Como as melodias de Cabo Verde, os ritmos de Portugal e a arte de França se entrelaçam e reflectem a sua identidade musical? E de que forma a espiritualidade e a Igreja se reflectem nas suas composições e letras?
A minha identidade musical é uma fusão natural dos ritmos de Cabo Verde, devido à herança do meu pai e à música que sempre ouvi em casa, com a influência da minha formação em Portugal, onde cresci e estudei música, e da minha experiência em Paris, onde interagi com músicos e grupos franceses. Essas influências entrelaçam-se de forma intuitiva na minha arte, reflectindo uma mistura inconsciente de cada cultura. A minha espiritualidade e a educação na Igreja, assentes em valores bíblicos, influenciam profundamente quem sou e, consequentemente, as minhas composições e letras. Esta influência manifesta-se de modo particular no meu último disco, "Declive", inspirado em parábolas, com histórias que variam entre o pessoal, o inventado e o real. A música reflecte também traços de gospel, fruto da minha exposição a este género e das minhas convicções cristãs, traduzindo-se numa expressão de espiritualidade e, por vezes, num desabafo com Deus.

De que forma se infiltram e ressoam as metáforas e símbolos nas suas letras, e como navega e funde diferentes géneros musicais para esculpir um som que é inconfundivelmente seu?
A inserção de metáforas e símbolos nas minhas letras deve-se em grande parte ao Tota, o principal letrista. Através de um processo colaborativo intensivo, repleto de conversas e partilhas pessoais, dedicamos bastante tempo à elaboração das letras, especialmente na incorporação cuidadosa de metáforas e símbolos que se alinham com o conceito do disco. Este trabalho meticuloso do Tota, focado em manter a minha identidade musical enquanto se enriquece o imaginário do disco com referências variadas, é fundamental para criar um som distinto e inconfundível.

Como sente a recepção do seu trabalho em países lusófonos como Moçambique? 
Através das redes sociais, percebo o interesse pelo meu trabalho em países lusófonos como Moçambique, embora tenha uma relação ambivalente com as estatísticas do Spotify. Valorizo mais as mensagens directas dos fãs moçambicanos. A realidade do impacto da minha música torna-se palpável nos concertos, incentivando-me a desejar visitar Moçambique para entender melhor a recepção do meu trabalho. Ainda não tenho planos concretos para uma tournée ou concertos em Moçambique, mas estou entusiasmado com a possibilidade de agendar datas. Os fãs moçambicanos podem esperar uma experiência vibrante que combina elementos orgânicos como percussões, guitarra clássica e eléctrica, teclados, e vozes, com aspectos electrónicos, incluindo sintetizadores e vários efeitos. É uma fusão interessante que reflecte a união de dois dos meus mundos: o orgânico e o electrónico, prometendo uma performance diversificada e envolvente.

Fale-nos da sua jornada no conservatório. Como é que a formação clássica influenciou o seu estilo actual?
A minha formação clássica abrangeu os Conservatórios de Aveiro e Coimbra, onde estabeleci relações próximas com professores influentes como Miguel Lélis, Graciano Pinto e André Madeira. Essas experiências e as participações em concursos de guitarra moldaram não só a minha habilidade musical, mas também o meu carácter pessoal. A educação clássica incutiu em mim a importância do som, da precisão e do controle, princípios que aplico rigorosamente, inclusive na produção e mistura musical. A formação clássica também desenvolveu a minha elasticidade musical, ensinando-me a explorar dinâmicas e tonalidades variadas, ligando expressão e técnica desde cedo. Esta base educacional fortaleceu a minha convicção na importância da educação musical, algo que recomendo vivamente aos pais para os seus filhos, agradecendo profundamente o incentivo que recebi dos meus para seguir este caminho.

