Há presenças que nos atravessam antes mesmo da primeira palavra — invocam, abrem caminho, rasgam o silêncio. Fattú Djakité é uma dessas raridades. Filha da Guiné-Bissau, crescida em Cabo Verde, traz no corpo as marcas da travessia e no canto o peso da memória. A sua música não é apenas som: é resistência tornada linguagem, gesto de cuidado, escudo e semente. Fattú canta o que muitos não ousam nomear. Fala de casamento forçado, de mutilação genital, de infância roubada. Sobreviveu ao silêncio — dos outros e do seu — e hoje transforma feridas em gritos de alerta. Neste momento marcante da sua vida, onde a maternidade, a luta e a criação se entrelaçam sem pedir licença, sentámo-nos com ela para escutar a mulher por trás da voz.

A tua presença impõe-se antes mesmo da primeira nota, e carrega memórias, raivas, esperanças e feridas antigas. Quando é que percebeste que a tua forma de estar no mundo era, por si só, uma linguagem de resistência?
Acho que, desde sempre, mesmo sem saber que era um acto de resistência. Resisti desde o primeiro dia em que saí da Guiné-Bissau, ainda criança de cinco anos. Fui para Cabo Verde e resisti a adaptar-me, resisti sempre que sofri racismo — pela minha cor, pela situação política do meu país, pelo lugar de onde eu vinha. Na escola, diziam que eu era a que defendia os mais fracos. Sempre me vi assim, não só por causa do sítio de onde vim, mas também por causa de quem me criou. A minha avó deu-me esse espírito. Cresci numa casa que não era minha, onde tinha de limpar e trabalhar desde cedo para ser aceite. Tinha de dar o meu best na escola para ser notada — ou tentar ser invisível. Acho que sempre fui resistente.

O que é que só a Guiné-Bissau te deu — e que levas para todos os palcos do mundo?
Uau, que pergunta… O que é que a Guiné-Bissau me deu? Foi a minha guinendade, que nunca saiu de mim. Nunca, nunca mesmo. Saí da Guiné-Bissau com cinco anos de idade, mas posso dizer: o crioulo da Guiné… é algo resistente. Falo com muito orgulho, porque já vivo há trinta anos em Cabo Verde e ainda consigo falar muito bem o crioulo da Guiné, cantar em crioulo da Guiné. Acho que o crioulo, a cultura da Guiné, a comida da Guiné, a maneira de ser do guineense — tudo isso nunca sai de nós. E eu expresso isso sempre: quando estou mais chateada ou mais feliz, solto um crioulo da Guiné. Acho que é isso.

Cresceste entre ilhas e raízes. Em que momento sentiste que eras mais do que uma “visitante” da tua própria identidade?
Acho que levou tempo até eu perceber que não era apenas uma visitante da minha identidade. Foi quando aceitei as minhas duas identidades, porque sempre cresci a ouvir: gostas mais da Guiné ou de Cabo Verde? Sentes-te mais guineense ou cabo-verdiana? Hoje consigo responder. Mas tive de fazer muito trabalho de auto-estima e amor-próprio para poder afirmar: não sou só uma visitante aqui. Isto também faz parte de mim. Não dá para falar de mim sem falar destes dois países. Sinto-me cabo-verdiana pela vivência — conheci todas as ilhas através da música. Uma badia criou-me, a minha avó. Ela não é de sangue, mas foi viver para a Guiné-Bissau e ficou lá 25 anos. Adoptou a minha mãe, e nós tornámo-nos filhos dela. Depois, o marido morreu, ela voltou para Cabo Verde e mandou-nos buscar. Tive várias fases: a de não saber quem era, a de sentir vergonha… e a de aceitar quem sou. Hoje, quando digo que sou guineense e cabo-verdiana, sinto isso verdadeiramente. Já carreguei no ventre um cabo-verdiano, o meu marido é cabo-verdiano, cresci em Cabo-Verde com a minha avó. Sinto um amor enorme, eterno, por este país onde vivo — mas sem perder a essência do meu país, que é a Guiné. Essa raiz está na minha alma e não se apaga.

