Há vozes que atravessam gerações e fronteiras sem fazer alarde. Gutto é uma delas. Cresceu na Margem Sul de Lisboa, mas a sua voz encontrou eco em todo o mundo lusófono — e em Moçambique, especialmente, nunca deixou de ser ouvida. Com os Black Company, ajudou a erguer o hip-hop em português, dando nome às dores e força às identidades. Mais tarde, com Private Show, desbravou terreno no R&B cantado em português, com a mesma entrega de quem entende a arte como um acto de cura. Hoje, longe dos palcos e mais perto da terra, Gutto vive entre a música, a reflexão e o silêncio escolhido. Mas continua atento, presente, activo — como formador, como pai, como cidadão.
Nesta conversa íntima com a Xonguila, revemos os marcos de uma carreira pioneira, revisitamos lutas antigas e escutamos o que permanece por dizer. Fala-se de pertença, de identidade, da relação com Moçambique, de encontros que não chegaram a acontecer — como com Azagaia, de quem guarda admiração — e da liberdade de, por vezes, escolher calar.
Gutto, quando pensas no miúdo que cresceu na Margem Sul e sonhava com música, o que mais te surpreende na viagem que fizeste até aqui?
O que mais me surpreendeu foi como tudo passa tão rápido, e, às vezes, o que não é planificado é o que melhor resulta para nós. Na verdade, a melhor coisa que eu fiz foi ouvir sempre o meu instinto e fazer escolhas baseadas no que era o melhor para mim no momento.
Cantaste durante anos contra o preconceito e pela dignidade de quem é negro em Portugal. Achas que o país mudou realmente desde então?
O país mudou, claro que mudou. É impossível um país não mudar de alguma forma. Resta saber se mudou para melhor ou para pior. Na verdade, as questões de preconceito e dignidade são humanas e não estão circunscritas a um país ou a uma fronteira. Haverá sempre uma batalha entre formas de ver, formas de viver, formas de entender os outros, e eu acho que depende das gerações. A nossa esperança é que as acções que vêm a seguir sejam melhores do que as anteriores, mas nem sempre é o caso. Como se costuma dizer, a história repete-se.
Black Company foi um grito colectivo. Quando olhas para esses primeiros tempos, lembras-te de momentos que te marcaram com alegria ou dor e tinhas noção, naquela altura, do impacto que estavam a ter no mundo lusófono, sobretudo nos PALOP? Em Moçambique, por exemplo, foram uma referência enorme.
Não fazíamos a mínima ideia de qual seria o nosso impacto ou qual a importância do que estávamos a fazer. Na verdade, a nossa intenção não era dar um grito colectivo, mas apenas encontrar a nossa essência, encontrar as nossas raízes, encontrar um sentimento de pertença que, na altura, não tínhamos. Estávamos confusos, divididos entre a nossa africanidade e a nossa portugalidade, e o hip-hop foi como que o remédio, o instrumento que nos permitiu encontrar outras pessoas na mesma situação e encontrar um sentido para aquilo que procurávamos. A verdade é que procurávamos apenas ser felizes e, felizmente, outras pessoas também encontraram felicidade naquilo que nós fazíamos.
Em que medida a tua transição para o R&B foi libertadora, e em que aspectos foi solitária ou desafiante?
Quem me seguia em Black Company percebia que eu já tinha uma propensão para cantar melodias e que já tentava colocar o R&B em tudo o que fazia. A minha musicalidade sempre foi muito além de ser um MC ou ser um rapper — sou produtor, escrevo, sou rapper — e, naquela altura, assim que ganhei confiança na minha voz e na minha capacidade, também comecei a cantar. Só foi uma surpresa para quem não me conhecia. Foi libertador, sim, porque permitiu-me explorar toda a minha musicalidade e não ficar preso numa caixa, limitado a um género.
A música “Ser Negro” marcou uma geração. Hoje, com tantos debates sobre representatividade, voltarias a escrevê-la da mesma forma?
