Ernesto, ao longo da sua trajectória literária, manteve-se sempre fiel ao compromisso com a cultura africana, que lhe valeu, inclusive, a alcunha de “Filho de África”. Como é que este compromisso influencia o processo de criação dos seus livros?
Num contexto onde a literatura e a cultura não são valorizadas, é sempre recompensador ser escolhido pelo destino para escrever e abordar temas que tocam profundamente a sociedade. Isso é particularmente significativo ao iniciar um caminho literário num ambiente de incertezas e escasso apoio. Tenho enfatizado que o fracasso dos nossos sonhos muitas vezes advém da falta de compromisso e humildade, um problema que nunca enfrentei, mesmo no começo da minha carreira. Vejo a poesia como uma terapia, uma forma de curar as feridas do passado e enfrentar as adversidades com renovada esperança. Considero a provocação da pergunta importante, pois oferece ao autor um espaço para expressar seus sentimentos. Para quem acompanha a minha jornada, é evidente que as minhas raízes africanas e o compromisso com as causas sociais, culturais e linguísticas estão profundamente entranhados em minha obra poética. Não consigo, nem desejo, me afastar dessas influências, pois elas formam uma ligação essencial entre o meu ser poético e o mundo ao meu redor. Resgatar e celebrar nossa identidade é fundamental para mim, reflectindo a essência do sofrimento humano e a busca por dignidade que define a minha voz e a minha alma. Sou, acima de tudo, um filho de África, comprometido em dar voz à verdade e ao espírito do nosso povo.
O seu livro "Liberta-te, Mãe África" foi recebido com grande entusiasmo pelo público e pela crítica. Pode partilhar connosco o que inspirou a escrita desta obra?
Desde o início, identifiquei-me como um escritor nato, orgulhosamente filho da Mãe África, apesar de sentir que foi esquecida por muitos. Cresci numa família humilde, sem grandes posses. A história da minha avó Albertina, presa e forçada à escravidão durante a guerra dos 16 anos em Moçambique, marcou-me profundamente, despertando em mim sentimentos de choque, raiva e revolta contra as atrocidades cometidas ao meu povo. A escrita tornou-se o meu meio de luta por justiça, uma forma de expressar, protestar e chamar a atenção para as injustiças, mostrando que a batalha pode ser vencida não só com armas, mas também através do poder da palavra e da literatura.
Foi galardoado com prémios, incluindo o 1º lugar no Prémio Segundo Varal Literário, e o 3º lugar no Prémio Machado de Assis. Como vê a importância destes reconhecimentos para a literatura moçambicana e africana no panorama internacional?
Nas minhas entrevistas, costumo afirmar que um escritor não se define pelos prémios, embora reconheça que estes trazem valor ao nosso trabalho. No início da minha carreira, o meu foco não era ganhar títulos, mas sim evidenciar a riqueza e a relevância do continente africano, frequentemente esquecido. A chegada dos prémios impulsionou significativamente a divulgação do meu trabalho no exterior, fazendo com que a minha literatura, inicialmente pouco difundida, ganhasse reconhecimento e chegasse a leitores de várias gerações. Esse reconhecimento abriu portas para a publicação dos meus títulos em diversos países, incluindo Estados Unidos, Colômbia, México, Portugal, Brasil e Itália, nas áreas de poesia, prosa e literatura infanto-juvenil.
A sua literatura é uma ponte para o diálogo intercultural. Quais são os maiores desafios que enfrenta ao abordar temas tão sensíveis e profundos?
Ser escritor em Moçambique, abordando temas sociais críticos, é um desafio que demanda grande resistência. Há o risco de ter textos não publicados ou rejeitados por editoras, muitas vezes não por falta de qualidade, mas por temores ou relutância dos editores em confrontar temas sensíveis que a elite prefere silenciar. Além disso, enfrentamos incertezas e a hesitação em reconhecer novos autores, entre outros obstáculos. Essas dificuldades me motivaram a buscar editoras internacionais, em parte para contornar a falta de apoio de instituições locais, como o Ministério da Cultura.
Os seus trabalhos foram traduzidos para diversas línguas, ampliando o alcance global da sua mensagem. Como se sente ao saber que a sua obra impacta leitores de diferentes culturas?
Publicar livros é, para mim, mais do que uma paixão; é uma responsabilidade que exige resiliência. O objectivo é sempre trazer obras impactantes, especialmente em uma região onde a leitura ainda não é um hábito comum. Ser reconhecido internacionalmente me motiva a continuar explorando as nuances do mundo através da escrita. Quanto às vantagens de publicar no exterior, elas incluem não apenas a possibilidade de venda da obra, mas também a oportunidade de se conectar com uma rede global de escritores, estabelecer parcerias produtivas, promover intercâmbios culturais, e, crucialmente, adquirir experiências e conhecimentos que enriquecem minha poesia.
Pode partilhar connosco algum projecto literário em que esteja a trabalhar actualmente e o que podemos esperar dele?
A analogia da canção de Leandro Borges, que aconselha a manter os sonhos em segredo, reflecte bem a influência que opiniões externas podem ter sobre nós, algo que espero não me afectar. Comparo o processo de criação literária à gestação, onde após lançar uma obra, logo surge a necessidade de iniciar outra. Assim, prometo aos leitores mais publicações nos géneros de poesia e infanto-juvenil neste ano. Enquanto novos lançamentos não chegam, convido todos a explorarem minhas obras disponíveis na Amazon e nas livrarias locais. Aproveito para agradecer à equipe da revista Xonguila pela oportunidade e colaboração, bem como aos meus editores, tradutores, e leitores fiéis.
