Em entrevista exclusiva à Xonguila, o famoso comediante brasileiro Fábio Porchat fala de si, revelando ter já em perspectiva fazer um show em Moçambique.
Conte-nos como foi a sua juventude. O que o levou a optar por este percurso? Acredita que já se nasce humorista?
Olha, curiosamente, eu nunca quis ser actor, nunca tive esse sonho de pequeno, apesar de desde criança eu sempre gostar muito de teatro, não só de ir ao teatro, mas de fazer teatro, cursos de teatro, me apresentar na frente das pessoas. Eu tinha um teatro de fantoches que o meu avô me deu, eu criava histórias, botava todos os primos para apresentarem. Então, olhando hoje, obviamente eu queria ser, né? Estava ali em mim, eu já era uma pessoa assim, eu era muito exibido, eu adorava aparecer, adorava ser o centro das atenções.
Eu acho que não se nasce humorista, mas entendo que o entorno vai tornando o teu olhar mais virado para o humor. E eu percebia, quando era criança, que, quanto mais eu fazia piada, contava uma história que era engraçada, mais os adultos prestavam atenção em mim, mais as conversas nas rodas adolescentes. Sempre que a minha história, ou o meu causo [o meu conto] tinha algum tipo de comédia, as pessoas ficavam mais tempo me ouvindo, me observando, e queriam mais saber das coisas. Então acredito que eu usei o humor a meu favor por conta disso. Como eu era exibido e queria muito que as pessoas prestassem atenção em mim, eu percebi que com o humor eu conseguia fazer isso. E sempre gostei muito de assistir [a] coisas de humor, séries de humor, filmes de humor, lia coisas de humor. Eu adorava livros de piada do Casseta & Planeta, do Ary Toledo, eu sempre li muito tudo isso, desde pequenininho até adolescente. Eu li os livros do Obrigado Esparro, que é um grupo aqui do Brasil. Então eu sempre consumi humor, então o humor estava na minha vida, e eu acho que acabou que eu só fui perceber com 19 anos, mas antes tarde do nunca, né?
“Eu nunca imaginaria que Moçambique fosse saber quem eu sou, e fico muito feliz de estar podendo falar agora com vocês, estar podendo falar com o público de Moçambique e de já botar na minha perspectiva Moçambique para fazer um show.”
O Fábio é um sucesso no Brasil, em Moçambique, em Portugal e nos restantes países lusófonos. Como olha para esta ligação que a língua portuguesa permite um pouco por todo mundo?
A primeira vez que eu fui fazer show em Portugal, em 2013, eu fui apavorado, não sabia se eles iam gostar, se eles iam saber quem eu era, se eles iam entender o meu tipo de humor, e aí tomei um susto quando eu descobri que o Porta dos Fundos era muito assistido lá e eles adoravam. E cada vez mais eu vou tomando sustos e sabendo que, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, tem pessoas que gostam, que assistem, que ouvem, e cada vez mais. Ainda mais por conta dos programas de TV que passam em todos esses países, eu vou percebendo a força que é. Então, eu nunca imaginaria que Moçambique fosse saber quem eu sou, e fico muito feliz de estar podendo falar agora com vocês, estar podendo falar com o público de Moçambique e de já botar na minha perspectiva Moçambique para fazer um show. Porque, no fim das contas, é muita gente, somos muitos falantes de português, e como as novelas da Globo – e o conteúdo da Globo sempre chegou, e até os da Record, agora com a Record na África –, também chegaram muito fortes para esse público de fora...
O Brasil não consome a cultura de Moçambique, de Angola e Portugal, mas esses países consomem a cultura brasileira. Eu acho que a gente, inclusive, precisava de ouvir mais, ler mais e ver mais. Claro que, tudo bem, Mia Couto a gente lê, e outros autores, mas não o humor, por exemplo. Não chega para a gente, né?
Como foi a sua experiência em África? Podemos contar com uma visita a Moçambique em breve?
Eu já fui à África algumas vezes, não só para o Norte, na África muçulmana, na África árabe, mas também fui ali para Quénia, Tanzânia, Ruanda, fui muito fazer uns safaris, fui para África do Sul, e sempre tive um desejo de ir para Moçambique, ainda mais porque as pessoas falam que as praias são as coisas mais lindas que tem. Agora, sabendo que o povo de Moçambique, assiste, vê, consome e entende o meu tipo de humor, eu fico animadíssimo para fazer um show em Moçambique, e já estou me arquitectando planos para me apresentar em Moçambique e aproveitar e passar férias, né? Porque não?
Inteligência é essencial para se fazer comédia de qualidade?
Eu acho que para se fazer o humor de qualidade, mais do que inteligência – e claro que inteligência é bom para tudo, não só para o humor –, é bom estar conectado com o que está acontecendo ao seu redor. Eu acho que isso é o mais importante: ter o olhar muito atento para tudo o que está influenciando, informando e atravessando o seu quotidiano, a sua sociedade, e você, sabendo quais são as questões, os problemas, as dificuldades do seu público, você consegue atingi-los com muito mais força, então mais essencial é estar conectado.
É possível fazer humor com todos os temas, até com os mais sensíveis? Considerando o poder que o humor tem, que responsabilidades acarreta para a sociedade?