Eu creio que aquela obra está fechada, e, se tivesse que escrever lá nesta altura, escreveria o mesmo. Provavelmente, o que poderia acontecer era fazer uma parte 2. “Ser Negro” faz sentido naquele momento, naquela altura e naquela fase da minha vida.
Disseste que passar a viver no campo foi das melhores decisões da tua vida. Que lições tiraste da terra, do silêncio, da distância, e o que é que hoje tens, aí, que sentes que nunca poderias ter conseguido vivendo na cidade?
Sem dúvida. É uma vida mais calma, mais focada no que realmente importa, com maior conexão com as pessoas e com a terra, e, acima de tudo, mais simples. Permite recordar o que realmente é mais importante e o que faz de nós mais humanos. Não deixei de ser tendencialmente urbano, mas estamos a falar de uma vida no campo que comporta todos os benefícios do urbanismo em termos de equipamentos e serviços. O melhor dos dois mundos.
O que é que te levou ao coaching e à formação — e o que é que tens aprendido com os mais novos que encontras nesses contextos?
Iniciei a minha actividade como formador através de programas institucionais de “Educação para a Cidadania através da Música”, direccionados para jovens. Partilhei essa experiência com o Boss AC, nas “Workshops de Rap”. Desde então, aprimorei e desenvolvi a minha instrução na área da formação profissional. O que concluí é que a educação formal se concentra quase exclusivamente na vertente técnico-cognitiva, ignorando o que considero mais importante: a inteligência emocional e a comunicação assertiva. É aí que reside grande parte do segredo do sucesso profissional e pessoal.
Recentemente celebraste os 20 anos do Private Show com concertos e novas músicas. Sentiste que ainda há muito por dizer?
Nunca fiz música por achar que tinha muito para dizer. Reajo apenas aos estímulos e impulsos que me inspiram. Como afirmei anteriormente, aprendi a escutar o meu instinto. E, acima de tudo, faço o que me traz felicidade.
Muitas vezes as canções nascem de dor ou urgência — hoje, o que é que te faz querer cantar?
Neste momento, a minha actividade como músico está muito restrita a eventos isolados, apenas no sentido de matar saudades. O meu percurso profissional na música já encerrou o seu círculo. O que não quer dizer que, no futuro, não me sinta inspirado a criar novamente. Não há tempo nem idade ideal para se criar arte.
Que espaço vês hoje para o R&B cantado em português? Há uma nova geração pronta para o levar adiante?
Ainda me parece uma área subdesenvolvida e subexplorada. É normal, porque é um género muito específico da cultura americana. Mas acredito que, em breve, teremos o desenvolvimento de um R&B com alma luso-africana, mais genuíno, e espero ter feito uma modesta contribuição para esse fim.
O Azagaia foi uma das vozes mais intensas da música de intervenção em Moçambique — e no mundo lusófono. Nunca chegaram a colaborar, mas, se ele ainda estivesse entre nós, e tivesses a oportunidade de partilhar com ele uma música, uma letra ou até só um silêncio, como imaginas que seria esse momento?
Acho que seria uma experiência muito interessante. É bom partilhar o processo criativo com pessoas inteligentes, com conhecimento e com uma visão do mundo larga e profunda. Tenho pena de não ter tido oportunidade.
Em Moçambique continuas a ser uma referência viva — há quem ainda saiba de cor as tuas letras e se emocione com a tua voz. Que palavras gostarias de deixar a essas pessoas que, mesmo longe, nunca deixaram de te ouvir?
Muito obrigado pelo carinho e por partilharem comigo as mesmas frequências, comungando das mesmas vibrações.
Por fim, que herança queres deixar? Não só como músico, mas como homem, pai e cidadão?
Não faço questão de deixar qualquer herança. Como pai, espero ter deixado à minha filha as ferramentas para ter uma vida plena, feliz e realizada. Como cidadão, espero ter deixado um bom exemplo de cumprimento, mas também de censura e activismo. Como homem, a minha esperança é ter feito mais bem do que mal, que a minha influência tenha trazido felicidade. Mas, no cômputo geral, somos apenas um grão de areia no grande esquema do universo.
