, a horta, a cozinha, a carpintaria ou o teatro são mais do que actividades. São educação e preparação para a vida. Em cada experiência, aprende-se mais do que uma técnica. Cultivam-se valores, confiança e autonomia. São sementes plantadas no presente para que, no futuro, cada criança possa escolher o seu caminho com dignidade e liberdade.

Onde sentem que ainda falham, mesmo com as melhores intenções?
Ainda sentimos que falhamos muitas vezes onde a mudança é mais urgente. Nem sempre conseguimos fazer com que visitantes e turistas compreendam que dar na rua não ajuda uma criança, e que a verdadeira responsabilidade é nossa, como adultos, no proteger e garantir a infância. Nem sempre conseguimos chegar a todas as crianças que precisam de nós, nem oferecer o apoio psicológico que seria fundamental para algumas delas. Sabemos que poderíamos fazer muito mais, transformar ainda mais vidas, se tivéssemos recursos, infra-estrutura e meios suficientes. Mas, mesmo nessa limitação, cada dia é uma oportunidade de aprender, ajustar, crescer e fazer a diferença onde podemos.

Que futuro imaginam para estas crianças quando deixarem o centro, e que medos carregam em relação a esse futuro?
Sonhamos com jovens que cresçam com educação, auto-estima, valores sólidos e oportunidades reais, capazes de se tornarem exemplos de integridade, bondade e carácter para as suas famílias e para toda a comunidade. Sonhamos que possam viver uma vida estruturada e organizada, na qual tenham a liberdade de escolher, sonhar e construir o seu próprio caminho. Carregamos o medo constante do contexto difícil que os rodeia: a pobreza, a escassez de oportunidades, as influências negativas que podem tentar desviá-los. Por isso, todo o nosso trabalho foca-se no desenvolvimento emocional e na transmissão de valores, para que cada criança tenha força, consciência e coragem para tomar decisões diferentes, romper ciclos e criar um futuro que possa realmente escolher.