Muito antes das redes sociais, dos streamings e da indústria olhar para o rap como produto, havia jovens que ocupavam ruas, esquinas e pistas de dança movidos apenas pela paixão pela cultura hip-hop. Entre eles estava Gina Pepa, uma das primeiras mulheres a conquistar espaço num meio dominado por homens e marcado por preconceitos, resistência e improviso. Nesta conversa com a Xonguila, revisita os primeiros anos do rap em Moçambique, fala das pressões que enfrentou, das referências que a marcaram e da forma como hoje olha para a música, não apenas como entretenimento, mas também como ferramenta de influência e transformação social.
Quando começou, o hip-hop em Moçambique ainda estava a ganhar forma. Que memórias guarda desse início, antes de tudo ter nome e estrutura?
São várias as memórias que guardo sobre o início do rap em Moçambique. Os Rappers Unit eram um grupo de jovens, amigos e vizinhos que muito fizeram pelo rap em Maputo. Todos nós tínhamos muito amor pela arte e, para além de gravarmos música, organizávamos vários eventos como festas de hip-hop, shows na discoteca Long Beach, no actual SNJ, fizemos parcerias com o básquete nacional e criámos uma fusão de básquete e rap show. Participámos também em espectáculos internacionais com artistas como os Black Company e Boss AC. Havia muito movimento juvenil aos finais de semana pelas ruas da cidade de Maputo, em actividades ligadas ao rap. Jovens vestidos de forma característica, com calças largas, camisetas grandes e rádios de cassetes, porque ainda nem tínhamos chegado à era dos CDs, juntavam-se “na esquina da zona” e faziam as famosas rodas de freestyle. Lembro-me que, nessa altura, já estávamos a interagir com jovens praticamente de todo o país através de programas radiofónicos como o Hip Hop Time, da Rádio Cidade, e até televisivos, como o Ritmo Vivo, da TVM. Eram jovens muito comprometidos com o rap, e isso era muito bonito de ver.
Passou da dança para o rap numa fase em que quase não havia referências femininas. O que a fez dar esse passo?
A minha transição da dança para o rap aconteceu porque o grupo de dança se desfez. Eu tinha o bichinho da arte dentro de mim e precisava de fazer alguma coisa, não podia deixar a arte morrer dentro de mim. Foi então que um vizinho meu, o Nitó MC, que costumava ouvir-me cantar da varanda do primeiro andar da minha casa, convidou-me para ir à discoteca Long Beach curtir uma tarde dançante de rap. Foi ali que começou a minha carreira musical, numa tarde de domingo, em 1994. O maior desafio da época foi a discriminação, porque praticamente não existiam referências femininas no mercado.
Ser mulher num espaço dominado por homens traz desafios próprios. Qual foi o preconceito mais subtil que sentiu ao longo do caminho?
O preconceito mais subtil pelo qual passei, por ser a única mulher num meio de homens, foram os nomes vulgares com que me apelidavam. A sociedade criticava-me muito, achando que eu não cumpria com os deveres de menina em casa, porque estava sempre “nas ruas” rodeada de rapazes. Havia quem pensasse que eu me envolvia com esses rapazes ou que fazia uso de álcool e drogas para ter coragem de subir a um palco e encantar uma multidão com “as barras que cuspia”. Confesso que a pressão chegou a ser tão grande que, por várias vezes, pensei em desistir. Felizmente tive muito apoio moral dos meus amigos e foi isso que me impediu de abandonar o rap.
O hip-hop dos anos 90 tinha uma energia muito própria. Hoje, olhando para a cena actual, o que sente que se transformou de forma mais profunda?
O hip-hop é uma cultura. E dessa cultura fazem parte o DJ, o MC, o B-Boy e o Graffiti. Nesse universo havia também toda uma forma de vestir, o dressing code dos rappers dos anos 90, as beggy jeans e aquele estilo característico. Sinto que essa cultura visual foi-se perdendo ao longo do tempo. Ainda existem alguns undergrounds, como o Drácula, que continuam fiéis a essa essência, mas são poucos.
