Entrevista concedida pelo Embaixador da União Europeia em Moçambique, Antonio Sánchez-Benedito Gaspar, por ocasião da celebração do Dia da Europa, 9 de Maio, e das actividades da Semana da Europa 2021

Em que consiste o Dia da Europa?
O “Dia da Europa” nasceu no Conselho Europeu de Milão, havido em Junho de 1985, e foi celebrado, pela primeira vez, a 9 de Maio de 1986. O Dia da Europa é um dos símbolos da União Europeia (UE). A data vem já de 1950, quando Robert Schuman, então Ministro dos Negócios Estrangeiros de França, apresentou uma proposta com as bases fundadoras do que é hoje a UE. O Dia da Europa é assim assinalado anualmente para marcar a apresentação desta Declaração que destacava os valores de paz, solidariedade, desenvolvimento económico e social, equilíbrio ambiental e regional e incluía a criação de uma instituição europeia para gerir umas matérias-primas de importância central que tinham conduzido aos conflitos das duas guerras mundiais: o carvão e o aço. Passam hoje 71 anos, e a paz continua a ser uma realidade nos países da União Europeia. Estamos também empenhados em promover a paz além das nossas fronteiras. A UE defende uma visão de sociedade apoiada pela maioria dos cidadãos, com respeito pelos direitos humanos, com solidariedade, diversidade e harmonia entre a tradição e o progresso. Estes são também os valores que guiam os nossos laços com países parceiros como Moçambique, e com organizações internacionais como a União Africana, as Nações Unidas ou a SADC.

E a Semana da Europa, pelo segundo ano consecutivo em tempos de pandemia…
O leque de actividades agendadas visava uma aproximação entre as pessoas e entre as instituições, ainda que com limitações devido à pandemia da covid-19. Tivemos este ano actividades essencialmente em formato digital dada a limitação de aglomerados: as mesas redondas sobre educação superior e sobre comércio e economia ou as interacções com a sociedade civil foram eventos ao mesmo tempo virtuais e presenciais. O festival de cinema, a entoação dos hinos, a interacção entre voluntários, assim como a nossa mensagem central, dos Embaixadores dos países membros da União Europeia, e a mensagem de saudação do Governo de Moçambique pelo Dia da Europa foram eventos virtuais, com apresentação nas redes sociais, que atraíram a atenção duma importante audiência.

Quais eram as vossas expectativas para a edição de 2021? Conseguiram alcançar os objectivos da Semana?
Desde o início quisemos trazer ao público aquilo que é a Europa, a União e os seus Estados Membros, e o nosso engajamento em Moçambique e parceiros no país. A adaptação e a inovação foram chave em todas as iniciativas acolhidas. Algo diferente e que fizemos pela primeira vez foi o Suplemento publicado no Jornal Notícias, no dia 10 de Maio, que juntou relatos da cooperação entre Moçambique e a UE e com a Equipa Europa em áreas diversas, como a educação, as mudanças climáticas, a resposta à Covid-19, a luta contra o terrorismo e a promoção da estabilidade em Cabo Delgado. Tivemos um Menu Europa todo o mês de Maio no Restaurante Sal & Grafia, na Fundação Fernando Leite Couto, para dizer que a Gastronomia foi também importante na nossa celebração. Premiámos três obras no Concurso de Fotografia que lançámos justamente para celebrar o Dia da Europa e interagir com a camada mais jovem. Decorre ainda no Camões - Centro Cultural Português, até o dia 11 de Junho, a exposição fotográfica “Homo Urbanus Europeanus”, que mostra as formas peculiares de interacção entre o homem europeu e a sua cidade. Foi positiva também a interacção com as autoridades governamentais, a sociedade civil, o sector privado, os actores culturais, e é essa a essência da Semana da Europa!
 


“Desde o início  quisemos trazer  ao público aquilo que é a Europa,  a União e os seus  Estados Membros,  e o nosso  engajamento em  Moçambique e  parceiros no país”

Antonio Sánchez-Benedito Gaspar - Embaixador da União Europeia em Moçambique

Como avaliam as edições anteriores?  
Como em todas as 140 delegações da União Europeia pelo mundo, a celebração do Dia da Europa é tradição, e em Moçambique temos seguido essa linha, organizando edições anuais da Semana da Europa de forma consistente nos últimos anos. A pandemia não veio mudar isso, pelo contrário, levou-nos a diversificar a forma como celebramos a Europa – fomos ao formato digital. Em 2020 e este ano não tivemos o Festival de Cinema e o Concerto da Europa presenciais, mas mobilizámo-nos com os Estados membros à volta da ideia Europa em Moçambique. Tivemos no ano passado os hinos “Ode à Alegria” e “Pátria Amada” entoados pela moçambicana Stella Mendonça numa apresentação que foi excelente, e pudemos conseguir um feito similar este ano também, com o Xiquitsi a entoar os hinos. Esperamos fazê-lo ao vivo e presencialmente em 2022, desde que a situação sanitária o permita.  