O humor tem muito poder, tanto é que, se você xinga uma pessoa, talvez essa pessoa vá embora, mas, se você ridiculariza ela, ela quer bater em você, porque o humor vai em lugares e chega de forma mais potente em lugares mais difíceis e, por isso, acho que sim, tem que se fazer humor com todos os temas, e, inclusive, com os mais sensíveis. É claro que eu estou falando isso aqui, mas nada que seja criminoso, nada que esteja proibido na Constituição. Tirando todo o tema sensível, difícil e complicado, tem que ser feita piada, porque nada se pode tornar sagrado, porque, se uma coisa se torna sagrada, ela vira lei, vira regra e vira um monstro, e esse monstro vai engolir a todos nós. Acho que uma das funções do humor, primeiro, é fazer rir, obviamente, mas, depois disso, é desconsertar todas as verdades, os tabus e aquilo que a gente acredita ser intocável, e eu acho que é o humor que tem que tocar em todos esses temas.
Alguma vez pensou em criar um partido? Entrar na vida política?
Deus me livre de entrar na política, Deus me livre de criar um partido. Eu acho que sou político sendo como sou, me manifestando, dando as minhas opiniões, tanto na internet como na minha comédia ou nos meus conteúdos. Eu acho que fazer política é se posicionar também, ainda mais hoje em dia no Brasil de hoje. Com esse troço que a gente tem na Presidência, a gente precisa de lutar contra pessoas que não têm o menor respeito, empatia pelo outro, a menor tentativa de fazer com que todos se sintam bem. Ao contrário, é uma pessoa que se vinga dos outros, que tem ódio, raiva, e uma pessoa dessas não pode governar nenhum país, ainda mais um país com 220 milhões de pessoas tão diferentes, não é?
Sabemos que o teatro e o cinema são partes importantes na sua carreira. Quais destas actividades gosta mais de fazer? E como ocupa os seus tempos livres?
Olha, a verdade é que gosto muito do que eu faço, e faço muito do que gosto, então cinema, teatro, televisão e internet… Eu vou tendo ideias, eu sou uma pessoa em que a cabeça não pára de funcionar. Então, eu começo a ter muitas ideias, não necessariamente boas ideias, mas tenho muitas ideias e gosto de botá-las em prática. Do que eu mais gosto é do teatro, porque o teatro é ao vivo, o público está ali, é quente. Ele responde na hora, você tem o contacto com gente, e eu gosto de gente, mas, no fim das contas, cada ideia pode-se encaixar num formato diferente, pode significar uma coisa diferente. E, no fim das contas, eu acabo ocupando o meu tempo livre eu viajando, que, no fim das contas, é mais material para as minhas histórias, minhas peças e afins. E tudo aquilo que é assistir filmes, séries, ler livros, para mim isso, no fim, é meio trabalho, porque eu trabalho com isso, eu não consigo me desconectar. Quando eu estou vendo um filme, eu estou analisando roteiro, estou vendo a direcção, eu estou vendo aqueles actores actuando, eu estou vendo a construção de uma série, como é que funciona… Então, o que é diversão para todo o mundo, para mim também é diversão, mas também é trabalho.
Considera que rir ainda é o melhor remédio?
Precisamos rir sempre, rir é o que nos sobra, no fim das contas rir a gente consegue fazer sozinho, a gente consegue fazer em grupo, é de graça, nos salva de toda a desgraça que é a vida, de todas as tristezas e injustiças que 99% da população do mundo enfrenta. Então, no fim das contas, rir é uma coisa que lava a alma, que é como a gente diz no Brasil. É uma coisa que vem de dentro, que faz, naquele segundo, esquecer de tudo o que está em volta, de todos os problemas que estão fazendo a nossa vida ser tão difícil. Então, rir, com certeza, é uma grande meta e uma grande força que todos nós temos aqui dentro.
Quer deixar alguma mensagem ao povo moçambicano?
A mensagem que eu deixo para o público é: “Tô chegando hein! Alô Moçambique! E já-já estou chegando aí, com o meu show novo de stand-up, e espero que vocês sejam tão calorosos quanto eu já estou imaginando. E espero que vocês me recebam de braços abertos, como me recebem pela internet, nos comentários, nas mensagens. E eu já quero conhecer Moçambique todo, vocês vão me ajudar? Vão me levar para conhecer tudo? Para comer as comidas boas, para ir para a praia, para conhecer cada cantinho daí? Já-já estou aí, minha gente.
Nesta entrevista é mantida a variante linguística do Português do Brasil nas respostas de Fábio Porchat.
Porta dos Fundos é um colectivo criativo fundado em 2012 por Antonio Tabet, Fábio Porchat, Gregorio Duvivier, João Vicente de Castro e Ian SBF. O que começou despretensiosamente, com um grupo de amigos em busca de liberdade criativa, hoje é uma produtora consolidada, vencedora do Emmy Internacional de Comédia em 2019, pelo Especial de Natal feito para a Netflix. É um dos maiores canais do YouTube Brasil, ultrapassando 5 bilhões de visualizações e 16 milhões de inscritos. Em Abril de 2019, chegou também ao México com o canal "Backdoor - Humor por donde no lo esperas", já com mais de 3 milhões de inscritos. O Porta dos Fundos tornou-se uma referência em entretenimento multiplataforma, actuando em séries, filmes, branded content, entre outras produções, estabelecendo parcerias com empresas, canais de TV e plataformas de streaming. (https://www.youtube.com/c/PortadosFundos/about)