Entre Bissau e Mindelo, o que é que nunca coube na mala?
Ó, bom, se calhar a melhor pergunta seria entre Bissau e Praia, porque vivi grande parte da minha vida na cidade da Praia e estou em Mindelo há menos de cinco anos. Acho que o que nunca coube na mala foi a minha família toda. Se pudesse, levava todos comigo, principalmente os que estão na Guiné-Bissau. É do que sinto mais falta, mais saudade. Também há essa ausência da infância, de não viver realmente onde nasceste. Foi algo muito forte e difícil de digerir para mim. Então é isso: queria conseguir meter toda a minha família numa mala e levá-los comigo para onde fosse.

Se os teus avós pudessem ouvir o teu último single, o que achas que diriam?
Uau. Eu acho que se orgulhavam de mim, se orgulhavam de ter uma pessoa na família que toca nessa ferida, que não só abala um pouco a minha família, mas também muitas famílias da Guiné-Bissau que passam ou já passaram por essa situação do casamento forçado infantil. É algo que aconteceu na minha família. Eu soube disso depois de ter cantado a música, quando fui gravá-la na Guiné-Bissau. O meu pai contou-me então a história de uma tia que foi forçada a casar, levada para outro país, e acabou por falecer nesse país. Nunca mais souberam exactamente o que lhe aconteceu. Por isso, acho que eles podiam sentir-se orgulhosos por ter uma pessoa que toca nesta ferida.

A tua música é um manifesto em forma de melodia. Já alguma vez tiveste medo do silêncio — o teu, ou o dos outros?
Já sim. Senti muito medo do meu silêncio, porque muitas vezes me senti afogada, sufocada por ele. Sofria muito em silêncio. E também há o silêncio dos outros. Para mim, o silêncio é uma forma de violência. Cresci num ambiente em que o silêncio era usado para resolver as coisas. Quando fazias algo errado, não havia conversa — havia silêncio. E isso é perturbador. Lidar com isso trouxe-me problemas sérios. Mas hoje sinto que consigo gritar. Já fiquei demasiado tempo em silêncio.

Gravaste um disco enquanto eras mãe recente. Como se escreve canções com uma criança ao colo e um mundo às costas?
Na verdade, quando gravei o disco, em 2017, estava grávida de seis meses do meu primeiro filho. Lembro-me de sentir que não estava sozinha. Eram dois corpos, dois corações numa só pessoa a gravar aquilo. Senti uma força. Mesmo com o bebé no ventre, ao colo ou às costas, sentia que era mãe do mundo. Não sabia o que seria aquela criança, nem o sexo — e veio um rapaz. Mas a sensação era muito forte. Talvez até hoje eu não saiba explicar bem o que é gravar um disco com um bebé ao colo. Já neste segundo single, não tinha bebé ao colo, mas dois filhos. E a pensar no futuro deles. Porque, quando tens um filho, queres transmitir uma mensagem melhor ao mundo. A responsabilidade é outra. Já não atiras qualquer palavra para qualquer lado.

Qual foi a letra mais difícil de terminar? E a que ainda não tiveste coragem de escrever?
É uma letra sobre mutilação genital, que já é proibida na Guiné-Bissau, mas ainda precisa de muita sensibilização. Continua a acontecer em várias tabancas, longe dos olhos das pessoas. Já comecei a escrevê-la várias vezes, mas ainda não consegui terminá-la. E a que ainda não tive coragem de escrever é sobre o que se passou comigo quando era criança — sofri abuso sexual. Hoje já consigo falar sobre isso. Tenho até um canal de transmissão no Instagram, o Previne Abuso Sexual, onde partilho esse tema. Já fiz podcasts. Mas escrever sobre ainda não. Talvez precise de pensar mais, porque não quero que seja só chocante — quero que eduque, que sirva como prevenção.