O sector dos eventos foi um dos mais afectados pela pandemia. Como estão a lidar com as adversidades e que medidas tomaram para combater essas dificuldades?  
A União Europeia sempre esteve ciente das dificuldades que o mundo artístico enfrenta. A pandemia veio tornar a situação ainda mais difícil, pois sendo a arte, por natureza, mobilizadora de gentes, as restrições aos aglomerados significaram pouco espaço para uma expressão cultural livre. Entretanto, a nossa agenda de apoio ao sector das indústrias criativas não parou. Exemplo importante disso foi o nosso apoio, em 2020, ao Festival Gala-Gala, que mobilizou várias expressões artístico-culturais, como a música, artes visuais, teatro, dança, literatura, audiovisual e multimédia, com o envolvimento de quase 10 centros culturais na capital, Maputo. Continuamos a apoiar os artistas para que expandam o seu trabalho através de residências e mobilidade artísticas; através de apoio a projectos como Cantate, da Kulungwana, e de subvenções – as mais recentes assinadas a 10 de Maio com actores culturais –, do DIVERSIDADE, um instrumento financeiro de apoio à diversidade cultural, cidadania e identidade, no âmbito do nosso programa PROCULTURA.

Podia falar-nos um pouco da relação e cooperação entre a UE e Moçambique: passado, presente e futuro.
A parceria entre a União Europeia e Moçambique é profunda e de longa data: falamos de quase quatro décadas de intensa cooperação. Ao mesmo tempo, 11 dos 27 Estados Membros da UE têm aqui representações diplomáticas. A nossa parceria está assente numa agenda de luta contra a pobreza através da promoção do desenvolvimento sustentável, da paz e estabilidade, consolidação democrática, direitos humanos, bem como para abordar objectivos regionais de integração económica e comercial e enfrentar desafios globais cruciais, como as mudanças climáticas e o terrorismo.  

A UE e seus Estados membros é o maior parceiro de desenvolvimento de Moçambique. Só entre 2014 e 2020, através de vários instrumentos de cooperação, a UE apoiou Moçambique com mais de mil milhões de euros, em benefício da população e das instituições do país. A UE e os Estados Membros forneceram igualmente ajuda humanitária significativa a Moçambique na sequência dos ciclones devastadores em 2019, e em resposta aos multifacetados desafios na região norte do país. Para Cabo Delgado, a prestação da UE tem combinado ajuda humanitária, desenvolvimento e paz e segurança. O projecto +Emprego, que a UE financia e o Camões IP está a implementar em Cabo Delgado, virado para a formação e criação de emprego jovem, é disso exemplo.  

A UE é firme apoiante do processo de paz em Moçambique…
Com numerosos projectos e iniciativas que associam o desenvolvimento económico e social à paz. Desde a eclosão da pandemia da covid-19 e os primeiros casos em Moçambique, demonstrámos a solidariedade europeia, ajudando Moçambique a lidar com o impacto social e económico da pandemia, desde a resposta imediata para evitar o colapso do sistema de saúde aos esforços de mobilização de mais de 2 milhões de doses da vacina contra a covid-19, cujo primeiro lote, de 384 mil doses chegou e está em aplicação no país.  

Outro sector importante da nossa cooperação é a reconstrução pós-ciclones e a incrementação de resiliência de forma a que haja uma resposta mais eficaz face a futuros desastres naturais. Na vertente do comércio, o Acordo de Parceria Económica entre a UE e os países da SADC veio consolidar a posição da UE como um grande parceiro comercial de Moçambique, e não só – a UE é o maior destino de exportação de mercadorias moçambicanas sem tarifas nem quotas e é o segundo maior parceiro em termos de importações. Estamos ainda a reforçar a nossa cooperação apoiando o Ministério da Indústria e Comércio a guiar a implementação da Zona de Comércio Livre Continental Africana, que, tal como discutimos na Mesa Redonda Económica de 12 de Maio, será um factor de mudança e oportunidades para Moçambique.  

Olhando para o novo ciclo de cooperação entre a EU e Moçambique – no quadro pós-Cotonou – estamos ainda numa fase de clarificação de prioridades, mas a juventude, a transição verde e a paz e boa governação terão um destaque especial neste programa que vai de 2021 a 2027. É o início de uma nova fase de cooperação, com abordagens comuns aos problemas globais, ao nível continental e também em Moçambique.

Está instalada na Residência oficial do Senhor Embaixador a Escultura “Harmonia da Diferença”. Pode falar-nos um pouco desta obra?
Pois sim, “Harmonia da Diferença” é o nome da escultura do artista moçambicano Gonçalo Mabunda instalada na Residência oficial da União Europeia em Maputo. Ela simboliza o empenho e parceria da União Europeia em prol da paz em Moçambique. Inaugurámos esta obra como parte das actividades de celebração do Dia a Europa em Moçambique. A ideia da escultura surgiu-me exactamente para celebrar e solidificar a nossa cooperação pela paz e estabilidade e o nosso engajamento e diálogo com a sociedade civil. Esta obra representa, portanto, um espírito de esperança, de apelo à paz e à harmonia mesmo em meio das diferenças. O artista Mabunda disse, ele próprio, “cada bala destruída e transformada significa uma vida salva”, é dessa forma que caminhamos para a solidificação da paz.  

A escultura “Harmonia da Diferença” é uma estrutura metálica, com cerca de 200 quilogramas, composta essencialmente por peças de material bélico transformadas e reutilizadas seguindo a linha artística que consiste em transformar material bélico em arte. Tem na sua parte frontal-central simbolizadas as 11 províncias moçambicanas e, no lado oposto, também simbolizados os 11 Estados Membros da União Europeia com representação diplomática em Moçambique. Na escultura está também representado “o amor” através da figura de um coração assente no topo.