O nome “Pepa” nasce de uma referência internacional. Como vê hoje o equilíbrio entre influências externas e identidade moçambicana no rap?
Hoje ainda se vê alguma influência externa, sobretudo entre os newcomers que fazem trap. Mas, de uma forma geral, os Old School estão muito criativos e a construir uma identidade própria do rap português-moçambicano, o que é bonito de ver. Durante algum tempo houve rumores de que o rap moçambicano estava a morrer. Muitos grupos desfizeram-se, muita coisa perdeu força. Mas agora vemos novamente grupos a surgir, jovens cheios de feeling e com um vocabulário impressionante. Estamos numa fase em que o rap moçambicano já tem identidade própria e energias que dão gosto de ouvir e sentir.
Houve algum momento em que pensou afastar-se da música? O que a fez continuar?
Houve momentos em que não apenas pensei, mas afastei-me literalmente da música. Muito por causa das minhas ocupações profissionais e das responsabilidades como mãe e dona de casa. O que me fez voltar foi definitivamente o amor que tenho por esta arte.
Ao longo do seu percurso, que mulheres tiveram um papel marcante na forma como pensa e cria, dentro ou fora da música?
A minha falecida mãe, Alzira Fernando, teve um papel fundamental na criação do ser humano em que me tornei, nos princípios, na conduta, na modéstia e no espírito trabalhador. Musicalmente, tive como fortes referências a Rah Digga e Lauryn Hill. Não sou muito ligada à política, mas enquanto adolescente tive o privilégio de conviver um pouco com Graça Machel, quando era ministra da Educação, e admirei-a bastante.
O reconhecimento dentro da cultura veio com o tempo. Lembra-se do momento em que sentiu que já não precisava de conquistar respeito?
Penso que, mesmo depois de conquistarmos respeito, temos sempre de encontrar formas de o manter, porque conquistar apenas não é suficiente. Mantive esse respeito com muito trabalho, em cada performance e em cada música gravada. Não consigo precisar exactamente o momento, mas foi já quando comecei a seguir a minha carreira a solo, depois dos Rappers Unit e da Track Records. Antes, éramos nós próprios que organizávamos os shows apenas para nos divertirmos. Mais tarde, os promotores começaram a organizar eventos e eu passei a receber convites para actuar com cachets pagos.
Aos 50 anos, o que é que mudou mais em si enquanto artista, não na técnica, mas na forma de olhar para a música e para o mundo?
Aos 50 anos, já não olho para a música apenas como um bom som ou uma boa melodia para dançar e cantar. Hoje vejo a música como um forte instrumento educacional e até como uma forma de resolução de conflitos através das mensagens que podemos transmitir. Com a liberdade de expressão que temos, podemos influenciar positivamente a juventude, não apenas dentro da nossa sociedade, mas a nível mundial. “Ouve as mentiras da verdade… ouve povo no poder e diz-me… Quantos milhares de jovens não estão a seguir até hoje estas falas do Mano Aza?” É assim que vejo o Rap hoje. Como uma ferramenta capaz de ajudar na resolução dos conflitos da nossa sociedade. Com o legado que deixamos ao longo de mais de 30 anos de carreira, acredito sinceramente que é possível salvar uma juventude através da música.
Se pudesse falar directamente com uma jovem que hoje está a começar no mundo do rap, sem romantizar o caminho, o que lhe diria?
A primeira coisa que eu diria seria: “Não fiques à espera de encontrar algum cavalheiro neste rap game.” Terás de lutar com todas as tuas forças para te manteres firme no game, taco-a-taco ao lado de homens que irão competir contigo de igual para igual. Precisamos esquecer, por alguns momentos, que somos mulheres e ir atrás das coisas por nós mesmas.