A tua criação é corpo, voz, memória, luta. Quando uma canção começa a nascer, o que é que te move primeiro — a raiva, a ternura, o silêncio, o impulso?
Acho que depende muito do contexto. Mas já escrevi muito por impulso. No silêncio também nasceram letras completas — quando sinto algo forte e preciso de o pôr em música. Quando estou sozinha, no meu mundo de reset, de hibernação, saem as melhores canções, os melhores poemas. A raiva… às vezes evito escrever nesse estado. Muitas letras que escrevi com raiva, nunca as cantei. Não tive coragem de lhes dar voz. Mas fazem parte. E ainda bem que consegui pô-las no papel.

A tua estética é política. Achas que o cabelo, a roupa, o corpo, ainda são campos de batalha?
Com certeza. Digo isso como mulher negra. A minha pele já é um campeonato — como disse a Nene, “a minha cor de pele é um campeonato”. Para estar aqui hoje, livre a falar, a mostrar os meus penteados, o meu vestuário, a minha dança — foi preciso muita resistência. Já me odiei tanto, tanto… o cabelo, o corpo, a cor, as feições. Mas hoje aceito tudo em mim com uma força tão gritante que nem sei explicar. Faço isso como acto de resistência e para que meninas, principalmente crianças, se sintam representadas. Porque muitas vezes não vi mulheres como eu no poder. Quando estou em palco, quero mostrar uma rainha. E quando uma menina me diz: “Fattú, eu gosto muito de ti. Eu sou a Fattú Djakité que tem fogo para mim” — isso já é guerra. E estamos a ganhar. Pouco a pouco, estamos a ganhar a batalha.

O que te doeu mais — reconhecer que ‘Badja Tina’ precisava de existir, ou encontrar força para transformá-la num grito firme, num lugar onde tantas ainda escolhem o silêncio?
Acho que foi encontrar forças para transformá-la num grito firme, porque isto acontece há muito tempo. Desde cedo, vi casos de casamento forçado infantil. Lembro-me da minha avó dizer: “Ainda bem que vives em Cabo Verde, porque na Guiné-Bissau, a partir da menstruação, dão-te um ano ou dois e casam-te logo.” Era um pavor pensar que, ao regressar, podia ser casada com qualquer velho. Sempre foi o meu medo — não só por mim, mas por outras meninas. Tenho irmãs e sobrinhas que ainda vivem lá, onde se ouvem coisas como: “Olha, vê lá o teu marido.” Isso abre portas para a violência — não só o casamento forçado, mas também a violência sexual. É muito triste. Escrever sobre Badja Tina foi difícil. Foi duro pensar. Mas a música saiu de forma fluída. Tive ajuda de colegas, escrevi, gravei o clipe, e consegui mostrar essa realidade. Hoje sinto-me feliz por conseguir falar sobre isso. As pessoas estão a ouvir. E muita gente se aproxima — não só pela canção, mas pela causa. Então, fogo! Eu hoje sinto-me feliz por conseguir falar sobre isso. As pessoas estão a ouvir no mundo, estão a abrir portas e muita, muita, muita gente se aproxima não só pela canção, mas também pela causa.

O público moçambicano tem caminhado contigo, canção após canção, com uma escuta atenta e coração aberto. O que é que gostarias de lhes dizer — não como artista, mas como mulher que se sente vista e acolhida desse lado do palco?
Muito obrigada ao público moçambicano. Moçambique é um dos meus sonhos. Tenho vários amigos em Moçambique e queria muito, muito, muito, conhecer. O que tenho a dizer é: sejam fiéis ao que sentem, fiéis aos vossos ideais, ao que acreditam. Sejam fiéis à vossa consciência e corram atrás do vosso sonho, do que acreditam, sem medo.