Pode partilhar o processo criativo por detrás do seu álbum "Declive" e o que quis transmitir com este trabalho?
O álbum "Declive" foi criado com Pedro da Linha, na produção, e Tota, na escrita, enfrentando desafios logísticos devido à distância entre Lisboa, Albergaria e Paris. A produção envolveu intensa colaboração digital e residências artísticas em locais como Madeira e Póvoa de Varzim, culminando num processo de descoberta sonora que excedeu as minhas expectativas. O disco aborda temas de saúde mental, tornando-se um processo terapêutico tanto na criação musical como na escrita das letras. Almejei que "Declive" tivesse um efeito terapêutico nos ouvintes, reflectindo a sua natureza sensível e as variações entre momentos calmos e intensos, algo que felizmente foi partilhado por muitos que encontraram conforto em sua escuta.

Nos últimos anos, recebeu uma série de reconhecimentos significativos. Como gere todas estas emoções e expectativas em tão pouco tempo?
Na verdade, é uma sensação muito estranha às vezes, porque eu sinto que o meu projecto, por vezes, está tão próximo de mim e, outras vezes, tão longe. Por exemplo, eu vou a Portugal tocar e depois venho para casa, em Paris, e estou fora. Eu tento desligar-me também bastante do trabalho que fica em Portugal, e isso acaba por criar uma sensação que eu aprecio. Não ouço a minha música na rádio aqui, não vejo muita coisa a acontecer, então acaba por ser uma sensação engraçada. E acho, também graças a isso, que eu consigo gerir tudo isto muito mais facilmente. Não que eu tenha uma fama muito grande, mas, para mim, sempre foi muito complicado gerir a exposição. Não é? Mostrar o meu projecto para várias pessoas, expor-me um pouco musicalmente, e isso acaba por me salvaguardar um pouco. Quando estou em casa, volto a passear o meu cãozinho, estou a andar de skate, estou a fazer música, então desligo um pouco.

Tem interesse em explorar a música tradicional moçambicana ou colaborar com artistas locais?
Estou muito interessado em explorar a música tradicional, incluindo a moçambicana, e em colaborar com artistas locais, pois considero isso enriquecedor. A música reflecte o ADN cultural, e a minha curiosidade sobre as diversas culturas é infinita. Gostaria de visitar Moçambique para estabelecer uma ligação directa com o país e seus artistas antes de iniciar quaisquer colaborações.

A literatura desempenha um papel na sua criação musical? Que autores ou obras o influenciaram particularmente?
A literatura influencia significativamente a minha criação musical, em grande parte devido ao trabalho do Tota, que se prepara lendo diversos livros para escrever as letras. Obras e filmes de Tarkovski, a Bíblia, e referências a Zeca Afonso, como em “Venham mais cinco”, são exemplos de influências literárias nos nossos temas. Portanto, a literatura desempenha um papel crucial na inspiração e elaboração das nossas músicas.

Enquanto artista emergente, quais foram os principais desafios que enfrentou até agora na indústria musical?
Transitar para um projecto musical próprio implicou abandonar a segurança financeira, apresentando-se como um desafio significativo num contexto de escassos apoios para artistas emergentes. Inicialmente, enfrentei dificuldades em estabelecer conexões na indústria musical, protegendo o meu projecto com tal zelo que, por vezes, poderia ter sido inadvertidamente desagradável com aqueles que pretendiam ajudar, fruto de uma desconfiança alimentada por histórias negativas sobre a indústria. Contudo, a experiência ao longo do tempo ajudou-me a discernir intenções genuínas, melhorando a minha capacidade de interagir com colegas e profissionais do sector, conduzindo a uma maior tranquilidade e resolução nestes aspectos.

Onde se vê daqui a 5 anos? Há algum objectivo específico ou sonho que deseje alcançar?
Daqui a 5 anos, espero continuar a dedicar-me à música, apesar dos seus desafios. Aspiro a superar a intensidade do processo criativo e das performances ao vivo, com o objectivo de continuar a alcançar e tocar o público. O meu sonho é que a música me permita viver de forma sustentável, proporcionando-me uma casa, alimentação e a possibilidade de viajar, mantendo a paixão de partilhar a minha arte ao vivo com as pessoas.